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Opinião: a noite em que a Portuguesa voltou a se reconhecer no espelho

Opinião: a noite em que a Portuguesa voltou a se reconhecer no espelho

São Paulo 2 x 3 Portuguesa | Melhores momentos | 4ª rodada | Campeonato Paulista 2026
A criança nem fez manha ao acordar cedo para ir para a escola. Não via a hora de zoar o amiguinho tricolor. O adulto nem precisou do segundo despertador para pular da cama rumo ao trabalho. Contava os minutos para atazanar aquele colega são-paulino.
O velho luso até ligou o rádio mais cedo para ouvir o locutor dizer que a Portuguesa havia vencido o São Paulo por 3 a 2. Vestiu a camisa rubro-verde só para ir à padaria, encontrar o patrício, e falar para todos os fregueses ouvirem: “que vitória, pá”.
Ninguém veio perguntar se a Lusa ainda existia. Estava em todos os noticiários. Ninguém veio questionar que campeonato tem disputado. Era a quarta rodada do Paulistão. Ninguém veio lamentar a situação. Vitória, no Morumbi, em TV aberta.
Quem viu, desta vez, não veio dizer que a Portuguesa “merecia ter vencido”, como contra o Palmeiras. Pelo contrário, veio comentar que era até para ter vencido com mais tranquilidade, abrindo o placar já no primeiro tempo, não tomando o segundo gol.
Jogadores da Portuguesa comemoram vitória contra o São Paulo
Marcos Ribolli
Veio perguntar sobre aquele 21, que fez o primeiro gol com muito oportunismo, converteu o segundo de pênalti, ganhou o prêmio de craque do jogo e acabou, pelos inusitados do futebol, sendo expulso no finalzinho. Explicamos que é o Renê.
Veio comentar sobre aquele menino, o 19, que pegou o rebote de um chute do Renê e meteu a bola no meio das pernas do goleiro são-paulino, fazendo o terceiro gol. Explicamos que é o Maceió, que voltou de empréstimo para ver se vinga.
Veio elogiar a ótima defesa do goleiro, que precisamos pronunciar umas duas ou três vezes, Bertinato, e contar que tem ascendência italiana e jogou por lá. Que vem sendo, neste campeonato, o jogador mais seguro e consistente de todo o elenco.
Já o tricolor vem conversar e lamenta os gols perdidos, aquela bola que parecia ter entrado, beijando a rede pelo lado de fora, o primeiro tempo ruim, o empate achado e o segundo gol que só saiu graças a uma falha de desatenção da defesa da Portuguesa.
A Portuguesa aprontou para cima do São Paulo!
Nada nesse 3 a 2 rubro-verde sobre o São Paulo é mais importante do que isso. Depois de pouco mais de 12 anos, a Lusa voltou a vencer um clássico. Sim, clássico. Jogos históricos, tradicionalíssimos, com Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo.
Foram poucos nesse período, é verdade. Em sete desses anos nem confrontos houve. Nos outros anos, no máximo um confronto por temporada. Mas, se não falamos de tantos jogos de tabu, falamos de tempo. Tempo que essa torcida viveu a duras penas.
Tempo em que a Portuguesa viveu um ostracismo. De a torcida ter de ficar respondendo se o clube ainda existia, o que jogava, onde estava, além de ouvir lamentos de quem até outro dia zoava, brincava, trocava provocações, por enfrentar sempre.
A Lusa deixou de disputar a elite do Paulistão em 2015. Voltou a disputa-la em 2023. A torcida rubro-verde não via a hora de tornar a vencer um clássico. Para, depois de muitos anos, voltar a vivenciar cada uma dessas situações tão comuns a muitos.
Jogadores do Portuguesa comemoram gol contra o São Paulo
Marcos Ribolli
Foi tempo o bastante para uma geração inteira de jovens nem saber direito o gosto de zoar um amigo – neste caso, tricolor. Nesses últimos anos, os clássicos vinham sendo amargos. Derrotas, empates, alguns “quases”. Já estava mais do que na hora.
