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Opinião: após exceção, Portuguesa volta à regra, para o bem e para o(s) mal(es)

Opinião: após exceção, Portuguesa volta à regra, para o bem e para o(s) mal(es)

Alex Bourgeois analisa os deslizes cometidos pela Lusa em 2025
Se você torce para a Portuguesa, confesse. No fundo, você não se surpreendeu tanto com a derrota por 1 a 0 para o Guarani, em um Canindé com ótimo público, após a vitória inquestionável sobre o São Paulo por 3 a 2 em pleno Morumbi.
Já vimos isso acontecer centenas de vezes. Todo um clima favorável, uma matemática permitindo lutar pelo topo da classificação, podendo engatar uma sequência de vitória e… vem uma derrota decepcionante, frustrante, desanimadora em casa.
Dessa vez, porém, não foi por uma postura apática, arrastada, atônita. Não foi por ter sido leão em um clássico, contra um grande, em TV aberta, com visibilidade, e um gatinho em uma segunda-feira a noite, com adversário parelho, na TV paga.
Portuguesa x Guarani
Raphael Silvestre/Guarani FC
Como a torcida tanto vem pedindo, a Portuguesa manteve a postura acesa, ligada, aguerrida, lutadora e concentrada. Começou o jogo partindo para cima, tomando a iniciativa, dominando as ações, criando chances de abrir o marcador.
Sem contar com o atacante Renê, expulso na última semana, o técnico Fábio Matias apostou pela primeira vez em Cadorini como titular como referência. Na lateral esquerda, com Salomão ainda não recuperado de lesão, voltou a colocar Caio Roque.
O time rubro-verde foi a campo com Bertinato no gol; João Vitor na direita e Caio Roque na esquerda; Gustavo Henrique e Eduardo Biazus no miolo de zaga; Portuga, Zé Vitor e Gabriel Pires no meio; na frente, Ewerthon, Maceió e Cadorini centralizado.
Na verdade, a primeira metade da etapa inicial entregou o que dela se esperava. Uma Lusa buscando o jogo e um Guarani mais cauteloso, explorando os contragolpes. Aliás, também com bastante perigo, também criando chances. Uma partida bem aberta.
Também se confirmou aquilo que, neste espaço de opinião, destacou-se na rodada passada. O time de Campinas não daria a liberdade ao meio-campo que o São Paulo deu. Não daria à Portuguesa espaço e campo porque não tomaria a iniciativa.
Jonathan Costa comemora gol para o Guarani
Agência Paulistão
Com isso, o meio-campo da Lusa, que vem sendo mais solto, mais móvel, sem um volante de pegada, ficou mais vulnerável. O que, claro, deixou a linha defensiva mais exposta. Daí os contra-ataques perigosos que o Guarani foi encaixando.
Só que tudo mudou aos 30 minutos. O meia Guilherme Portuga vacilou na intermediária do ataque, pediu uma falta não marcada, e o time de Campinas engatou um contragolpe. A lateral direita estava aberta, com João Vitor na frente, e o zagueiro Gustavo Henrique, na linha do meio-campo, perdeu o tempo da corrida.
O defensor perdeu na disparada para Mirandinha e apelou à falta. O árbitro João Vitor Gobi marcou e deu cartão amarelo. Só que foi chamado pelo VAR. Depois de rever o lance, trocou o amarelo pelo vermelho. Uma expulsão que condicionou o jogo.
É absolutamente natural haver divergências sobre a expulsão. Há argumentos tanto para defender quanto para criticar. Minha crítica vai para o uso do VAR. Trata-se de um lance em que o árbitro estava totalmente dentro da jogada, acompanhando tudo.
Não houve nada que João Vitor Gobi não tivesse visto. Não era caso de uma agressão ou uma falta fora do campo de visão. Não era mão na bola. Não era dúvida de dentro ou fora da área. Nada disso. Era lance de interpretação do árbitro, vendo a cena toda.
Portuguesa x Guarani; Canindé
Diego Alves
Ele deu o amarelo sentindo o andamento natural da jogada. Analisando a fotografia do momento. O VAR, porém, chamou o árbitro apenas porque discordou. Não porque viu algo que o árbitro não havia visto. E aí vem aquela análise em câmera lenta, congelando a imagem no milésimo de segundo em que o jogador é atingido.
Analisando-se a posição do pé, o toque na bola, em um milésimo de segundo antes do contato, para dizer que estava na direção do gol. E que, com isso, seria o último homem. É o plebiscito do VAR, tão comum no Brasil, em que os votos da cabine sempre ganham, sem levar em conta ser interpretativo e o árbitro ver a jogada da vida real.
Enfim, justa ou não, a expulsão obrigou o técnico Fábio Matias a mexer no time. Sacou o centroavante Cadorini e colocou o zagueiro Carlos Lima. Basicamente, tirou a referência do ataque, mantendo apenas Maceió e Ewerthon, beiradas, na frente.
