Retorno do Camp Nou é ponto-chave para fortalecimento do Barcelona; entenda
Barcelona faz treino aberto para a torcida no Camp Nou
Depois de viver os melhores anos de sua história, o Barcelona teve tempos difíceis na última década. O clube enfrentou grande crise financeira e esportiva até voltar a ser protagonista no cenário europeu em 2024/25 – apesar da eliminação na semifinal da Champions. Mas passou por essa retomada longe de sua casa, o estádio Camp Nou, que depois de grande reforma, desde maio de 2023, voltará a receber uma partida do Barça neste sábado, contra o Athletic Bilbao.
A boa temporada anterior muito se deveu ao técnico Hansi Flick e à força de suas categorias de base, que forneceu jogadores como Yamal, Cubarsí, Baldé, entre outros. Mas as altas dívidas e o rigor do Fair Play Financeiro de LaLiga dificultam a busca por importantes contratações. O ge te mostra agora por que o retorno do emblemático estádio é um ponto-chave para recuperação econômica e fortalecimento do Barcelona.
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Camp Nou, estádio do Barcelona, recebeu torcedores em treino aberto no início do mês
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Dez anos sem vencer a Champions League, vendo seu maior rival Real Madrid conquistar cinco vezes o título europeu no período, já seria um período amargo para o torcedor catalão esquecer. Mas um processo de má administração acabou culminando em derrota vexatória por 8 a 2 para o Bayern de Munique, além de outras eliminações traumáticas na Liga dos Campeões, renúncia do ex-presidente Josep Maria Bartomeu e na saída de seu maior ídolo, Lionel Messi.
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Veja imagens aéreas da reforma do Camp Nou, estádio do Barcelona
Má administração e crise financeira
Em agosto de 2017, Neymar foi vendido ao PSG por 222 milhões de euros, ainda hoje o maior valor de transferência da história do futebol. No mesmo ano, o Barcelona gastou mais de 380 milhões de euros em reforços, entre eles Ousmane Dembelé (€ 148 milhões) e Philippe Coutinho (€ 135 milhões), que não entregaram futebol correspondente aos valores. Em 2019, foram mais € 120 milhões em Antoine Griezmann, que também não deu certo.
Na mesma época em que vendeu Neymar e contratou Dembelé e Coutinho, o Barcelona renovou o vínculo de Lionel Messi, até junho de 2021, por valores estratosféricos. Segundo o jornal El Mundo, o argentino recebeu € 515 milhões de euros pelos quatro anos de contrato. De acordo com a reportagem, este valor só seria menor que as folhas salariais de Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid no período, superando, por exemplo, o que recebia todo o elenco do Sevilla, quarta maior folha do país.
O Barça gastava muito e errava além do comum na contratação de jogadores. De julho de 2014 até janeiro de 2020, o Barcelona contratou 33 jogadores, num investimento de € 1,1 bilhão. Apenas 14 destes terminaram a temporada 2019/20 (última do mandato de Bartomeu) no clube. A situação financeira já não era das mais saudáveis, mas piorou de vez com a chegada da pandemia, como explica Cesar Grafietti, economista e sócio da Convocados Gestão e Futebol.
– O Barcelona sempre foi um dos clubes mais ricos do mundo em geração de receita. E acabava gastando bastante para montar elencos muito fortes. Se endividava para ir além do que podia. E tinha um elenco caro, incluindo o Messi. O principal problema foi quando veio a pandemia, que o clube perde 40/45% de suas receitas, uma das principais o Camp Nou, que não tinha jogos, e o clube teve dificuldades. Teve mais de 500 milhões de euros de prejuízo entre 2019/20 – diz o especialista.
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Em 2020, torcedores pediam renúncia de Bartomeu: “Alguém pare essa ganância por dinheiro”
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Todos os setores sentiram os efeitos da pandemia da Covid-19, e no futebol isso foi imediato pela relevância da venda de ingressos no faturamento dos clubes. A receita de bilheteria no Barcelona caiu de 174,9 milhões de euros em 2018/19 para 23,7 milhões de euros em 2020/21. Com folha salarial muito alta e grande endividamento, o clube passou a lidar com enorme desequilíbrio.
A situação financeira e a iminente saída de Lionel Messi culminaram na renúncia de Josep Maria Bartomeu, em outubro de 2020. O atual presidente, Joan Laporta, que já havia exercido mandato no Barça entre 2003 e 2010, reassumia o cargo com a missão de recuperação.
