Esperança do Brasil na São Silvestre, mineira teve infância dura e vendeu rapaduras a rivais
Amanda de Oliveira vence a Volta da Pampulha 2025
A prova feminina da Corrida de São Silvestre não é vencida por uma brasileira desde 2006. A partir de então, 19 anos se passaram, e atualmente uma mineira que cresceu na roça, levava rapaduras para vender para corredores e que ingressou na Força Aérea Brasileira em 2025 é uma das esperanças do Brasil para vencer a 100ª edição da prova.
Campeã da Volta Internacional da Pampulha, onde superou concorrentes brasileiras e as favoritas africanas, Amanda Oliveira abriu o passado dela para o ge. No auge da careira, a atleta de 28 anos quer aproveitar o bom momento para fazer história e brigar no pelotão da frente, sem esquecer das raízes, das conquistas e dos fracassos que a levaram até onde está.
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Amanda Oliveira venceu a edição 2025 da Volta Internacional da Pampuljha e chega credenciada à São Silvestre
Bruno Barros/Fotop
Vida na roça
Magrinha, esperta e ativa. É assim que Amanda se define na infância. Natural de Mercês, cidade que fica na Zona da Mata mineira, a menina afirma que era difícil alguém alcançá-la no pique-pega e que todos queriam ser do time dela, principalmente em brincadeiras de velocidade.
A vida na roça era alegre e permitia que ela brincasse e se exercitasse muito. No entanto as dificuldades e obrigações do dia a dia impuseram reponsabilidade muito cedo para Amanda, que desde os 11 anos cozinhava para os irmãos, ajudava nos afazeres da casa e só depois saía para o lazer.
Quase 20 anos depois, Amanda “chegou longe” por conta da corrida e valoriza este passado e principalmente a figura dos pais. Segundo ela, a Dona Aparecida e o Seu Paulinho representam tudo que ela conseguiu e seguem como inspirações.
— Tudo que eu sou hoje é por causa dos meus pais. Meu pai trabalha desde os 11 anos na roça, plantando, tirando leite, roçando pasto. Minha mãe também esteve na roça, ajudava o pai dela, era muito trabalhadeira, colhia arroz, feijão — contou.
“São dois guerreiros, não reclamavam. Hoje as mãos calejadas dos meus pais na vida são os meus pés calejados na corrida”.
Amanda Oliveira, ao lado dos pais, Dona Aparecida e Seu Vicente, no sítio em Mercês, Minas Gerais
Amanda Oliveira/Arquivo pessoal
— Eu me inspiro muito neles, os dois são minhas referências e penso neles o tempo todo, principalmente nos momentos difíceis, porque eles superaram tudo. Levo tudo isso comigo: o que eles passaram desde criança, a vida no campo, as dificuldades. Minha família é meu bem mais precioso. — acrescentou.
Foi ali, em Mercês, cidade com pouco mais de 10 mil habitantes, que ela começou a se destacar. A convite de um policial, Amanda correu a primeira prova aos 13 anos. Em 3km, ela superou meninos e meninas e venceu. A partir dali, nunca mais parou.
“Eu corria na roça dos meus pais. Era eu, Deus e meus sonhos. Enfrentava a poeira da roça, o sol, as estradas de terra. As pessoas no início falavam: “Ah, lá vem a magrinha correr, não sei por que corre”. Hoje são mais de 50 pessoas que correm na minha cidade. Inspirei muitas delas e também no país. Minha irmã corre, minha sobrinha também. Isso é muito gratificante para mim. A corrida mudou a minha vida”.
Ainda sem idade para correr provas mais longas – só maiores de 16 anos podem correr distâncias superiores a 5km –, Amanda seguiu o desenvolvimento perto de casa e da família. Quando a hora chegou, ela deu o recado que precisava.
Amanda Oliveira é inspiração para corredores de todas as idades em Mercês
Amanda Oliveira/Arquivo pessoal
Bolsa-atleta e venda de rapaduras
Ao completar os 16 anos, a atleta começou a disputar provas na região, especificamente em Juiz de Fora. Ela impressionou logo de cara, ao vencer uma prova do Ranking de Corridas de Rua da cidade.
A consistência e a evolução dos resultados fizeram com que ela despertasse o interesse do Instituto Metodista Granbery, que ofereceu uma Bolsa-Atleta para Amanda cursar Educação Física e representar a equipe, aos 17 anos.
Posteriormente, Amanda passou a integrar o projeto Cria UFJF e a usar a estrutura da Universidade Federal de Juiz de Fora. Ela se tornou federada e começou a competir nacional e internacionalmente.
Apesar da evolução nas corridas e a melhora da estrutura para treinamento, os boletos seguiam chegando com o passar dos anos, e Amanda precisava de fontes de renda para se sustentar.
Como passou a morar em Juiz de Fora e pagava aluguel, Amanda começou a tomar conta de crianças, fez estágios de natação e hidroginástica e deu aula de corrida.
No entanto, o destino fez com que Amanda unisse o amor pela corrida e o negócio familiar para fazer uma renda extra. A família de Amanda sempre produziu rapaduras, produto que serve como fonte de energia para atletas, sobretudo corredores. Com isso, ela não pensava duas vezes. Além de levar rapadura para usar nas provas, vendia para os adversários para colocar dinheiro no bolso.
Amanda Oliveira, ao lado da família, depois da conquista da Volta Internacional da Pampulha
Amanda Oliveira/Arquivo pessoal
— Os meus pais sempre fizeram rapadura na roça, desde os tempos dos meus avós. Meus irmãos, minha mãe e eu continuamos depois que meus avós morreram. É um processo bem difícil. Tem que cortar a cana, moer, fazer a garapa, depois o melado e a rapadura vem depois — contou.
