O que o silêncio de Putin após a prisão de Maduro aponta sobre a Rússia
A prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026, durante uma operação militar dos Estados Unidos, evidenciou um constrangimento diplomático para Moscou. Até o momento, o presidente russo Vladimir Putin evita qualquer declaração pública direta sobre o episódio, limitando-se a manifestações cautelosas do Ministério das Relações Exteriores da Rússia. O silêncio levanta questionamentos sobre o real alcance da influência russa na América Latina e suas prioridades estratégicas em meio à guerra contra a Ucrânia. As informações são da Deutsche Welle (DW).
Rússia e Venezuela mantinham, até recentemente, uma relação considerada estratégica. Em maio de 2025, Maduro esteve em Moscou para as comemorações do Dia da Vitória, quando assinou com Putin um acordo de parceria e cooperação estratégica, exaltando a Rússia como uma potência essencial para a humanidade. A cooperação incluía fornecimento de equipamentos militares e exercícios conjuntos, como o envio de bombardeiros estratégicos russos à Venezuela em 2018.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante a cerimônia de assinatura de acordos de cooperação bilateral, em maio de 2025
Em novembro do ano passado, o Kremlin afirmou que estava “acompanhando” de perto os acontecimentos na Venezuela, após relatos de que Maduro teria solicitado radares, aeronaves e possivelmente mísseis ao presidente russo.
Apesar desse histórico, Moscou não reagiu de forma contundente à prisão do líder venezuelano, que foi levado para Nova York para responder a acusações de tráfico de drogas e outros crimes. Analistas apontam que o apoio russo ao governo venezuelano sempre teve mais valor simbólico do que capacidade prática de dissuasão frente aos Estados Unidos.
Segundo especialistas em política internacional, a guerra da Rússia contra a Ucrânia limita severamente a margem de manobra do Kremlin em outras regiões do mundo. O envolvimento prolongado no conflito europeu consome recursos militares, diplomáticos e econômicos, reduzindo a capacidade de Moscou de proteger aliados distantes como a Venezuela.
Além disso, a atual reaproximação entre Rússia e Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump contribui para a postura cautelosa de Putin. Críticas abertas a Washington poderiam comprometer canais diplomáticos considerados estratégicos para negociações mais amplas, inclusive relacionadas à Ucrânia.
Impactos na guerra da Ucrânia e no mercado de petróleo
Para analistas ucranianos, a queda de Maduro pode gerar efeitos indiretos positivos para Kiev. A expectativa de normalização das relações entre Estados Unidos e Venezuela abre espaço para a retomada da produção petrolífera venezuelana, o que tende a pressionar os preços do petróleo no mercado internacional.
A redução dos preços do petróleo afeta diretamente a Rússia, cuja economia depende fortemente das exportações de energia. Menor arrecadação limita a capacidade de financiamento da guerra contra a Ucrânia, enfraquecendo a posição russa em negociações futuras.
Especialistas ressaltam, no entanto, que não é possível estabelecer paralelos diretos entre a prisão de Maduro e a invasão russa da Ucrânia. No caso venezuelano, os Estados Unidos não reivindicam território nem questionam a existência do Estado, diferentemente da narrativa adotada por Moscou em relação à Ucrânia.
Rússia perde aliados e influência global?
A falta de reação firme à prisão de Maduro reforça a percepção de declínio da influência internacional da Rússia. Analistas apontam que Moscou já perdeu espaço em países como Armênia e Síria, e agora vê seu papel na Venezuela ser reduzido de forma significativa.
A mensagem implícita, segundo especialistas, é clara: aliados que apostam na proteção russa não podem mais contar com garantias efetivas. Mesmo Cuba, principal parceiro da Rússia na América Latina, enfrenta um cenário em que o apoio de Moscou se mostra limitado frente à pressão crescente dos Estados Unidos.


