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O São Paulo precisa de uma revolução

O São Paulo precisa de uma revolução

Mirassol 3 x 0 São Paulo | Melhores momentos | Campeonato Paulista
O São Paulo levou, neste domingo, 3 a 0 do Mirassol, como havia levado no ano passado. A torcida protestou contra a diretoria, como havia protestado no ano passado. Luciano gesticulou em campo para cobrar os colegas de time, como havia feito repetidas vezes no ano passado, enquanto Lucas Moura, voltando de lesão, assistia ao jogo do banco, como tanto aconteceu no ano passado. E a torcida testemunhava tudo isso, como no ano passado, pensando aonde o São Paulo Futebol Clube vai parar.
Os fogos que espocaram no céu paulistano para celebrar a mudança do ano foram uma miragem para o Tricolor. A passagem do tempo é uma ilusão. O clube, outrora um exemplo para todos os outros no Brasil, hoje está amarrado ao passado. Enquanto muitos concorrentes avançam, se estruturam, cada novo dia no São Paulo representa um passo a mais na direção do atraso.
Se a fragilidade em campo fosse o maior problema, seria uma boa notícia. Não é o caso. Na próxima sexta-feira, o desastre político vivido pelo clube atingirá seu ápice com a votação do impeachment do presidente Júlio Casares.
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Crespo, técnico do São Paulo
Mauricio De Souza/AGIF
Um inquérito policial investiga movimentações consideradas atípicas na conta bancária do dirigente – e de familiares dele. A investigação quer entender a origem de mais de R$ 2,5 milhões que seriam incompatíveis com o salário de Casares. Desse total, R$ 1,5 milhão foi em espécie. Ao mesmo tempo, a Polícia Civil investiga 35 saques em dinheiro nas contas do São Paulo, entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, totalizando R$ 11 milhões.
E piora. A Polícia Civil também investiga Nelson Marques Ferreira, indicado por Casares como diretor adjunto do São Paulo, pela abertura de 15 empresas durante o período em que esteve no clube, do início de 2021 até novembro do ano passado. Outro ex-diretor adjunto, Douglas Schwartzmann, foi flagrado em áudio admitindo que ele e outras pessoas ganhavam dinheiro com os camarotes do Morumbis em shows. A interlocutora na conversa era Mara Casares, ex-esposa do presidente.
Casares tem presunção de inocência. As acusações precisam ser provadas. Mas é evidente que o São Paulo vive ecos daquilo enfrentado por outros grandes clubes brasileiros, como Corinthians, Cruzeiro e Inter, que viram dirigentes pararem nas páginas policiais. No primeiro, o presidente sofreu impeachment; nos outros dois, os times foram rebaixados.
O São Paulo decide esta semana se mantém ou afasta o presidente
A situação do presidente é insustentável para a torcida e a opinião pública. No Conselho Deliberativo, responsável por definir o futuro do dirigente, não é bem assim. Dos sete grupos políticos que formam o colegiado, apenas dois ainda apoiam Casares – eram seis em dezembro. Mesmo assim, o dirigente pode se salvar do impeachment.
Para Casares ser destituído do cargo, serão necessários 191 de 254 votos. Nessa conta, os votos dos dois grupos que ainda o apoiam podem ser suficientes para salvá-lo. A oposição pleiteou que bastassem dois terços (170 votos) para o impeachment e que a votação também pudesse ser feita de forma remota, para ter maior quórum. O presidente do Conselho, Olten Ayres, rejeitou os dois pedidos.
Assim, o futuro do mandatário de um clube com milhões de torcedores será decidido, em votação secreta e presencial, por um grupo possivelmente inferior a 200 pessoas. Aí está talvez o maior problema do São Paulo: a gritante falta de representatividade da torcida. O Conselho Deliberativo tricolor é uma espécie de simulacro do Congresso Nacional, um centrão recheado de atraso, conservadorismo e coronelismo. Em 2023, ele rejeitou proposta de votação direta, via associados, para presidente, mantendo o poder concentrado apenas nos conselheiros. Apenas 23% dos votantes apoiaram a mudança.
Julio Casares, presidente do São Paulo
Marcos Ribolli
O São Paulo precisa de uma revolução. É urgente um modelo que impeça a perpetuação de dirigentes como estes vistos no clube nos últimos anos. Essa mudança começa com a participação dos sócios na eleição para presidente e termina com uma possível migração para modelo de SAF – desde que aprovada justamente pelos sócios, não por um grupo limitado de conselheiros.
Caso contrário, chegará o momento em que o novo ano tricolor não será semelhante ao anterior: será pior, pela primeira vez na Série B. geRead More