CBF promove avanços prometidos pela liga de clubes – e não estamos sabendo lidar
Seja como jornalistas ou como torcedores, já estávamos muito desacostumados a elogiar alguma coisa da CBF. Os acontecimentos dessa semana não apenas causaram surpresa positiva, como expuseram nossa dificuldade em acreditar num futuro melhor para o futebol brasileiro.
O lançamento do Programa de Profissionalização da Arbitragem e do novo Manual de Competições, anunciados na véspera do início da Série A, se somam a outras importantes medidas que já colocaram a gestão de Samir Xaud em um lugar diferenciado na história da CBF.
Afundada em uma crise política há mais de uma década, com rachas, batalhas jurídicas, vazamentos, acusações de tentativas de golpes, escândalos e destituições, a CBF vive um momento único que precisa ser reconhecido.
Em menos de um ano, o tão questionado novo comando da entidade já promoveu mudanças de grande impacto em diversos sentidos, quando já não se esperava tanta coisa. Com medidas efetivas, reverteu a crise em legado histórico.
São instrumentos regulatórios e mudanças estruturais tão ou mais relevantes e desejados – inclusive por este blog (ver links ao longo do texto) – do que a última grande reforma estrutural, quando a CBF instaurou o sistema de pontos corridos para a Série A. Foi há mais de 20 anos, talvez a última vez em que a entidade recebeu um elogio da maioria da “comunidade do futebol”.
Isso ocorre justamente quando o antigo sonho da formação de uma liga de clubes parece estar afundando. Divididos, incapazes de dialogar e contaminados por interesses de terceiros, os clubes brasileiros seguem sem conseguir trazer para a realidade uma entidade autônoma para gerir a principal competição do futebol nacional.
As mudanças promovidas pela CBF nos últimos meses foram justamente sobre os temas que, acreditava-se até então, só poderiam ser solucionados por uma liga autônoma. A liga não veio, a nova gestão da CBF aproveitou o vácuo para retomar o protagonismo e agora a própria “urgência” da liga passa a ser alvo de questionamentos.
Vejamos uma por uma e a razão de serem tão relevantes e bem-vindas.
Samir Xaud presidente da CBF anuncia calendário do futebol brasileiro
João Guerra
Novo calendário
O primeiro ponto de grande impacto foi a reforma do calendário de competições. Apesar de alguns elementos controversos – como era impossível deixar de ser –, o novo calendário atacou de forma precisa o congestionamento das datas, considerado a raiz dos demais problemas do futebol brasileiro.
Mas não apenas deu maior espaço e prioridade às principais competições, encurtando os campeonatos estaduais e permitindo melhor planejamento dos principais clubes. O novo calendário também trouxe novidades importantes e salutares à base da pirâmide, garantindo mais datas e atividade aos clubes menores – embora ainda seja preciso experimentar a qualidade das propostas no plano real.
Controle financeiro
Em novembro passado, a CBF apresentou o Sistema de Sustentabilidade Financeira do Futebol Brasileiro (SSF), que estabelece regras claras para o controle do endividamento das agremiações, estabelecendo limites de gastos e impondo maior transparência e conformidade da parte de dirigentes de clubes e proprietários de SAFs.
O novo sistema passará por diversos desafios, especialmente de ordem política, mas ao menos estabelece uma nova lógica geral. Em um tempo em que recuperações judiciais se multiplicam, com associações jogando pendências para uma possível futura SAF e as próprias SAFs estabelecidas acumulando grandes dívidas próprias, a existência de regras de controle financeiro se mostra um avanço considerável.
O grande problema ficou pela ausência de qualquer controle da parte dos novos aportes do grupo proprietário para a cobertura dos prejuízos.
Profissionalização da arbitragem
Agora vem o tão desejado Programa de Profissionalização da Arbitragem (PPA), que finalmente regulamentará a profissão de árbitros, assistentes e VARs, dando maior estabilidade financeira aos profissionais, oferecendo maior preparação física, técnica e psicológica, mas também estabelecendo novos critérios de avaliação da qualidade do trabalho desses.
Baseado em modelos vigentes há algumas décadas nas principais ligas do mundo, o PPA vai servir em dois sentidos: dotar a arbitragem de maior estrutura e qualificação constante, enquanto estabelece um critério mais claro de avaliação, com “rebaixamentos” e “promoções”, de acordo com o desempenho técnico e físico. Ganha com isso quem apita e quem avalia.