Ninguém merecia mais do que essa torcida. Gente que comeu o pão que o diabo amassou. Viu o clube descer da Série A do Brasileirão para a B, a C, a D, ficar sem divisão. Penar sete longos anos na A2 do Paulistão e, pasmem, quase cair à A3.
Morrer na fase de grupos de várias edições da Copa Paulista, um torneio que a esmagadora maioria da torcida tricolor que foi ao Morumbi nem sabe que existe. Ver várias gestões se intercalando no poder e a Lusa apenas definhando, falindo.
Jogadores da Portuguesa comemoram vitória contra o São Paulo
Marcos Ribolli
Uma torcida que, sem ver alternativas, abraçou e apoiou a transformação do clube em SAF. Que sabia não ser um caminho totalmente seguro ou certo, mas era tentar ou acabar. E que, até aqui, tem várias ressalvas justificadíssimas contra a SAF.
Como, por exemplo, a montagem desse próprio elenco aí. Mais econômica do que deveria pelo investimento prometido, com lacunas sérias em posições-chave e limitações técnicas a dar e vender. Uma aposta muito arriscada em um Paulistão.
Uma torcida que, mesmo com a vitória, ainda pensa: “ah, se o time jogasse assim em todas as partidas”, “ah, se toda rodada da Lusa fosse transmitida em TV aberta” e “será que contra adversários menos badalados ainda vão jogar toda essa bola?”.
Mas uma torcida que, nesta noite, diante do São Paulo, voltou a viver a magia do que é ser Lusa. Tornar a ver o clube na TV, falado nas rádios, comentado pelos amigos, com gols varrendo as redes sociais, podendo zoar colegas, ter orgulho de vestir a camisa para ir à escola ou ao trabalho… tudo isso é recuperar a dignidade como torcida.
Faltava esse elemento. Faltava vencer um clássico. O apito final jogo foi, no setor visitante do Morumbi, o apito inicial da festa. A torcida da Portuguesa não queria deixar a arquibancada. Praticamente todos os são-paulinos já haviam ido embora e os lusitanos continuavam cantando, música após música, o amor pelo clube do Canindé.
Atraindo celulares de influencers, câmeras de fotógrafos e cinegrafistas, fazendo parte até da premiação de craque do jogo a Renê. Não a toa. Entre quem assistiu a uma das transmissões foi quase unânime o protagonismo da torcida rubro-verde.
Time da Portuguesa posa para foto antes do jogo contra o São Paulo
Marcos Ribolli
Esse protagonismo é justificado. Se a Portuguesa voltou a vencer um clássico, com autoridade e merecimento, é porque essa gente não a deixou morrer. Seja na prática, seja na memória. Respondendo, sempre que perguntada, que a Lusa, sim, resistia.
Ninguém sabe o que será da Lusa na sequência do Paulistão. Pode embalar, dar liga, começar a jogar sempre assim, somar pontos, classificar? Sim. Pode voltar àquela pasmaceira de Capivari, ou àquela penúria diante do Velo Clube? Também sim.
O que toda a torcida sabe, perfeitamente, é que esse aí é o lugar da Portuguesa. Sempre foi e precisa voltar a ser. Como foi nesta noite. O lugar é em palcos como esses, contra adversários como esses, com exibições e resultados como esse. Repito: sempre foi.
Portuguesa abriu o placar no Morumbis contra o São Paulo
Marcos Ribolli
A Lusa já teve vitórias muito mais emblemáticas contra o São Paulo. Essa não deve entrar nem no Top 10, 15 ou 20. Tem muita história e grandeza envolvida aí. Mas nem por isso deve ser diminuída. Há um valor simbólico enorme. O valor arquibancada.
O sorriso da criança. A leveza do adulto. O orgulho do mais velho. Quem um dia achou impossível ver de novo, nesta noite, voltou a ver. Aconteceu. A noite de 21 de janeiro de 2026 foi a noite em que a torcida reencontrou a Portuguesa. A noite em que a Portuguesa olhou para o espelho e, finalmente, voltou a se reconhecer. Grande.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 15 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More