Biomecânica no esporte: como prevenir lesões e melhorar a performance
Atletas de ponta recorrem à biomecânica na preparação para os Jogos de Paris
Uma pisada errada, um chute sem estabilizar corretamente o quadril ou aterrissar de um salto com os joelhos voltados para dentro podem ser suficientes para causar uma lesão esportiva. Esses gestos parecem simples, mas quando realizados de forma incorreta desconsideram princípios biomecânicos essenciais, como o alinhamento das articulações, a distribuição adequada da carga e a amplitude correta do movimento.
É aí que entra a biomecânica, a área da ciência estuda como o corpo humano se movimenta, analisando a ação dos músculos, o funcionamento das articulações e os efeitos de forças externas, como o peso corporal, a gravidade ou o impacto contra o solo. Ela ainda leva em conta fatores práticos do dia a dia do atleta, como a escolha de tênis adequados para corrida, a altura de uma raquete de tênis ou até mesmo o uso correto de óculos e toucas na natação.
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Mulher corre na esteira durante avaliação médica
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– A biomecânica é uma aliada para qualquer atleta, seja profissional ou amador. Ela nos mostra como o corpo se movimenta e como corrigir falhas que, com o tempo, podem se transformar em lesões sérias – explica o ortopedista e traumatologista do esporte Bruno Canizares.
– A biomecânica estuda “como” você se move: ângulos articulares, forças no solo, contração muscular. Quando esses fatores estão bem coordenados, a carga se distribui melhor entre músculos, tendões e articulações, reduzindo picos de estresse repetitivo, principal gatilho de tendinites, dor patelofemoral, fraturas por estresse e distensões – complementa o médico do esporte Lindbergh Barbosa de Souza Mendes, especialista em medicina esportiva, dor e reabilitação.
Menos lesões, mais rendimento
No futebol, por exemplo, cada gesto técnico – correr, chutar, saltar, mudar de direção – gera forças que atravessam músculos, articulações e tendões. Quando o movimento é bem executado, a carga se distribui de forma equilibrada. Quando há falhas, aumenta o risco de sobrecarga.
– Avaliar e corrigir padrões de movimento garante menos lesões, mais performance e maior tempo em campo – afirma o fisioterapeuta Eduardo Saraiva.
Entre os erros mais comuns em atletas amadores estão:
Correr com o tronco muito para trás;
Dar passos muito longos (conhecido como overstride);
Deixar os joelhos caírem para dentro em mudanças de direção;
Manter desequilíbrios musculares, como quadríceps muito mais fortes do que os posteriores.
– Também são frequentes o colapso do joelho para dentro (valgo dinâmico) em agachamentos, saltos e corrida; a queda de pelve (hip drop) por fraqueza do glúteo médio; a rotação interna excessiva do fêmur e do pé; e o tronco muito inclinado ou rígido, o que compromete o controle do core – destaca o médico do esporte Lindbergh Mendes, que também é ortopedista e traumatologista.
Todos esses erros elevam a carga em joelho, quadril e tornozelo, aumentando o risco de lesões. Segundo os especialistas, ajustes simples na técnica, somados a exercícios de força excêntrica e de fortalecimento do core, já reduzem bastante as chances de problemas.
Atleta faz alongamento no gramado
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Um alinhamento correto evita sobrecarga pontual em cartilagem, meniscos e ligamentos. Já alterações aumentam forças de cisalhamento e tração, predispondo a rupturas e desgaste. Alinhar joelho-quadril-tornozelo mantém as forças dentro de faixas seguras. Sem alinhamento, pequenas assimetrias podem se transformar picos de pressão em cartilagem e tendões. Distribuir carga ao longo da cadeia cinética (pé-panturrilha-quadríceps-glúteos-core) protege estruturas específicas de sobrecarga, indicam os entrevistados.
Corrida e futebol sob a lente da biomecânica
Os especialistas explicam que, na corrida, pequenos ajustes podem fazer grande diferença. Algumas medidas reduzem o impacto, economizam energia e diminuem dores em tornozelo, joelho e quadril:
Manter o tronco levemente inclinado para frente;
Evitar passadas muito longas;
Buscar um contato do pé mais suave e equilibrado com o solo.
No futebol, além das falhas técnicas, os desequilíbrios musculares são determinantes.
– O mais clássico é o desequilíbrio entre quadríceps e isquiotibiais, que leva a estiramentos. Também vemos fraqueza de adutores, déficit de core e erros em aterrissagem, todos fatores que favorecem lesões de joelho – diz Eduardo Saraiva.
Esses desequilíbrios explicam por que estiramentos e rupturas de ligamento cruzado anterior (LCA) são tão comuns em jogadores de diferentes níveis. A biomecânica, nesse caso, permite identificar riscos antes que eles se transformem em lesões graves.
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Eficiência e economia de energia
Além de prevenir lesões, a biomecânica também ajuda a economizar energia e a melhorar a performance.
– Quando o movimento é eficiente, o gasto energético é menor, a força é melhor aproveitada e o desempenho melhora – afirma Bruno Canizares.
Um exemplo prático é a corrida: gestos técnicos corretos evitam desperdício de energia e ajudam o atleta a manter o mesmo ritmo por mais tempo. No futebol, ajustes em chute, salto e aterrissagem permitem que o jogador use menos esforço para alcançar o mesmo resultado, reduzindo a fadiga acumulada ao longo da partida.
