Brasileira encara ondas de 4 metros e conclui travessia de 6.500 km após 29 dias sozinha no mar
Theodora Prado superou tempestade para concluir travessia: “A estratégia foi sobreviver”
Pense no seguinte cenário: você está sozinho em um veleiro, se deslocando da Cidade do Cabo, na África do Sul, até o Rio de Janeiro. Passa 29 dias no mar, encarando diferentes condições climáticas, de dias calmos, sem vento, a uma tempestade forte, com ondas de quatro metros. Para ter certeza de que tudo corre bem, se permite dormir apenas 20 minutos por vez. Foi exatamente isso que viveu a velejadora brasileira Theodora Prado, a primeira mulher a completar a tradicional regata Cape2Rio em solitário, sem nenhuma companhia para dividir os perrengues da travessia de quase 6.500 km.
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Theodora Prado recebe homenagem depois de completar a Cape2Rio
Armando Paiva
Theodora, de 28 anos, finalizou a aventura no domingo (25), ao chegar à Baía de Guanabara. E a última semana da viagem foi a que trouxe os maiores desafios. Uma forte tempestade tirou o barco de sua rota original e ameaçou o futuro da missão da velejadora.
– Quando estava me aproximando da costa do Rio de Janeiro, peguei uma condição de vento muito atípica, que me empurrava para fora da costa e trazia ondas de quatro metros. Tive que mudar o rumo do barco para Santa Catarina. O pessoal até me perguntou qual foi o plano durante o temporal, e eu só respondi: “A estratégia foi sobreviver”. Eu olhava nos modelos meteorológicos e estava praticamente no meio de um ciclone. Tinha que manter o barco intacto, manter a minha saúde, o meu bem-estar. Qualquer erro podia ser fatal – disse a paulista Theodora, em entrevista exclusiva ao ge.
Barco de Theodora Prado já se aproximando do Rio de Janeiro
Depois de quatro dias tendo que lidar com a tempestade, a velejadora encarou momentos de total calmaria, sem vento para conduzir o barco de volta à sua rota original. O cenário era propício para que Theodora questionasse o sucesso de sua missão, mas a brasileira desenvolveu uma das virtudes mais importantes para quem se arrisca a navegar sozinho: a autoconfiança.
– A gente sente medo e duvida de si o tempo todo. Todo mundo olha a coragem como um ato heroico, mas coragem é você ter medo, ouvir seus instintos e seguir mesmo assim. (Na Cape2Rio) Criei uma relação com o barco muito especial. Aprendi bastante não só sobre vela, mas sobre questões pessoais também. Desenvolvi autoconfiança, comecei a ouvir meus instintos de um jeito que não fazia. Eu me sinto outra pessoa, me transformei por completo – contou Theodora.
Theodora Prado relata impactos de jornada na Cape2Rio: “Eu me sinto outra pessoa”
Durante os 29 dias no Oceano Atlântico, da Cidade do Cabo ao Rio de Janeiro, a brasileira criou métodos para se adaptar à solidão. Alguns momentos permitiam que o corpo e a mente relaxassem, mas nunca por completo. Era importante manter o foco na navegação, sempre a postos para problemas que o mar ou o barco pudessem apresentar. Por isso, dormir por longos períodos se tornou inviável. O sono era controlado.
– Com boas condições, mar mais calmo e vento positivo, naveguei dias maravilhosos. Conseguia desfrutar, tomar um banho mais longo, ouvir música, ler um livro. Mas, no geral, tentava dormir durante o dia, porque, mesmo que precisasse acordar correndo, eu conseguiria já ter uma noção melhor do que estava acontecendo. Sempre tinha sonos fracionados. Colocava o despertador a cada 20 minutos, acordava, via se estava tudo bem e voltava a dormir. Qualquer oportunidade de dormir, eu dormia, mesmo que fosse nove horas da manhã. Tinha que fazer um estoque de sono – afirmou Theodora.