É absolutamente pertinente debater se o treinador fez o certo. Será que deveria mesmo ter sacado a referência, sendo que o Guarani viria para cima e a Lusa poderia ter os contragolpes? Não poderia ser um pouco mais arrojado na formatação tática?
É possível discutir se não daria para usar uma das posições do meio-campo para resguardar mais a defesa. Ou até outras opções tão ouvidas no Canindé ao fim da partida. Fato é que, na minha visão, Fábio Matias quis trilhar o caminho mais seguro.
Isso porque o treinador tem em mãos um elenco tecnicamente limitado e, mais do que isso, sem peças de reposição. Tenho repetido à exaustão por aqui o quanto a SAF montou mal esse grupo. Faltaram reforços para várias posições-chave. É raro Fábio Matias ter no banco uma opção melhor do que aquela que está em campo.
Lusa x Guarani pelo Paulistão
Raphael Silvestre/Guarani FC
Com essa limitação toda, encontrou um time que, ainda com dificuldades, mas com luta e pegada, consegue ser minimamente competitivo. Alterar muito a formatação poderia fazer esse time, já com sérias fragilidades, desencaixar de vez na partida.
Por isso, entendo a postura dele. Apesar de achar que o cenário ideal não fosse esse. O problema é que não há cenário ideal dentro desse elenco. O que a Lusa fez até o intervalo foi se segurar para não tomar gol e tentar voltar a entrar na partida.
O segundo tempo poderia ter sido favorável, apesar da expulsão. Isso porque o Guarani, com um jogador a mais, partiria para cima. A Portuguesa, em teoria, teria aquilo de que tanto tem precisado nesse Paulistão: espaço, contra-ataque e velocidade nas descidas.
Só que a Lusa sofreu o gol no pior momento possível: no comecinho da etapa final. Bertinato havia acabado de fazer uma enorme defesa. No escanteio, a defesa rubro-verde só assistiu uma primeira cabeçada, um cruzamento no rebote, e uma cabeçada quase de joelhos Jonathan Costa para empurrar para o fundo das redes. Azedou total.
O time de Campinas, como se esperava, recuou. Uma retranca em que até sair no contra-ataque era raro. Era momento de alguns nomes se sobressaírem, como Ewerthon e Maceió, o que não aconteceu. No meio, Gabriel Pires e Zé Vitor, principalmente, ficaram amarrados, pouco móveis, abafando completamente a transição.
Não a toa, Fábio Matias sacou o trio do meio. Colocou em campo os meias Denis e Marcelo Freitas, tentando dar uma oxigenada. Também pôs o jovem atacante Keven e renovou a beirada, tirando Ewerthon e colocando Igor Torres. É… Igor Torres!
Essa alteração, porém, diz menos sobre Fábio Matias e mais sobre a SAF. Foi esse o elenco que a SAF deu ao treinador. Que opções há no banco para a posição? Ficaram remanescentes de 2025 que jamais mostraram o merecimento de permanecer.
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Ainda assim, a Lusa conseguiu fazer do goleiro Caíque França, do Guarani, mais uma vez destaque. Mesmo com imensas dificuldades em criar chances de gol, fez o camisa 1 trabalhar. A melhor chance, porém, foi desperdiçada por ele: Igor Torres. Bizarro.
Todos sabíamos que esses atletas não tinham bola para a elite do Paulistão. E temos repetido, desde a primeira rodada, que a única coisa que salva nesse elenco limitado é o espírito de luta. Houve. Do início ao fim. Só que com um a menos ficou ainda pior.
Apesar de ter (re)assistido àquela velha maldição, de perder em um Canindé cheio quando tinha chance de deslanchar, a torcida não vaiou ou xingou. O time saiu de campo sob aplausos, única e exclusivamente por essa postura brigadora.
A Lusa, que poderia fechar a rodada no G4, terminou em 10º lugar. Faltam três jogos. Primavera (fora), Ponte Preta (casa) e Mirassol (fora). A torcida dizia, após a vitória sobre o São Paulo, que essa partida contra o Guarani seria um divisor de águas. Saberia se o clube lutaria pela classificação ou contra o rebaixamento.
Sem essa vitória, portanto, a meta é somar os pontos necessários para não cair. De preferência, atingindo um patamar para garantir, por segurança, uma vaga na Série D de 2027. E aí, se ainda sobrar ponto a buscar, tentar a classificação.
Vamos devagar com o andor. O santo, como reza o ditado, é de barro. Um amigo disse: “como fomos acreditar que dava?”. Respondi: “será que a gente acreditava mesmo, ou queria acreditar?”. Porque, além de conhecer esse clube, a gente sabe que elenco a SAF montou. Falhou de novo. Nem sempre só a luta vai resolver.
É bom lembrar que, desde o começo, as únicas boas notícias surgem da transpiração. Não da inspiração. Pode-se discordar de escolhas, mas Fábio Matias vai fazendo o que dá com o (pouco) que tem. O clima favorável foi jogado no lixo. O otimismo voltou a se afastar. Agora é assimilar, trabalhar e pontuar.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 15 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More