Craque e ídolo máximo do Boca, Riquelme tornou-se um presidente que fracassa no futebol
O Censo 2022 apontou que existiam nada menos do que 25.942 pessoas registradas com o nome Riquelme em solo brasileiro. Levando em conta as variações, como Ryquelme, o número passava de 31 mil. Esses dados refletem uma espécie de reverência brasileira a um nome para o qual não se deve hesitar em acrescentar o substantivo “craque” — certamente, um dos craques mais subestimados das últimas décadas.
No universo do Boca Juniors, praticamente não há discussão: Juan Román Riquelme, nascido em 1978, em San Fernando, na província de Buenos Aires, é considerado o maior nome da história de um clube que já teve sua camisa vestida por Maradona. Desde o momento em que se aposentou do futebol, em 2015, ele deixou clara sua intenção de se envolver na política do clube xeneize, certamente movido por aquele desafio que já impulsionou ídolos de várias cores: picado pela mosca azul (neste caso, azul y oro), queria realizar nos gabinetes pelo menos um pouco do que já havia feito dentro do campo.
A oportunidade chegou sete anos depois de pendurar as chuteiras, quando Riquelme decidiu concorrer como vice-presidente na chapa liderada por Jorge Amor Ameal, em oposição ao então presidente, Daniel Angelici. Entre 2011 e 2019, Angelici teve uma gestão fortemente criticada pela falta de êxito nas competições internacionais, coroada com a amarga derrota para o rival River Plate na decisão da Libertadores 2018. Também era acusado de priorizar interesses políticos devido à proximidade com Mauricio Macri (mandatário do clube nos gloriosos anos 2000 e presidente da Argentina entre 2015 e 2019). Além disso, Angelici manteve uma péssima relação com nomes históricos do clube, incluindo o próprio Riquelme, a quem qualificou como “detonador de vestiário” e “pouco ético”, afirmando que nem torcedor ele era, e manifestou a intenção de construir um novo estádio para substituir a Bombonera, possivelmente com investimento estrangeiro, tocando em um ponto extremamente sensível da identidade xeneize.
Era o cenário perfeito para o envolvimento de uma figura como Riquelme, profundamente identificado com as arquibancadas e com o caráter popular do clube do bairro de La Boca. Após a vitória nas urnas, amparado por cerca de 18 mil votos, o ídolo viu os primeiros anos transcorrerem de forma promissora: o Boca Juniors continuava sem obter sucesso internacional, mas voltou a vencer o River Plate em confrontos eliminatórios e faturou uma série de títulos nacionais (dois Campeonatos, duas Copas da Liga e uma Copa Argentina).
Candidato, Riquelme faz festa com torcida após votar em eleições do Boca Juniors
Na eleição seguinte, o passo seria maior, tão largo e ambicioso quanto nos tempos em que desfilava em campo: Riquelme encabeçava a chapa, concorrendo à presidência do Boca. E as questões envolvidas extrapolavam o próprio ambiente clubístico. Na oposição, a chapa liderada por Andrés Ibarra, tinha como candidato a vice ninguém menos que Mauricio Macri. Além do projeto esportivo, ganhou destaque o embate político: defensor das SADs no futebol argentino (o equivalente às SAFs), o ex-presidente Macri contou com apoio público do ultradireitista Javier Milei, então candidato a principal inquilino da Casa Rosada.
Na Argentina, clubes e torcedores apresentam forte resistência à ideia de privatização do futebol, representada pelas sociedades anônimas (que inclusive são proibidas em regulamento pela AFA), e buscam defender o caráter comunitário das agremiações esportivas. Uma entidade do tamanho do Boca Juniors, com mais de 40% da preferência entre os torcedores, teria influência suficiente para interferir neste processo. A resposta dos xeneizes veio nas urnas: semanas depois de Javier Milei vencer a eleição presidencial, Juan Román Riquelme tornou-se presidente do Boca Juniors com cerca de 30 mil votos, o dobro conquistado pela chapa macrista, no segundo maior pleito do futebol mundial, atrás apenas das eleições do Barcelona em 2010.
