Do racismo ao doping, Rafa Silva supera traumas e valoriza saúde mental: “Dei a volta por cima”
Minha Medalha: judoca Rafaela Silva e o ouro nas Olimpíadas do Rio
No esporte de alto rendimento, o corpo é a máquina, mas a mente é a engrenagem que decide se o motor suportará a pressão. Campeã olímpica em 2016, Rafaela Silva precisou enfrentar mais do que adversários bem preparados ou questões físicas geradas pela repetição de golpes. Por algum tempo, os maiores desafios estiveram dentro da cabeça da judoca, e o cuidado com a saúde mental se tornou tão fundamental quanto o treino técnico, como revelou ao ge. Rafa foi uma das atletas presentes no lançamento do livro “A Coach de Ouro”, de Nell Salgado, na última semana.
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Rafaela Silva festeja ouro no Pan de Santiago
Foto Wander Roberto/COB @wander_imagem
Bem-sucedida desde os primeiros passos da carreira (foi campeã mundial sub-20 em 2008 por exemplo), Rafa construiu uma das trajetórias mais vitoriosas do judô mundial. Fora dos tatames, se tornou referência pelo engajamento em causas sociais e pelo discurso voltado ao desenvolvimento humano. Para a atleta, o autocuidado mental é hoje um elemento indissociável da rotina de um atleta.
— Cuidar da saúde mental é muito importante. Vimos atletas campeões, como a Simone Biles, que parou no meio das Olimpíadas e interrompeu o sonho dela, entendeu que era o momento de se cuidar. Porque depois que a gente quebra… Eu estou aqui contando uma história de vencedora, consegui dar a volta por cima e superar, mas, infelizmente, não é todo mundo que consegue — afirmou Rafa.
A judoca viveu extremos no esporte. Um dos momentos mais críticos ocorreu nos Jogos de Londres, em 2012, após uma desclassificação por um golpe ilegal contra a húngara Hedvig Karakas. Abalada, Rafa foi alvo de ataques racistas nas redes sociais, episódio que classifica como um dos piores de sua vida. A resposta para superar o preconceito veio na blindagem.
— Eu entendi que precisava valorizar as palavras de quem vivia o meu dia a dia e sonhava junto comigo: minha família, meus amigos, Nell (coach), companheiros de treino, treinadores e equipe multidisciplinar. Parei de dar importância aos comentários. Quem entra no tatame e perde sou eu, não aquelas pessoas. Elas não ganham nem perdem nada com isso. Quando vou para uma competição, é o período em que fico mais afastada das redes. Eu ‘sumo’ da internet. Fica todo mundo desesperado querendo falar, mas eu não falo com ninguém até conseguir absorver, entender o que aconteceu, assistir à minha luta e digerir tudo. Só depois eu volto para o ‘mundo’ que as pessoas acham que é a vida real.
Quatro anos após Londres, veio a redenção em casa. Ao conquistar o ouro no Rio de Janeiro, ela se tornou a única mulher brasileira campeã mundial e olímpica no judô. Nos bastidores daquela conquista, porém, o pânico quase tomou conta quando soube que abriria a competição. O suporte de Nell Salgado foi o divisor de águas.
— Faço esse trabalho com a Nell desde o meu retorno de Londres. Ela já é parte da minha família. A gente se fala praticamente todos os dias. Na Rio 2016, quando saiu a ordem das lutas e vi que eu abriria a competição, entrei em pânico, lembrando de Londres. Liguei para ela desesperada. Ela me perguntou: “Qual a diferença de você ser a primeira ou a última?”. Eu respondi: “A diferença é que vou ganhar a medalha antes dos meninos”. Aquilo mudou minha mentalidade. Dormi tranquila e fiz a competição que todo mundo viu — relembrou.
Rafaela Silva comemora após conquistar o bronze para o Brasil no torneio de equipes das Olimpíadas de Paris
Miriam Jeske/COB
O trabalho conjunto começou anos antes, no Instituto Reação. Nell Salgado recorda que a recuperação da confiança de Rafa passou por um exercício de visualização que tocou fundo a atleta.
— Pedi para ela imaginar as Olimpíadas no Brasil, a cinco minutos da casa dela, vendo pela TV outra pessoa ganhar a medalha que poderia ser dela. A Rafa começou a chorar e disse: “Não, ninguém vai tirar o que é meu”. Ali começou nosso trabalho. Já são 14 anos — contou a coach.
Quando a carreira no judô parecia estabilizada, houve um novo revés: a suspensão por doping em 2019. Mesmo com a alegação de contaminação acidental, Rafa ficou dois anos afastada do esporte, perdendo os Jogos de Tóquio 2020. Foi o período em que enfrentou seus maiores fantasmas.
— Durante a minha suspensão, eu cheguei a pensar em suicídio, estava planejando coisas para interromper a minha vida… Infelizmente, tem gente que acaba ficando pelo caminho depois de uma situação muito ruim. O esporte e o trabalho da Nell, que Deus permitiu que ela passasse para mim, fizeram a diferença.
*Se você está passando por um momento difícil ou conhece alguém que precise de suporte emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso 24 horas por dia. Entre em contato pelo telefone 188 ou acesse o site para conversar com um voluntário via chat. Você não está sozinho!
Rafaela e Raquel Silva revelam detalhes do início em projeto social
Agora, com o olhar voltado para o ciclo de 2028, Rafa aplica o que aprendeu com as quedas e com mentores, como o ex-judoca Luciano Corrêa: o foco absoluto no presente.
— Eu vivo esse ciclo desde 2012, então já são muitos anos no alto rendimento, mirando Olimpíadas e Campeonato Mundial. A gente vive uma competição de cada vez. Sabemos que o ciclo dura de uma Olimpíada até a outra, uns três ou quatro anos, mas aprendi muito com o Luciano Corrêa – peguei um pouco do final da carreira dele – e ele me disse que, quando chegou a uma certa idade, não pensava mais em longo prazo, mas sim na próxima competição. Então, em cada torneio que eu entro, sempre dou o meu máximo, 200%, porque não sei se aquela vai ser a minha última vez no tatame. geRead More