Theodora Prado conta desafios da rotina a bordo de veleiro: “Tinha que fazer estoque de sono”
Gerindo os desafios da aventura, a velejadora enfim pôde avistar terra firme no Rio de Janeiro e entrar para a história da Cape2Rio. A regata foi criada em 1971 e ocorre a cada três anos – já está consolidada como um evento tradicional no calendário da vela. Normalmente, é feita em equipe, em barcos maiores. Mas Theodora quis encarar a travessia em solitário e se tornou a primeira mulher a alcançar o feito.
Vale ressaltar que outras velejadoras já tinha cruzado o Oceano Atlântico sozinhas, mas nenhuma delas cumpriu a missão na Cape2Rio.
– Eu sempre quis uma travessia solo, porque é um grande desafio. Assim como uma pessoa decide fazer uma maratona, eu tinha esse sonho no meu coração e decidi fazer em uma regata, porque adoro o espírito competitivo, e a aventura também fica mais segura, com o apoio da organização e a presença de outros velejadores por perto. A Cape2Rio é uma competição muito tradicional, com mais de 50 anos de história, e eu me sinto um grãozinho de areia. Fico honrada por fazer parte. Espero que esse feito possa inspirar outras pessoas a realizar sonhos e a buscar o que vem do coração – comentou Theodora.
Theodora Prado em foto tirada durante a Cape2Rio
Divulgação
Do mercado financeiro às águas do oceano
Uma missão tão difícil quanto a regata da Cape2Rio só pode ser encarada por velejadores com décadas de experiência, certo? Não necessariamente. Theodora descobriu a paixão pela vida náutica já adulta. Antes, trabalhava no mercado financeiro, dentro de um escritório. Tinha uma vida estável, mas a mente dava sinais de desgaste.
De olho em atividades para ocupar o tempo livre, Theodora se dedicou ao surfe em Ubatuba, no litoral de São Paulo. Foi lá também que teve o primeiro contato com a vela, por meio do professor José Spinelli Neto, conhecido como Tio Spinelli.
Em 2022, o professor convidou Theodora para acompanhar uma equipe que velejaria da África até o Brasil. A aluna, ainda sem tanta experiência, topou o desafio e deixou o emprego no mercado financeiro. Até planejava voltar ao mundo corporativo, mas foi fisgada pelos desafios do mar e trocou de carreira. Passou a trabalhar exclusivamente com barcos e cruzou o Oceano Atlântico outras vezes, sempre acompanhada. Hoje, faz deliveries – ou seja, se alguém precisa levar uma embarcação de um local para outro, a brasileira é contratada para comandar a travessia.
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Barco de Theodora ao se aproximar da conclusão da Cape2Rio
Divulgação
Cada vez mais acostumada ao mundo náutico, Theodora amadureceu o projeto de fazer uma regata em solitário. Juntou dinheiro e foi à África do Sul para comprar o veleiro que usou na Cape2Rio.
Apesar de não trabalhar mais no mercado financeiro, a velejadora ainda aproveita ensinamentos que adquiriu na antiga carreira, como explicou ao ge:
– O que vivo hoje é maior do que qualquer sonho que pudesse ter. Encontrei as pessoas certas no caminho. Por mais que eu não esteja mais no mercado financeiro, sou grata por tudo que aprendi nele. Trabalhava com economia e análise de investimentos. Hoje olho para a minha vida como um negócio. Defino o que quero fazer e começo a buscar meios de financiar isso, organizar os projetos. Quando entro em um barco, vejo a embarcação como uma empresa. Se preciso contratar alguém, faço a função do RH, por exemplo.
Theodora Prado trocou mercado financeiro por carreira nas águas: “Olho para minha vida como um negócio”
E, assim, reunindo todos os conhecimentos acumulados e desfrutando de novas experiências que a vida oferece, Theodora já planeja as próximas missões, sempre perto do mar:
– Agora eu vou ficar um pouco no Brasil, para cuidar do barco e trabalhar no processo burocrático de importação dele. Quero navegar bastante este ano, trabalhar muito. Não vou poder usar tanto o meu barco e espero encontrar um rumo para ele que não seja vender. Pretendo ceder para alguma ONG ou escola de vela comunitária que possam instigar jovens a aderir à modalidade. geRead More