– A partir daí o clube foi obrigado a encontrar alternativas para resolver o problema de suas dívidas históricas, porque ele já era um clube com bastante dívida, agravado pela pandemia. Foi buscando alternativas como vender parte da Barça Studios (TV do clube), antecipar direitos de transmissão por 25 anos, e fez um monte de movimentações de ativos que não eram operacionais para fazer dinheiro e tentar resolver – explica Grafietti.
Camp Nou entrega 15% a mais de receita
As vendas de ativos não-operacionais fizeram o Barcelona voltar a lucrar e poder seguir investindo altos valores em transferências. Foi a saída de Laporta para não deixar o clube sem um time forte que fosse capaz de brigar com o Real Madrid no cenário espanhol e se manter relevante na Europa. Mas ainda é distante da situação de seu maior rival e outros gigantes do continente, que conseguem fortalecer seus elencos sem tantas preocupações financeiras.
O Fair Play Financeiro de LaLiga virou um tormento para o Barça, que teve dificuldades extremas para inscrever seus reforços no Campeonato Espanhóis nas últimas temporadas. Em recente entrevista ao ge, Deco, o diretor de futebol do Barcelona, contextualizou a situação financeira do clube.
– O Barcelona realmente tinha uma grande crise financeira no início da gestão do Laporta, faturava menos do que gastava. Isso é uma coisa complexa, tem que ir eliminando com o tempo. E no meio do caminho o presidente tomou uma decisão audaciosa de reformar o Camp Nou. Saímos de um estádio de 90 mil pessoas para um de 50 mil, a receita já cai muito. O clube já fez um dos maiores contratos da Nike. Voltando a jogar no Camp Nou com 65 mil, depois no outro ano com praticamente 100%… O processo de reconstrução do clube está acontecendo. E hoje o clube não tem problema financeiro, tem problema de Fair Play Financeiro. Esse problema é por conta das regras mais rígidas que temos na Espanha – disse Deco.
A LaLiga impõe limite de gastos com salários de atletas e comissão técnica a 70% das receitas orçadas. Para as regras financeiras de inscrição do Campeonato Espanhol, a dívida líquida do clube, exceto investimentos em infraestrutura, não pode superar o total de receitas. Por isso o Barcelona tem dificuldades para inscrever jogadores mesmo tendo dinheiro para contratá-los. E o Camp Nou aumenta o faturamento em 15%, como explica César Grafietti.
– O último ano de operação do Camp Nou foi 2022/23. Neste ano, o estádio foi responsável por quase 30% das receitas, que são 229 milhões de euros. Quando ele sai do Camp Nou e vai para o Estádio Olímpico, essas receitas caem pela metade. No primeiro ano elas foram cerca de € 130 milhões, no ano passado € 170 milhões… As receitas do estádio caíram pela metade – contextualiza o economista.
Na prática, o Barcelona deixou de arrecadar cerca de 160 milhões de euros por não estar jogando no Camp Nou nas últimas duas temporadas. No orçamento para 2025/26, já com o estádio operando, o clube estima uma receita de 225 milhões de euros com bilheteria. O que, segundo Grafietti, ainda é uma estimativa conservadora, considerando o fator novidade.
– Eu imagino que o orçamento foi conservador. O fato novo vai chamar muito torcedor, o tíquete médio vai subir, e o clube vai fazer, certamente, mais de 300 milhões de euros com receita de estádio. O que é mais que o dobro do que fazia com o Estádio Olímpico. Isso ajuda muito, mas o aspecto mais importante é voltar para casa num momento em que a situação financeira não é ainda ideal, mas volta a caminhar para um equilíbrio.
Momentaneamente, o Camp Nou funcionará com pouco mais de 45 mil torcedores. A capacidade máxima do estádio será de 105 mil pessoas, mas só deverá ser alcançada em 2027, quando o Barcelona estima o fim das obras. Hoje, o clube considera que já foi feito cerca de 60% da reforma. O jogo contra o Athletic Bilbao acontece neste sábado, às 12h15 (de Brasília), com transmissão em tempo real do ge.
Camp Nou, estádio do Barcelona, em obras
Marc Asensio/NurPhoto via Getty Images geRead More