Manual de Competições
Menos falado que os outros, o Manual de Competições também merece atenção especial. Substituindo o antigo Regulamento Geral de Competições e incorporando novas regulamentações legais, o Manual avança sobre uma série de questões relevantes e há muito tempo demandadas.
Versa sobre condições mínimas de estrutura para vestiários das equipes; sobre as condições de trabalho da imprensa, da arbitragem e do recebimento das delegações visitantes; define padrões mínimos de qualidade para os setores destinados aos torcedores visitantes; estabelece novos mecanismos para a garantia da qualidade do gramado, sejam eles de grama natural ou artificial; e adequa o Protocolo Antirracismo ao Código Disciplinar da FIFA.
Também ataca uma zona cinzenta da regulação da múltipla propriedade de clubes, deixada pela Lei das SAFs – que proíbe a participação em outra SAF, mas não tratava da relação com outro clube estabelecido como uma sociedade anônima convencional ou companhia limitada. Agora, grupos econômicos e indivíduos não poderão mais deter participação relevante (10%) em clubes que disputem a mesma competição ou divisões nacionais com relação de acesso/rebaixamento entre si.
Futebol Feminino
Como um dos pontos mais relevantes, o Manual de Competições cria novas condições para impedir que clubes abandonem seus projetos de futebol feminino, fortalecendo a modalidade, protegendo-a das instabilidades causadas pelo futebol masculino – algo muito recorrente em casos de rebaixamento.
Caso abandonem competições, os clubes poderão sofrer sanções administrativas e inclusive perder o direito de ajuda de custeio para taxas de arbitragem, logística com transporte, hospedagem e alimentação, e até mesmo outras cotas de participação em competições masculinas e das categorias de base.
Direitos do torcedor
O novo Manual de Competições também surpreendeu ao estabelecer novas regras de defesa do direito do torcedor – algo que não parecia estar em pauta. O maior destaque fica pela alteração da regra que obrigava o clube mandante a cobrar, da torcida visitante, o mesmo preço do ingresso do “setor equivalente” da torcida local – medida que gerava contradições e permitia manobras.
Agora a regra define que o ingresso para visitantes deverá ser, no máximo, o dobro do valor do ingresso mais barato oferecido ao torcedor local, independente do setor. A nova regra, em tese, limitará a possibilidade de estabelecer políticas de preços abusivas contra os torcedores visitantes.
Ainda nesse sentido, outra medida regulamenta a política de reciprocidade entre os clubes na concessão de ingressos de visitantes, até então feita de forma indireta ou improvisada. O clube visitante poderá solicitar a aquisição antecipada de 50% da carga de ingressos do setor para seu torcedor, podendo utilizá-los como benefícios dentro dos planos de sócio-torcedor.
Torcida única
Por fim e não menos importante, o Manual de Competições cria novas regras sobre as medidas de proibição de torcedores visitantes em diversos cenários. O Departamento de Competições “poderá remanejar a partida para outro local, inclusive fora da jurisdição da Federação Estadual do Clube Mandante, ou determinar a realização da partida com portões fechados, garantindo-se o equilíbrio técnico-esportivo da competição”.
Isso vale tanto para os casos de clubes que “autoimpõem” torcida única – como é o caso do clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro, que não conta com apoio da Polícia Militar, nem do Ministério Público –, como para casos onde há “determinação judicial ou manifestação de órgão público responsável pela segurança pública local”.
Embora trate de casos de reciprocidade sobre jogos de volta (copas) ou de returno (nacional), a nova regra pode impactar na rediscussão das políticas de torcida única que, de acordo com o levantamento feito por Theo Fernandes e Tiago Lemos, do GE, ocorre em metade dos clássicos das séries A e B em 2026.
Dá para acreditar
O saudoso Tim Maia tinha uma frase (impublicável) que ilustrava bem como o Brasil é um país contraditório por essência e por que temos tanta dificuldade de acreditar em boas notícias. Quando parecia que o comando da CBF sobre o futebol estava com os dias contados pela iminente formação de uma liga de clubes – e pela condição política caótica que finalmente permitiria isso –, tudo estremeceu, espatifou no chão e se reposicionou.
A liga estagnou por culpa dos próprios clubes, os novos mandatários da confederação perceberam que precisavam mostrar serviço para conquistar legitimidade e as mudanças mais importantes e desejadas se tornaram reais em pouquíssimo tempo.
Há boas razões para acreditar nas transformações positivas decorrentes de todos esses novos projetos. Mas também é bom se manter “desacostumado”, para não cochilar. A qualidade dessas mudanças ainda depende seriamente dos interesses políticos que rondam o futebol brasileiro. geRead More


