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A cidade onde sair de casa pode ser fatal: drones russos espalham terror em Kherson, na Ucrânia

A cidade onde sair de casa pode ser fatal: drones russos espalham terror em Kherson, na Ucrânia

Kherson, no sul da Ucrânia, tornou-se um dos exemplos mais extremos de guerra urbana no século 21. Ataques russos com drones contra civis transformaram a cidade em um território onde sair de casa pode significar morte. O uso intensivo de drones quadricópteros baratos para lançar granadas sobre moradores levou hospitais, escolas, repartições públicas e até espaços culturais a funcionarem no subsolo. As informações são do The New York Times.

Segundo autoridades ucranianas, cerca de 200 civis foram mortos e outros 2.000 ficaram feridos em ataques com drones apenas no último ano. A prática ficou conhecida entre os moradores como “safári humano”, em referência à forma como operadores russos perseguem pessoas pelas ruas, calçadas e jardins residenciais.

Palácio da Cultura dos Trabalhadores do Petróleo em Kherson após ataque de drone russo em julho de 2023 (Foto: WikiCommons)

Antes da guerra, Kherson era conhecida por seus amplos bulevares arborizados e mansões da era czarista. Hoje, o céu aberto é visto como ameaça. A cidade inteira está ao alcance de drones lançados a partir de posições russas do outro lado do rio Dnipro. Três quartos da população fugiram, reduzindo o número de habitantes para cerca de 65 mil pessoas.

Para tentar reduzir os riscos, autoridades locais instalaram dezenas de quilômetros de redes antidrones sobre vias públicas, construíram mais de 250 câmaras de escape de concreto e implantaram sistemas de interferência eletrônica ao longo da margem do rio. Mesmo assim, nenhuma defesa se mostrou totalmente eficaz.

Funcionários municipais e equipes de manutenção trabalham ao ar livre com detectores portáteis de drones, capazes de interceptar imagens das câmeras dos equipamentos russos. Ver a própria imagem ou o próprio veículo na tela desses dispositivos é considerado sinal de perigo iminente.

Organizações de direitos humanos afirmam que Kherson se tornou o local com maior uso documentado de drones em crimes de guerra contra civis. Especialistas alertam que a experiência da cidade pode antecipar o futuro de conflitos armados em outras regiões do mundo, já que drones de baixo custo democratizaram o acesso a armas de precisão.

Com escolas fechadas, crianças frequentam espaços de atividades subterrâneos, onde participam de aulas de dança, arte e recreação. Hospitais e maternidades também operam abaixo da superfície, numa tentativa de escapar da vigilância constante dos drones.

Apesar do cenário, parte da população permanece na cidade por falta de alternativas. Para muitos moradores, a rotina inclui checar grupos de alerta em aplicativos de mensagens antes de sair de casa, procurar abrigos de concreto e evitar qualquer lugar onde seja possível ver o céu.

Crimes contra humanidade’, diz ONU

Os ataques da Rússia contra a cidade de Kherson realizados com drones equivalem a crimes contra a humanidade de assassinatos. A conclusão é da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre Ucrânia da ONU (Organização das Nações Unidas), que divulgou um relatório em maio do ano passado.

Homens, mulheres e crianças foram alvos em diversas circunstâncias enquanto saíam para suas atividades diárias a pé ou em qualquer tipo de veículo. A Comissão de Inquérito afirma no relatório que forças russas têm atuado numa área que se estende por mais de cem quilômetros ao longo da margem direita do rio Dnipro, na província de Kherson. Os ataques de drones aparentam ser generalizados, sistemáticos e conduzidos de forma coordenada.

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