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Dólar a R$ 4,60: entenda por que a moeda continua caindo e saiba se é hora de comprar

Brasil ficou mais atrativo com a subida de preço das commodities, entrada de investidores estrangeiros e Selic mais alta. Por outro lado, juros nos EUA e eleições brasileiras podem mudar tendência de queda. Notas de dólar
Gary Cameron/Reuters
A queda do dólar é, até aqui, o fator mais curioso da economia em 2022. Com projeção de economistas indicando um valor de R$ 5,25 para o fim deste ano, a moeda americana chegou aos R$ 4,60 no fechamento de segunda-feira (4), um retorno aos valores de março de 2020.
A marca é significativa pois alcançou, pela primeira vez, dos patamares pré-pandemia do coronavírus. Desde o início do ano, a queda acumulada é de 17,35%. E desde o recorde nominal do dólar — R$ 5,9007, no dia 13 de maio de 2020 —, o recuo foi de 21,9%.
O g1 ouviu economistas ao longo do ano, que atribuem esse momento de “queda livre” a três fatores:
uma entrada mais intensa de investidores estrangeiros no país;
uma alta significativa dos preços das commodities;
e o diferencial de juros brasileiros (juro brasileiro em patamar maior que no exterior) depois da alta acelerada da taxa Selic desde o ano passado.
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Já no último mês, os fatos novos que contribuíram para que a queda se acentuasse têm relação com a guerra na Ucrânia. A América Latina, como um todo, tornou-se um ambiente interessante para receber investimentos, porque esses países exportam muitos produtos primários e têm o ambiente mais favorável do momento entre países emergentes.
Especialistas, porém, não cravam que o movimento de queda seguirá indefinidamente. O Brasil tem eleições presidenciais à vista, e os Estados Unidos iniciaram uma subida de taxa de juros, o que costuma seduzir investidores a mudar a direção de seus dólares e enfraquecer moedas de países emergentes. Isso porque os investidores buscam sempre o maior lucro (juros maiores) combinados à maior segurança – e os EUA são considerados risco zero, diferente do Brasil.
Entenda a queda do dólar e a projeção para o futuro
Alta das commodities
A reabertura econômica desde o enfraquecimento da pandemia havia trazido um impulso ao preço das commodities (produtos básicos de matéria prima, como petróleo, soja e ferro, cujos preços costumam ser cotados em dólar) no mercado internacional.
Em um exemplo que o g1 mostrou ao longo do ano passado, os combustíveis sofreram seguidos choques com o aumento dos preços do petróleo no mercado internacional e também com o real desvalorizado frente ao dólar. O mesmo aconteceu com alimentos, por exemplo.
Com o dólar caro, essa alta das commodities não servia como motor para a economia brasileira, mas, sim, para a inflação.
Além disso, o país enfrentou uma severa seca que elevou o preço de energia elétrica. Por fim, as interrupções industriais causadas pelo coronavírus impactaram as cadeias de produção globais, gerando uma crise de oferta e novo aumento de preços nos mais diversos setores.
A principal maneira que o Brasil encontrou de combater o apetite dos preços foi uma rápida elevação dos juros.
Juros reais em alta
Do início de 2021 até agora, a taxa Selic subiu de 2% para 11,75% ao ano. Os juros reais do país, agora, ocupam a vice-liderança mundial, atrás apenas da Rússia.
Se por um lado os juros prejudicam a atividade econômica, por outro fazem do país um polo mais atraente de investimentos entre os países emergentes – já que os investidores buscam a maior rentabilidade para o seu dinheiro. Em especial enquanto acontece um conflito militar do outro lado do planeta.
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Foi a partir dos juros mais altos que o fluxo de dólares se direcionou para o Brasil, fortalecendo o real.
Um levantamento da Economatica mostra que o real é moeda que mais se apreciou em relação ao dólar neste ano dentre 25 moedas. Enquanto o dólar cai 17% para o brasileiro, ele sobe 32% para os turcos, 12% para russos, 8% para argentinos e 3% para europeus.
Investimento estrangeiro
Um demonstrativo importante da entrada de investimento estrangeiro no país é o saldo desse perfil de investidor na bolsa de valores brasileira. Dados da B3 mostram que o Ibovespa acumula saldo positivo de R$ 68,3 bilhões neste ano só dos recursos vindos de fora.
E as ações com maior peso no principal índice da bolsa são justamente de empresas ligadas às commodities. No ano, a Vale acumula alta de 30,5%. A Petrobras, de 14,9%. As empresas têm os maiores pesos no Ibovespa.
Em contexto favorável, a bolsa acumula alta de 15,71% neste ano.