Por ironia, a consagração de Riquelme nas urnas seria também uma espécie de fim do conto de fadas. O craque conquistou o gabinete presidencial, mas a genialidade de camisa 10 permaneceria restrita ao campo. Não que sua gestão seja prejudicial ao clube. Bem pelo contrário. Enquanto o grupo liderado por Mauricio Macri pretendia se desfazer da mítica casa para construir um novo estádio, a diretoria vigente desde 2019 vem investindo pesado na remodelação da Bombonera, inclusive com um projeto que prevê a ampliação do histórico estádio, com a capacidade passando dos atuais 58 mil lugares para cerca de 80 mil torcedores.
Também foram realizados fortes investimentos no centro de treinamentos do clube, localizado em Ezeiza, na província de Buenos Aires, mais conhecido como Boca Predio. Com estrutura de ponta, é lá que o plantel principal treina desde 2021 e onde estão as divisões de formação — em 2024, o Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos do Esporte (CIES) classificou a categoria de base do Boca como a segunda mais produtiva do mundo, com 93 atletas lá formados jogando nas principais ligas, atrás apenas do Benfica.
Estádio La Bombonera antes de Boca Juniors x Corinthians
Marcelo Braga
Com forte viés social, assim como muitos clubes argentinos, o Boca Juniors inclusive inaugurou, cinco anos atrás, um centro médico com mais de 20 especialidades para atender de forma gratuita aos sócios e moradores de La Boca. Ou seja, fora de campo o clube vai muito bem (inclusive nas quadras, já que o time de basquete é bicampeão argentino e atual vice continental, após perder a decisão da Champions League das Américas para o Flamengo). O calcanhar de Aquiles da gestão é realmente o futebol, onde as coisas insistem em não acontecer.
É importante salientar que, comparada ao cenário vizinho, a política futebolística no Brasil é um parquinho de diversões: na Argentina, o que acontece nos clubes com frequência reverbera na própria política do país — e o contrário também procede. Assim, a cada tropeço do Boca Juniors em campo, a oposição macrista desaba como uma avalanche sobre Riquelme, inclusive através de ações judiciais, e muitas vezes associando-o ao kirchnerismo, vertente do peronismo surgida com os governos de Néstor Kirchner e Cristina Kirchner.
No que diz respeito às quatro linhas, é verdade que não faltam subsídios para críticas, inclusive de muitos riquelmistas sensatos. Logo após ser eleito presidente, em dezembro de 2023, Riquelme anunciou o nome de Diego Martínez, ex-Huracán, como novo técnico, em substituição a Jorge Almirón, que havia chegado à decisão da Libertadores (perdida para o Fluminense), mas com desempenho bastante questionável, avançando na competição graças à perícia de Sergio Romero nas decisões por penais. Apesar do começo promissor, voltando a vencer clássicos contra River Plate, Racing e San Lorenzo, a equipe de Martínez mostrava sérias debilidades, e a eliminação para o Cruzeiro nas quartas da Sul-Americana, somada a uma derrota para o River em plena Bombonera, levou à demissão do técnico. Dessa forma, a primeira temporada com Riquelme na presidência acabaria com futebol pobre e sem títulos.
A crise esportiva parece ter afetado o ânimo da torcida: em apenas um ano, o Boca Juniors perdeu cerca de 40 mil sócios, segundo relatório da AFA (o clube afirma que a diminuição aconteceu por uma mudança de critérios). A forma centralizadora de comandar o futebol é motivo de críticas contundentes. Talvez porque tenha jogado demais, Riquelme não confia em quase ninguém quando o assunto é a bola — ainda hoje, ele acumula as funções de presidente e diretor de futebol. Na tentativa de se cercar com pessoas de sua confiança, em 2019 montou o famoso e malsucedido Conselho de Futebol, que na verdade era um triunvirato composto por ex-jogadores históricos, seus amigos Maurício Serna, Raúl Cascini e Marcelo Delgado.
