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Bônus de até US$ 540 mil: como homens endividados viraram alvo do maior recrutamento militar da Rússia

Bônus de até US$ 540 mil: como homens endividados viraram alvo do maior recrutamento militar da Rússia

A expansão contínua do recrutamento militar na Rússia está remodelando a forma como o país repõe suas perdas na guerra contra a Ucrânia. Um mercado de agências, recrutadores freelancers e anúncios online transformou o alistamento em um sistema quase comercial, capaz de atrair milhares de voluntários todos os meses, muitos motivados por dificuldades financeiras, problemas jurídicos e promessa de bônus capazes de mudar suas vidas. A prática fortalece a posição de Vladimir Putin nas negociações internacionais e preocupa governos europeus. As informações são do Politico.

Ofertas de contratos para o front circulam abertamente em plataformas como o Telegram, com anúncios exibidos ao lado de conversas e alertas de notícias. Os incentivos incluem bônus que podem chegar a US$ 540 mil (R$ 2,8 milhões), perdão de dívidas, creches gratuitas e vagas universitárias garantidas para familiares. Para homens de regiões pobres, onde o salário médio mensal não passa de US$ 1.000 (R$ 5,3 mil), a guerra se tornou uma alternativa de trabalho e sobrevivência.

Juramento de recrutas russos (Foto: WikiCommons)

O mecanismo por trás dessa estrutura é conduzido pelos mais de 80 governos regionais russos, pressionados pelo Kremlin a cumprir metas de envio de voluntários. As regiões contratam agências de RH, que mobilizam recrutadores independentes encarregados de divulgar vagas e orientar candidatos no processo. Qualquer cidadão russo pode atuar como recrutador, recebendo comissões que variam entre US$ 1.280 (R$ 6,7 mil) e US$ 3.800 (R$ 20,1 mil) por soldado enviado.

O crescimento desse “mercado de guerra” chama a atenção de capitais ocidentais. Apesar das estimativas que apontam cerca de um milhão de soldados russos mortos ou gravemente feridos desde 2022, a Rússia mantém a capacidade de recompor suas forças. Segundo análises citadas pela reportagem, essa reposição constante sustenta a estratégia de desgaste que marca o conflito desde o segundo ano de invasão.

Para especialistas, esse fluxo contínuo de voluntários explica por que, quatro anos após o início da guerra, Putin mantém a convicção de que pode impor seus termos à Ucrânia. Na semana passada, o presidente afirmou que o conflito só terminará quando Kiev abandonar os territórios reivindicados por Moscou. Caso contrário, disse, a Rússia imporá sua posição “pela força armada”.

O modelo atual de mobilização começou a se consolidar após setembro de 2022, quando o anúncio de uma “mobilização parcial” provocou fuga em massa do país. Paralelamente, o governo abriu as portas das prisões, permitindo que detentos assinassem contratos militares em troca de anistia. Com o tempo, a coerção deu lugar ao incentivo financeiro, um movimento que ampliou o recrutamento entre homens endividados, desempregados e com histórico criminal.

Em setembro de 2024, Putin determinou que as forças armadas fossem ampliadas para 1,5 milhão de soldados ativos. O discurso oficial passou a enfatizar benefícios e apelos à masculinidade, enquanto regiões competiam entre si pelos melhores bônus. Em Samara, os pagamentos chegaram a ultrapassar US$ 50 mil (R$ 265 mil) no verão, valor suficiente para comprar um apartamento de dois quartos. Em diversas áreas, a guerra se tornou uma das poucas oportunidades de ascensão social.

Estudos indicam que a máquina de recrutamento traz cerca de 30 mil novos voluntários por mês, número suficiente para compensar perdas e manter operações prolongadas. Ao mesmo tempo, o país reformulou seu sistema de conscrição, transformando o modelo semestral em recrutamento contínuo. Para autoridades ucranianas, essa vantagem numérica é determinante em regiões onde, segundo relatos, há até sete soldados russos para cada combatente ucraniano.

Essa expansão preocupa governos europeus. Analistas de segurança afirmam que o aumento da capacidade militar e industrial russa pode indicar preparação para ações além da Ucrânia, elevando o risco de novos confrontos no continente.

Nada a perder

No campo, muitos homens veem o serviço militar como única saída para problemas financeiros. Pai de três filhos, Anton, 44 anos, decidiu se alistar após perder o emprego e acumular dívidas. Com um salário prometido de cerca de US$ 2.650 (R$ 14 mil) mensais além de bônus, considerou o contrato sua única alternativa. Lotado em Donetsk, longe da linha de frente, relata conviver com colegas recrutados em situações semelhantes: homens endividados, trabalhadores com pouca perspectiva e até detentos buscando anistia.

Para esses voluntários, a guerra tornou-se uma aposta de alto risco em busca de estabilidade. Ferimentos garantem indenizações que podem chegar a US$ 36 mil (R$ 191 mil) . A sobrevivência no front significa melhorar a condição financeira da família. A perda, para muitos, é tratada como destino natural.

Apesar dos riscos, Anton diz que sua vida “melhorou financeiramente”. E admite: mesmo sabendo das consequências, faria tudo novamente.

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