“Meu irmão ia comigo nas corridas, me levava de moto várias vezes e a gente vendia as rapaduras para ajudar nas despesas de casa. Tudo mundo ama. Nas minhas corridas a gente vende e às vezes até distribui para o pessoal”.
As ideias para criar renda extra seguiram. Amanda abriu um estúdio funcional em Mercês, que ficou as cuidados de uma das irmãs, que também começou corre e que fez Educação Física, estimulada pela própria Amanda.
Resultados expressivos e Força Aérea Brasileira
Depois de começar a se destacar no cenário nacional em categorias inferiores a sub-23, em corridas de 5km e 10km, Amanda passou a competir em provas maiores.
Os resultados, como a vitória na Meia Maratona do Rio de Janeiro em 2022, e a Maratona de São Paulo em 2025, foram demonstrações de que a corredora caminhava para o auge da carreira.
Com dedicação exclusiva ao esporte, ela passou a focar apenas nas corridas e chamou atenção de equipes e da Força Aérea Brasileira.
Atleta da Elite Runners, Amanda começou a ser treinada pelo Professor Palmireno em 2023 e, com o auxílio dele e a resposta dela nas pistas, conseguiu se tornar 3º Sargento da Aeronáutica em 2025.
Corredora Amanda Oliveira, de Mercês, se tornou 3º Sargento da Aeronáutica
Amanda Oliveira/Arquivo pessoal
— Tudo isso aconteceu porque eu tive muita paciência, persistência e disciplina, porque não é fácil. No início era muito falta de apoio, eu tinha que me virar com o que eu tinha. Nada na vida vem fácil e tudo que a gente quer a gente tem que lutar por aquilo — destacou.
Atualmente, Amanda treina em Tremembé, São Paulo, com o treinador, vive apenas do esporte com patrocínios e premiações e utiliza da estrutura das Forças Armadas par se preparar para as corridas.
Queda em tapete, aprendizado e sonho olímpico
Corredora cai perto da chegada e recebe ajuda de adversária
Amanda viveu últimos anos de muitas conquistas, mas também passou por críticas e provações, que se tornaram aprendizados.
Um deles viralizou e aconteceu durante uma prova, realizada em Santa Catarina. Amanda Oliveira disputava a Maratona de Blumenau e, a poucos metros da linha de chegada, tropeçou em um tapete vermelho, caiu e não conseguiu se levantar.
Ela foi ajudada por uma outra atleta que acabara de concluir a prova (assista ao vídeo acima). A colega ajudou Amanda a se levantar e concluir a corrida, o que gerou polêmica e reações distintas.
Enquanto parte do público elogiava a humanidade da corredora que ajudou Amanda, outra parte criticou a ação, já que regulamentos das corridas proíbem que haja ajuda de terceiros para que um corredor termine a prova.
Amanda Oliveira tropeça em tapete vermelho e cai na retaa de chegada em maatona disputada em Santa Catarina
Tião Moreira
Amanda afirma que foi para a Santa Catarina para correr os 10km, mas diante da possibilidade de conquistar uma vaga no Sul-Americano, decidiu, junto com o treinador, correr os 42km, uma maratona.
Quando ela passou pelos 21km e percebeu que não conseguiu o índice necessário, Amanda chegou a parar de correr, mas voltou à prova por ordem do treinador, já que ela estava bem à frente das adversárias. Sem treino e hidratação necessárias para o percurso, ela chegou até o fim da prova, mas sem condições adequadas.
De acordo com ela, este foi uma dos maiores aprendizados que teve na vida como corredora.
— Foi um grande aprendizado na minha carreira profissional. A gente não pode querer tudo. Valia uma vaga para o Sul-Americano e, na empolgação minha e do meu treinador, me inscreveram para correr uma maratona (42km). Eu fui para Santa Catarina para correr 10km.
“Não adianta querer tudo. A gente tem que querer o que está dentro da nossa capacidade. Você não é uma máquina. No fim da prova, perdi o jogo das pernas e caí. Não consegui levantar e engatinhei. Como estava fraca, a menina me ajudou e eu sei que não pode. Mas cruzei a linha de chegada e gerou aquela polêmica toda, de que eu não estava preparada, etc” .
Corredora ofi ajudada por Jéssica Pereira
Tião Moreira
— Mas é assim mesmo. Quando acontece isso, o pessoal vai perguntar, vai questionar, vai falar mal. Mas não fiquei olhando redes sociais, nem remoendo aquilo. A atitude da Jéssica foi muito bonita, quis me ajudar, dar apoio, demonstrar união e solidariedade. Para mim e para o meu professor, isso ensinou muito e me tornou mais forte e corajosa — disse.
Em meio a conquistas e fracassos, Amanda chega aos 28 anos e segue a trajetória dela de olho na Corrida de São Silvestre. No entanto, apesar da prova estar próxima, ela se permite sonhar ainda mais alto.
— Meu sonho é chegar nas Olimpíadas. Sei que os caminhos são difíceis, mas nada é impossível. Só tenho a agradecer a Deus por me dar força e saúde, à minha família, maravilhosa, que sempre está comigo, aos meus apoiadores e patrocinadores, que acreditam no meu trabalho, e a todos que torcem por mim — finalizou.
A Corrida de São Silvestre chega à 100ª edição. A largada da elite feminina, onde está Amanda Oliveira está prevista para as 7h40. A prova começa e termina na Avenida Paulista. geRead More


