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Jovem técnica negra do futsal do Ceará inspira nas quadras e festeja conquistas

Jovem técnica negra do futsal do Ceará inspira nas quadras e festeja conquistas

Maphysa Marques, treinadora do futsal do Ceará, conversa com o ge
Maphysa Marques, maranhense de São Luís, é mulher negra, líder e uma referência no futsal do Ceará. Aos 28 anos, ela comanda as categorias de iniciação do futsal do Alvinegro e carrega consigo uma história que nasceu “em meio a vários garotos e no meio da favela” e que hoje é coroada por respeito e caminho aberto para quem vem.
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A trajetória dela não seguiu o roteiro comum. Enquanto muitos chegam ao esporte pela vivência direta nas quadras, Maphysa entrou pela porta do conhecimento, um caminho construído com disciplina, insistência e com o apoio incansável da mãe, que fez de tudo para que a filha tivesse estudo e oportunidade. Em conversa com o ge para o Dia da Consciência Negra, Maphysa contou a história.
— A minha história é a de uma garota que, em meio a vários garotos, brincava na rua, jogava bola na rua, no meio da favela, lá de São Luís. Foi quando eu comecei a me apaixonar pelo esporte. Visto que são poucas oportunidades para as mulheres, me sobrou estudar, me sobrou entrar no esporte através do estudo. Eu comecei a fazer a faculdade de Educação Física e a me preparar para entrar nesse meio — contou.
Desde cedo, Maphysa sabia que enfrentaria um ambiente dominado por homens, e o maior desafio, como ela mesma define, sempre foi “ser mulher”.
Ser mulher foi o meu maior desafio. Porque, sendo mulher, a gente tem dificuldade de não poder falar alto. Porque a mulher não é vista falando alto, então a gente é vista de outra forma. Já me chamaram de agressiva, às vezes, pelo fato de falar alto. Ser mulher dentro de um mundo historicamente masculino foi o meu maior desafio
Maphysa com os atletas do sub-8 do Ceará
Arquivo pessoal
Mas ela não recuou. Transformou cada barreira em preparação.
— Ser mulher faz com que eu precise provar muito mais que eu mereço estar aqui — completou.
A presença de mulheres no esporte é, por si só, resistência. Quando essas mulheres são negras, a palavra ganha ainda mais camadas: representatividade, força, resiliência e avanço. E mesmo enfrentando hostilidade vinda de fora, Maphysa aprendeu a responder com o que acredita ser inegociável: respeito e educação.
E, mesmo em um país marcado pelo racismo estrutural, ela pondera que nunca viveu discriminação racial dentro dos ambientes onde trabalhou, que pode ser um sinal de evolução.
— Geralmente, falas e xingamentos vêm mais da torcida adversária. Nunca tive um problema com o meu ambiente onde estive presente, mas mais em jogos e campeonatos, principalmente fora. Graças a Deus, a capacidade e os estudos me fizeram ter um pouco de respeito. Não é todo mundo que tem isso, mas eu consegui chegar nesse lugar através de muito estudo e trabalho. Eu meio que me respaldo com isso — expõe.
Representatividade não é discurso: é consequência real. Maphysa vê nos olhos das crianças. Ela conta sobre uma goleira do sub-8, que joga com os meninos e a vê como inspiração para sonhar com seleção brasileira, porque, se Maphysa conseguiu liderar um grupo majoritariamente masculino e chegar aonde chegou, por que ela não poderia defender o Brasil?
— Lá no grupo P12, na categoria sub-8, a gente tem uma goleira que joga com os meninos, e ela é a goleira titular do time, considerada a melhor goleira de vários campeonatos lá. E uma vez ela chegou para mim e falou que eu era a maior inspiração dela, porque se eu conseguia estar no meio de vários, dando treino, sendo a treinadora, logicamente ela conseguiria ser a goleira da seleção brasileira. Foi um momento muito especial, e já aconteceu sim de várias mães chegarem: “Ô, professora, ainda bem que você é mulher, porque você entende o que a gente faz”. Sempre aconteceu essa ligação – lembrou.
A importância da mãe
Maphysa Marques, treinadora do Ceará
Giovanna Borges/SVM
No Dia da Consciência Negra, a data ganha outra dimensão para quem luta diariamente por respeito, dentro e fora das quatro linhas. Para Maphysa, a data é memória, alerta e celebração.
— Representa memória, tradição, lembrança e uma luta que não deve parar. Ela vai continuar nos ensinando. Falando de uma forma pessoal, é como se fosse uma retratação que acontece devagar, mas acontece, e o importante é que aconteça. Mas serve como memória para a gente lembrar, não que seja só dor, mas que é uma luta e que tem muita vitória por trás dessa data tão especial — disse.
Emocionada, Maphysa também faz questão de reconhecer todos que ajudaram a construir essa história, em especial, sua mãe e agora o Ceará, clube onde chegou somando, conquistando imediatamente um título estadual muito valorizado.
Uma das pessoas que foram fundamentais, fico até um pouco emocionada, não vou conseguir falar… [Silêncio] É a minha mãe. Minha mãe, empregada doméstica, teve que trabalhar muito para poder pagar minha faculdade. Ela foi fundamental para eu ser quem eu sou hoje, para eu ser essa pessoa
— Também tive o prazer de trabalhar com pessoas incríveis, como o professor Simão, e agora mais recente com Pedro Brito, lá do grupo P12, que foi uma pessoa extraordinária comigo também. E também agora com o pessoal do Ceará, pois eu já cheguei somando com a equipe, onde eu tive a honra de conseguir o título cearense, um título que aqui é muito desejado. Então, eu já cheguei tendo o prazer de vivenciar isso. Tem muita gente envolvida. A Maphysa não conseguiu nada sozinha, e eu acho que ninguém consegue. A gente sempre precisa de alguém — finalizou.
Conquistas
Dentro de quadra, Maphysa foi campeã maranhense de futsal e fut7 e campeã da Iberleague Maranhão.
No ano passado, ficou em quarto lugar na Taça Brasil com o time São Luís Academy, feito inédito para uma equipe do Maranhão.
Além disso, foi campeã do Circuito Vozão em 2024 com o sub-8 do São Luís Academy. Neste ano, ficou em terceiro lugar na Copa Norte e Nordeste com a categoria sub-9 do São Luís Academy e ergueu o troféu de campeã cearense sub-8 com o Ceará.
Maphysa conquista o título do Cearense sub-8 com Ceará
Arquivo pessoal
Hoje, no Ceará, Maphysa ocupa o espaço que um dia sonhou e, mais do que isso, abre portas para que outras meninas negras sonhem também. Ela é prova viva de que talento transforma, estudo liberta, resistência constrói, e representatividade muda vidas.
E, para muitas delas, Maphysa não é apenas treinadora. É farol. É caminho. É futuro possível. geRead More