No meio do caminho tinha uma bandeira, e Flaco López não resistiu à tentação
Corinthians 0 x 1 Palmeiras | Melhores momentos | 7ª rodada | Campeonato Paulista 2026
Os clássicos são campeonatos de um jogo só que se encerram em si mesmos, quase sempre extrapolando, em termos de importância, as fases classificatórias dos Estaduais. Por mais que o clima de começo de temporada seja propício a confrontos modorrentos, uma simples faísca é capaz de desatar um fogaréu desvairado quando duas camisas antagonistas estão em campo.
Exatamente assim sucedeu o inflamável Dérbi disputado em Itaquera na noite de domingo. O empate persistia no placar pela ineficácia corinthiana em converter sua predominância em gols, enquanto o Palmeiras, como Abel Ferreira disse na coletiva após o jogo, melhorou durante o clássico, depois de um começo em que seu sistema defensivo mostrou desorganização e a capacidade criativa do time palestrino era equivalente a usar um palito de fósforo para acender uma usina.
Com tudo que o desfecho do jogo apresentou, a história não vai reservar o merecido espaço para a “malandragem” de Andreas Pereira. Nos clássicos, o termo “malandragem” pode ser definido como presença de espírito, e muitas vezes tem o poder de mudar completamente o andar da carruagem, colocando-a nos eixos do vencedor. Ainda no primeiro tempo, após marcação de pênalti para o Corinthians, o meia palmeirense usou o pé para cavoucar a marca da cal. Provavelmente, o artifício de Andreas passaria despercebido se na cobrança Memphis não tivesse escorregado de forma espalhafatosa, mandando a bola muito longe do gol de Carlos Miguel.
Memphis Depay escorrega e desperdiça cobrança de pênalti em Corinthians x Palmeiras na Neo Química Arena pelo Campeonato Paulista
Marcos Ribolli
Era apenas a introdução para o rumo explosivo que o Dérbi assumiria na sua parte final. O Palmeiras havia resistido durante mais de oitenta minutos às investidas corinthianas, e deixar o time de Abel Ferreira não apenas vivo, mas esperneando, é sempre um risco extremo. Pois aos 38 minutos do segundo tempo Maurício usou sua afiada canhota em chute que, após desvio, exigiu toda a elasticidade de Hugo Souza. A participação do arqueiro alvinegro, no entanto, não foi suficiente para evitar o rebote apanhado por Flaco López, que marcou o gol que garantia a vitória contra o tradicional adversário, essa taça informal de valor inestimável, e também os 100% de aproveitamento em clássicos na temporada, pois o Palmeiras já havia vencido Santos e São Paulo.
Mas neste caso o gol, mesmo importante, foi apenas um detalhe, apenas para citar a espirituosa frase frequentemente atribuída a Carlos Alberto Parreira. O grande evento do clássico aconteceu mesmo na comemoração, quando o atacante argentino não resistiu à tentação de dar uma voadora na bandeira de escanteio, que leva o escudo do Corinthians, repetindo a atitude do são-paulino Luciano e de outros goleadores insensatos, sendo prontamente acossado pelos reservas alvinegros e gerando um enrosco terrível na beirada do campo. Quase uma Batalha de Stalingrado em plena rodada regular de Campeonato Paulista.
Flaco López comemora gol em Corinthians x Palmeiras
Cesar Greco
A conduta de Flaco López é reprovável, quando seguimos qualquer linha razoável de raciocínio, afinal de contas tratou-se de um desrespeito bastante explícito ao clube rival. No entanto, também é impossível não pontuar que havia apenas uma torcida no estádio, como acontece em clássicos paulistas desde 2016 — a presença de torcida única é prejudicial ao futebol sob qualquer aspecto. Possivelmente, se houvesse palmeirenses em Itaquera, a bandeirinha de escanteio teria passado despercebida ao centroavante, que procuraria o setor repleto de verde da arquibancada para comemorar seu gol como os gols devem ser comemorados — nudez moral e às vezes física junto a estranhos.
Mas não. Assim que a bola tocou as redes, a bandeira de escanteio entrou no campo de visão de Flaco López. Nada mais havia ao redor. E, bem sabemos, a mente dos centroavantes é um mistério ainda não desvendado pela ciência. Em meio à frenética corrida após o gol, ainda é possível perceber no movimento corporal do goleador uma fração de segundo de hesitação. Em um ouvido, um pequeno Ademir da Guia recomendava elegância e prudência. No outro, um diminuto Edmundo lhe espetava o tímpano com um tridente e sussurrava: “Vai, chuta mesmo. Faça nascer a balbúrdia”. E foi assim que Flaco López não resistiu ao impulso, entregou-se à perdição e deflagrou o caos. Quem escolhe passar a vida com a obrigação de fazer gols, às vezes corre esse risco.
Flaco López marca, chuta bandeira do Corinthians e gera confusão no clássico; veja geRead More