– Quanto mais eficiente o movimento, melhor a performance em velocidade, salto, agilidade e resistência. Estudos mostram que programas de treino que atuam em estabilidade do core, controle neuromuscular e força reduzem movimentos compensatórios e melhoram o Functional Movement Screen (FMS), diminuindo o risco de lesões – complementa o médico ortopedista Cesar Janovsky, especialista em cirurgia de joelho.
Homem faz exercício de mobilidade na quadra
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Tecnologia como aliada
A análise biomecânica pode ser realizada com recursos simples ou de alta tecnologia. Em centros avançados, laboratórios 3D de análise de movimento são considerados padrão-ouro, mas também existem métodos mais acessíveis, como filmagens em vídeo 2D, plataformas de força, sensores inerciais e até aplicativos de celular.
– No futebol profissional, usamos GPS para medir acelerações, plataformas de força para avaliar saltos e câmeras de alta velocidade para analisar detalhes técnicos. Até aplicativos podem ajudar amadores a identificar falhas básicas – explica Eduardo Saraiva.
Essas tecnologias, de acordo com o fisioterapeuta, permitem observar em detalhe cada gesto do atleta e corrigir erros antes que eles se tornem lesões.
Benefícios para todos os níveis de atletas
Apesar de ser comum em atletas de elite, a biomecânica também traz benefícios para amadores e recreativos. De acordo com Eduardo Saraiva, muitos jogadores de fim de semana possuem lesões sérias porque nunca corrigem seus movimentos. A biomecânica serve para todos: “quem joga aos domingos e quem joga no Champions League”.
A frequência das avaliações varia conforme o nível do praticante.
— A biomecânica não é exclusiva de atletas de elite. Qualquer praticante recreativo pode se beneficiar, correndo com mais conforto, reduzindo dores recorrentes e treinando com mais segurança. A diferença está apenas na profundidade da análise, mas o princípio é o mesmo. O ideal é reavaliar a cada mudança de treino ou volume, após uma lesão e, se tudo estiver estável, manter revisões periódicas a cada 6 a 12 meses — detalha Lindbergh Mendes.
O papel da equipe multiprofissional
Os especialistas reforçam que a prevenção não depende apenas de um ajuste técnico, mas de um trabalho integrado. Todos os profissionais envolvidos devem alinhar todas as informações dos atletas. Só assim será possível corrigir tanto a técnica quanto o condicionamento e o retorno seguro ao esporte.
— A prevenção de lesões somente é realmente eficaz quando existe integração. O médico do esporte cuida do diagnóstico e da estratégia, o fisioterapeuta atua no controle motor e na reabilitação, o educador físico ou treinador orienta a progressão de carga e a técnica, e, quando necessário, o psicólogo contribui com atenção, foco e tomada de decisão. É o trabalho em equipe que faz a diferença -, enfatiza o médico do esporte Lindbergh Mendes.
O que o atleta amador pode fazer para prevenir lesões e melhorar a performance
Mulher faz exercício de core
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Mesmo sem acesso a laboratórios de alta tecnologia, atletas amadores podem se beneficiar de cuidados básicos no dia a dia:
Fazer alongamentos regulares para manter mobilidade;
Estar atento a sinais de alerta como dor recorrente, rigidez articular ou instabilidade;
Ter uma rotina breve de mobilidade (tornozelo, quadril, coluna torácica);
Fortalecer de duas a três vezes por semana de glúteos, core e panturrilhas;
Progredir carga gradualmente (volume, intensidade e complexidade);
Gravar vídeos da própria corrida ou treino para observar a técnica ou solicitar orientação profissional;
Variar superfícies e calçados conforme o objetivo; trocar tênis desgastado;
Dormir bem, hidratar-se e respeitar sinais de fadiga e dor.
– O corpo costuma dar sinais claros de que algo está errado na execução dos movimentos. Sentir dor recorrente após os treinos, rigidez articular, sensação de instabilidade ou “falseio” e até o desgaste unilateral em tênis ou chuteiras são alertas de sobrecarga que não devem ser ignorados. O importante é não ignorar esses sinais e buscar avaliação precoce -, alerta Cesar Janovsky.
Mais tempo praticando, menos tempo tratando
A grande promessa da biomecânica é prolongar a carreira de atletas, sejam eles profissionais ou amadores de fim de semana, ao reduzir microlesões cumulativas e sobrecargas articulares. Ajustes biomecânicos protegem contra desgaste precoce, diminuem o risco de lesões graves e permitem que os atletas permaneçam ativos por mais tempo.
Seja no esporte que você estiver treinando, investir em biomecânica é uma forma de cuidar do corpo hoje para continuar se exercitando sem dores amanhã. Afinal, prevenir lesões é sempre melhor do que tratá-las.
Fontes:
Bruno Canizares é médico ortopedista e traumatologista do esporte, com experiência clínica no tratamento das condições ortopédicas que afetam ombro, cotovelo e joelho.
César Janovsky é médico ortopedista, com especialização em cirurgia de joelho. Diretor médico da Clínica Janovsky Ortopedia. Atua como ortopedista no Hospital Israelita Albert Einstein, na Rede D’Or São Luiz e no Hospital Vila Nova Star.
Eduardo Saraiva é fisioterapeuta do Red Bull Bragantino.
Lindbergh Barbosa de Souza Mendes é médico ortopedista e traumatologista. Médico do Esporte pela Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) e Associação Médica Brasileira (AMB). Pós-graduado em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN). CEO da SALP – Saúde de Alto Padrão, clínica especializada em Medicina Esportiva, Dor e Reabilitação, em Montes Claros, em Minas Gerais. geRead More