E o efeito no dólar é simples, e segue a lei da oferta e demanda: quando o investidor coloca mais dólares na economia brasileira, há volume maior da moeda por aqui, baixando o preço.
“A balança comercial sai favorecida e a bolsa de valores tem muitas empresas listadas sensíveis às commodities. Na pandemia, o dólar disparou e ficou muito tempo entre R$ 5 e R$ 6. O mercado agora testa os patamares do pré-pandemia aos poucos”, diz André Perfeito, estrategista-chefe da Necton.
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Guerra na Ucrânia
Um fator muito importante para que o dólar continuasse caindo, ao contrário do que se esperava, é o efeito da guerra na Ucrânia.
Economistas já esperavam que itens importantes como alimentos e combustíveis ficassem relativamente controlados se o real continuasse valorizando. Mas, em geral, a aversão a risco mais intensa tende a levar dólares embora de economias emergentes.
É verdade que alguns itens ainda incomodam, como os combustíveis. Mas, em uma situação de real fraco, a situação estaria muito pior.
Em 2020, quando o dólar estava em patamares parecidos com o momento, o preço do barril de petróleo teve média de US$ 44. O conflito na Rússia fez o insumo ultrapassar a barreira de US$ 100, chegando a picos de US$ 140.
Mas a avaliação para que os investidores não fugissem é de que o país ganhou relevância entre os emergentes, enquanto o receio com o risco não dominou o mercado financeiro.
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Segundo Roberto Motta, chefe da mesa de derivativos da Genial Investimentos, a Rússia era um país relevante na alocação de investimentos entre os países emergentes, mas saiu da equação desde o início da guerra.
Ao mesmo tempo, a China também foi prejudicada por não ter um posicionamento notadamente contrário aos russos. O receio de investidores é que algum movimento chinês pudesse inseri-los nos pacotes de sanções econômicas impostas pelo Ocidente.
“A Rússia era um emergente com bons fundamentos: preço baixo de energia, dívida pública na casa de 40% do PIB. Virou um país impossível de investir. Então, esse dinheiro foi parar na América Latina”, diz Motta.
O economista cita também uma valorização do peso mexicano, do chileno e do sol peruano. No levantamento da Economatica, até a segunda-feira, o dólar acumulava queda de 3,5%, 7,8% e 7,1% contra essas moedas, respectivamente.
O dólar vai continuar em queda?
Para os especialistas ouvidos pela reportagem, não é possível cravar o movimento do dólar nos próximos meses. Alguns fatores, contudo, contribuem para que se tenha um norte.
Motta, da Genial, diz que a “tese” de valorização ainda não mudou: as commodities devem continuar em alta e o Brasil é um produtor importante de grãos e minérios. Além disso, nada indica uma reversão da política monetária ou recompra de dólares por parte do Banco Central do Brasil, o que mantém o diferencial de juros que atrai dólares para o país.
Uma hipótese de alta do dólar seria um cenário de recessão global, que prejudicaria o mercado de commodities e mudaria o fluxo de investimento para economias mais estruturadas.
“Uma solução da guerra na Ucrânia tiraria o risco de uma nova alta repentina das commodities que complicam a inflação. Mas a capacidade de produção da Ucrânia está destruída, e a volta da Rússia não deve ser rápida. Isso favorece a América Latina”, afirma o economista.
Para André Perfeito, da Necton, as eleições deste ano devem trazer algum “agito” para o dólar no segundo semestre. Ele projeta que a moeda americana deve terminar 2022 na casa dos R$ 5.
“Ainda assim, o entendimento hoje é que Lula e Bolsonaro são favoritos e candidatos conhecidos. Qualquer um precisará enviar medidas de ajuste em 2023. Ninguém espera uma radicalização de Lula ou que Bolsonaro mantenha as medidas populistas”, afirma.
Além do pleito presidencial, o economista da Necton espera que haja algum efeito da política monetária americana na cotação do dólar nos próximos meses. O Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, iniciou uma sequência de altas dos juros americanos, o que leva de volta para o país um capital que havia saído em busca de retornos maiores em economias emergentes.
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A recomendação de especialistas para que o turista faça uma boa compra de dólares é adquirir a moeda estrangeira em etapas.
Ao comprar em diferentes períodos até a data da viagem, é possível se aproveitar de um preço médio da moeda — não será, portanto, nem a melhor, nem a pior cotação.
Nos últimos 4 anos, a menor cotação do dólar foi justamente em abril de 2018: R$ 3,3104. Mas, desde novembro de 2019, o câmbio não fica abaixo dos R$ 4.
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