Playoff na Série B era desnecessário, mas parece ter grande potencial
Cheia de moral pela aprovação das mudanças propostas nos últimos meses, a CBF lançou uma novidade que, ao que consta, ninguém pediu: um mata-mata após as 38 rodadas da Série B. E há alguma chance disso resultar em sucesso.
Valendo já na edição que começa em março, duas chaves definirão o terceiro e o quarto clubes a subir para a Série A na temporada seguinte. Campeão e vice-campeão sobem direto, sem mais emoções, depois serão 3º contra 6º de um lado e 4º contra 5º do outro, definindo as outras duas vagas na elite.
Talvez motivada pelo sucesso da marcação da semifinal da Copa do Brasil para depois do encerramento da Série A em 2025, a expectativa é que os jogos de mata-mata decisivos do acesso atraiam a atenção de um público pouco habituado a olhar para o andar debaixo.
Também fará com que clubes de meio de tabela mantenham as ambições até o final do campeonato, buscando as últimas vagas do playoff, gerando emoção em mais jogos das rodadas finais.
O ”playoff” brasileiro é, portanto, uma adoção do modelo já testado no futebol europeu, onde o comum é o acesso/descenso de 3 clubes, sendo o terceiro sempre definido depois da temporada regular. No nosso caso, serão dois clubes “em aberto”, algo incomum onde há esse modelo.
O princípio do playoff é que, se após tantas rodadas, você não foi bom o suficiente para ser o campeão ou o quase campeão, então você não está muito melhor do que ninguém. Logo, precisa bater testa contra os demais concorrentes que se saíram “tão não tão mal” quanto você.
Assim, em modelos distintos, as ligas europeias buscam definir uma espécie de “campeão da rapa”. O clube que não teve tanto mérito, mas que também não apenas cumpriu tabela ao longo do ano. Ruim para quem beliscou a vaga direta, bom para quem não estava tão perto na reta final.
Será? Vejamos.
Desde 2006 a Série B era disputada no mesmo modelo, com 20 concorrentes se enfrentando em turno e returno e com acesso direto dos 4 melhores.
Para imaginar o que pode ocorrer – e sem a pretensão de tirar conclusões definitivas – puxamos a diferença de pontos entre o 2º e o 3º colocados, para imaginar a chance de um clube ser jogado para o playoff, mesmo tendo uma campanha digna de acesso direto.
Em dez ocasiões, a diferença entre o 2º e o 3º colocados da Série B foi de apenas 1 ponto (ou nenhum). Em apenas 5 ocasiões a diferença entre eles foi de mais de 3 pontos (ou uma vitória).
Seria preciso levar em conta que as pontuações finais podem se distorcer em caso de definição precoce dos promovidos, mas esses números mostram que haverá pouca distinção entre os que conquistam o acesso direto e os que disputarão mais dois jogos decisivos.
Também interessa olhar a diferença de pontos entre os 4º e 5º colocados, para imaginar como será o “favorecimento” daqueles que não alcançariam o acesso convencional.
De modo muito parecido, em onze edições o primeiro “não promovido” ficou a apenas 1 ponto (ou nenhum) atrás do último promovido. Boa parte dessas ocasiões ocorreram em rodadas finais emocionantes, por sinal.
Em apenas três edições houve grande vantagem entre os promovidos e os que ficaram estagnados na B (mais de 3 pontos de diferença). Com o novo formato, essa diferença já não importará, ficando a emoção resguardada ao degrau debaixo.
Terceiro colocado em 2014 e 2016, o Vasco da Gama teria sido obrigado a jogar os playoffs em situações bem distintas, com 6 pontos ou apenas 1 ponto de diferença do segundo colocado. Em 2022, quando foi quarto colocado, o Vasco entraria no playoff mesmo somando 4 pontos a mais do que o quinto colocado.
Ainda na questão histórica, vale também considerar que em cinco ocasiões o 6º colocado ficou apenas 1 ponto atrás do 4º colocado – incluindo aí os últimos 3 anos. .
Diferença 3
Irlan Simões
E como funciona nas 10 principais ligas europeias? Todas adotam os playoffs, mas os formatos são bem distintos.
Championship (Inglaterra) – 24 clubes
Playoffs do 3º ao 6º, por uma vaga
LaLiga 2 (Espanha) – 22 clubes
Playoffs do 3º ao 6º, por uma vaga
2. Bundesliga (Alemanha) – 18 clubes
Playoffs do 3º da segunda divisão contra o 16º da primeira divisão (de 18)
Serie B (Itália) – 20 clubes
Do 5º ao 8º fazem uma primeira eliminatória em duas chaves
Vencedores disputam contra 3º e 4º, por uma vaga
Obs: não ocorre se 3º fizer mais de 15 pontos a mais que o 4º
Ligue 2 (França) – 18 times
Eliminatória entre 4º e 5º
Vencedor enfrenta o 3º colocado
Primeira Liga (Rússia) – 16 clubes
3º e 4º da segunda divisão vão para playoffs contra 14º e 13º da elite (de 16), respectivamente
Vencedores das chaves garantem vaga na elite da temporada seguinte
Obs: modelo permite até quatro acessos/descensos, portanto
Eerste Divisie (Países Baixos) – 20 clubes
O mais confuso de todos: os 4 “campeões” de cada “9 rodadas” se classificam para playoffs, independente da classificação final, e mais 2 vão pela tabela geral
Caso algum deles esteja entre o 1º e o 2º no final, a vaga vai para a tabela geral
Na primeira fase, os 6 clubes se enfrentam
A chave sem “campeão” enfrenta o 16º da elite (de 18) na semifinal
Segunda Liga (Portugal) – 18 clubes
Playoffs do 3º da segunda divisão contra o 16º da primeira divisão (de 18)
Obs: modelo igual ao alemão
TFF 1. Lig (Turquia) – 18 clubes
Playoffs do 3º ao 6º por uma vaga
Obs: modelo igual ao inglês e espanhol
Challenger Pro League (Bélgica) – 16 clubes
Playoffs do 3º ao 6º por uma vaga
O melhor deles enfrenta o 16º da primeira divisão (de 18)
Obs: misto do modelo inglês e do alemão
Em todos os casos, exceto a Rússia, a previsão é de no máximo 3 acessos. Em termos de mobilidade, o modelo adotado no Brasil só teria semelhança com o da Rússia, onde podem acontecer 4 acessos/descensos gerais, sendo 2 pelos playoffs.
Por outro lado, em metade deles – Alemanha, Rússia, Países Baixos, Portugal e Bélgica -, os playoffs envolvem clubes da primeira divisão, podendo garantir a permanência de um dos piores da elite, reduzindo o acesso a apenas 2.
Um playoff que salvasse um potencial rebaixado da Série A com certeza pegaria bem mal no contexto brasileiro, onde há um público já ressabiado com um histórico (felizmente já distante) de virada de mesa.
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Rafael Ribeiro / CBF geRead More