No ano passado, os resultados em campo passaram de insuficientes a vexatórios, com eliminação na fase preliminar da Libertadores diante do Alianza Lima, na Bombonera, e campanha patética no Mundial de Clubes, com a queda sacramentada após um empate contra o time praticamente amador do Auckland. Ao término do seu segundo ano como presidente, novamente sem títulos, Riquelme resolveu dissolver o Conselho de Futebol, mas manteve “Chelo” Delgado como seu braço direito para os assuntos do futebol. No entanto, nos gabinetes o camisa 10 jamais aprendeu a jogar sem a bola: as decisões sobre o que acontece no campo obrigatoriamente devem passar por Riquelme.
Não é inédito, na verdade nem chega a surpreender, que um gênio da bola mostre ineficiência para administrar o futebol de um clube — muitos outros ídolos já sofreram essa sina. No caso de Riquelme, o que impressiona é sua incapacidade, na condição de dirigente, de entender o próprio futebol, que foi seu amigo íntimo desde a infância. Em seus seis anos de gestão, como vice ou presidente, multiplicaram-se escolhas equivocadas de técnicos e contratações que acabaram fracassando, como os veteranos Ander Herrera e Edinson Cavani. E até o que pode dar certo parece errado: o último reforço (que se soma a Santiago Ascacíbar e Ángel Romero para a atual temporada) trata-se do atacante paraguaio Adam Bareiro, que estava no Fortaleza (mas metade dos mais de três milhões de dólares que o Boca deve pagar vai justamente para o rival River Plate, detentor de 50% dos direitos sobre o jogador, o que fez as flautas e cornetas assoprarem com força).
Cavani em Boca Juniors x Auckland City
REUTERS/Steve Roberts
Uma das evidências de que o dirigente Riquelme parece eternamente refém de seus tempos de jogador é que a primeira escolha para assumir o comando da equipe, quando assumiu em 2019, foi Miguel Ángel Russo, responsável pelo último título da Libertadores, em 2007, quando o atual presidente só não fez chover na decisão contra o Grêmio. De fato, Russo desenvolveu o melhor trabalho dessa fase, e também foi o técnico que mais tempo permaneceu (cerca de um ano e meio no cargo). Depois dele, passaram pela casamata xeneize nomes como Sebastián Battaglia, Hugo Ibarra, Jorge Almirón, Diego Martínez e Fernando Gago.
A relação entre a diretoria e os técnicos nunca se mostrou das mais cordiais, inclusive com nomes históricos: jogador mais vezes campeão com a camisa azul y oro, Battaglia teve sua demissão comunicada em um posto de gasolina. Por longos períodos, o time ficou sob comando de técnicos interinos, que muitas vezes foram efetivados mais pelo costume com sua presença na beira do campo do que por convicção. Em junho de 2025, para estancar a crise, Riquelme recorreria novamente ao seu porto seguro: Miguel Ángel Russo (que faleceria meses depois) voltou para assumir o time às portas do Mundial de Clubes e interromper uma impressionante sequência negativa, quando a equipe chegou a ficar 12 jogos sem vencer, um recorde negativo na história do clube.
Em março, completam-se três anos do último título (uma modesta Supercopa Argentina) e o trabalho do atual técnico, Cláudio Úbeda, outro interino emergente das categorias de base, provoca calafrios a cada atuação do time. Após derrota para o Vélez Sarsfield, quando a equipe poderia ter sido goleada, o próprio Riquelme interferiu no treino para ter uma conversa com os jogadores. Na última partida, um empate com gosto de vinagre diante do Platense, na Bombonera.
Na sétima colocação do campeonato, com apenas duas vitórias em cinco jogos, hoje o Boca recebe o Racing, e certamente a tensão sobre a Bombonera será quase palpável. A impressão é que grande parte da torcida quer arrancar os cabelos, talvez até perder os sentidos na hora do jogo, mas antes gostaria de compreender como é possível que o homem que colocou o Real Madrid para dançar em 2000 e ainda causa pesadelos em torcidas de metade do continente tornou-se tão pouco hábil para lidar com o futebol quando passou a ocupar o escritório da presidência.
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