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“Craque ressaca”: como o Sport deu chapéu e tirou meia do Santa Cruz em pleno Carnaval de 1975

“Craque ressaca”: como o Sport deu chapéu e tirou meia do Santa Cruz em pleno Carnaval de 1975

Em 1975, Luciano Veloso comenta à Globo troca do Santa Cruz pelo Sport
“Como um ex-funcionário do Santa Cruz, vou mostrar a todo o público e, principalmente, à torcida do Sport, que, realmente, não estou na decadência. Estou procurando, no meu novo clube, mostrar que estou dentro das minhas condições e, se possível, dar tudo de mim ao Sport”, disse Luciano Veloso à Globo, em 1975.
As palavras do ex-jogador, registradas no acervo da Globo, traduzem um dos assuntos mais comentados em Pernambuco em 1975: a ida do meia do Santa Cruz para o Sport, em pleno carnaval.
Uma negociação bombástica, com reviravoltas e enorme repercussão após o furo de reportagem do Diario de Pernambuco que agitou a capital pernambucana há mais de 50 anos. O ge entrevista e traz bastidores da negociação que batizou Luciano Veloso de “Craque ressaca”.
O termo pegou porque a direção do Sport tinha prometido um craque para a Quarta-feira de cinzas, na tentativa de curar o fim do carnaval. E Luciano Veloso era um grande jogador. Daí a junção que culminou na expressão.

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“Luciano agora é do Esporte”
Foi assim que o Diario de Pernambuco estampou em sua capa do dia 8 de fevereiro de 1975 a notícia impactante: Luciano Veloso estava de saída do Santa Cruz. Trocaria o Arruda, onde foi multicampeão, para tentar encerrar um jejum de 12 anos sem estaduais na Ilha do Retiro.
A notícia, no entanto, não foi uma simples oficialização de acordo entre os clubes. Pelo contrário. Envolvia a divulgação de um trato de bastidores entre as diretorias de Santa Cruz e Sport. Nada poderia ser vazado antes do fim do carnaval.
Manchete do Diario de Pernambuco crava ida de Luciano Veloso do Santa Cruz para o Esporte
Reprodução/Biblioteca Nacional
Na época, Luciano Veloso era um das referências do Santa Cruz pentacampeão pernambucano (1969-1973). Tanto é que ficou conhecido como “a Maravilha do Arruda”. Nacionalmente, também se destacava na posição.
Luciano Maravilha lembra a última vez que o Santa venceu o Corinthians, em SP
Do outro lado, um Sport que não ganhava o Campeonato Pernambucano desde 1962. E que chegava em 1975 renovado com a eleição de Jarbas Guimarães para encerrar o jejum que atormentava a Ilha do Retiro – afinal, o clube foi vice dez vezes em 12 anos no Estadual.
Apesar disso, o Leão entrou naquele ano com o slogan que pautou a campanha de Jarbas Guimarães na eleição: “Sport 1975 – 20 vezes campeão”.
Página de esportes do Diario detalha ida de Luciano Veloso para o Sport
Reprodução/Biblioteca Nacional
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A descoberta da negociação
Era uma sexta-feira que antecedia o carnaval, com clima de folia que contagiava a quase todos que estavam na Ilha do Retiro.
Se na sede o assunto era carnaval, no restaurante Varanda o tema era outro. Luciano Veloso estava lá reunido com o presidente do Sport, Jarbas Guimarães, e o diretor de futebol Edson Moury Fernandes. Em pauta: a ida do meia tricolor para o Leão.
Jornalista e setorista do Sport pelo Diario de Pernambuco naquela época, Amaury Veloso acompanhava mais um dia normal do clube.
Quando já no fim da tarde caminhava em direção ao parque de diversões do clube, ouviu um garoto dizer que o meia tricolor conversava com a direção rubro-negra no restaurante.
O repórter relembra que desconfiou, mas seguiu a informação. E constatou que, de fato, havia o encontro entre as partes. Foi aí que acionou o fotógrafo Maurício Coutinho para registrar o momento.
E Luciano, vendo isso, fez um pedido.
“Se você, realmente, é meu amigo, não tire minha fotografia”, disse Luciano para o fotógrafo do DP.
Reportagem do Diario de Pernambuco detalha encontro que selou ida de Luciano Veloso para o Sport
Reprodução/Biblioteca Nacional
A conversa que culminou no acerto de Luciano com o Sport, como mostra a reportagem do Diario, não foi acompanhada pela imprensa.
No entanto, o diretor de futebol Edson Moury Fernandes mostrou ao repórter Amaury Veloso a prova da contratação: um documento que continha o acordo de Santa Cruz e Sport para que a informação não fosse vazada antes do carnaval.
O motivo: a direção do Santa Cruz tinha medo de que a notícia da ida de Luciano Veloso para o Sport fosse tirar público da festa de carnaval do clube.
Na época, os clubes arrecadavam parte considerável do orçamento do ano em festividades que aconteciam nas sedes.
Ramon e Luciano Veloso tentam reeditar dupla vitoriosa do Santa Cruz no videogame
Além disso, o presidente Jarbas Guimarães havia dito para jornalistas que tinha fechado com um reforço bombástico, mas só iria revelar na Quarta-feira de cinzas.
Tanto é que o Jornal do Commercio, no mesmo sábado que o Diario de Pernambuco publicou o acerto de Luciano Veloso com o Sport, trouxe como destaque a contratação “misteriosa” do clube.
– Na realidade, essa contratação que acabei de resolver vai ser um estouro em Pernambuco, principalmente para os adeptos do Sport. É um atleta de nível de seleção, grande valor do futebol brasileiro, mas não digo o nome agora, porque quero surpreender a nossa torcida na Quarta-feira de cinzas, a fim de acabar com a ressaca do carnaval – disse Jarbas, em reportagem do Jornal Commercio publicada no dia 8 de fevereiro de 1975.
Jornal do Commercio traz fala de Jarbas Guimarães falando sobre reforço “bombástico” para anunciar após o carnaval de 1975
Divulgação/Arquivo Público de Pernambuco
Em contato com o ge, o presidente do Sport na época, Jarbas Guimarães, diz que a notícia foi vazada por dirigentes do Santa Cruz.
– Fizemos um acordo para que a notícia não vazasse antes da Quarta-feira de cinzas. Até dei uma entrevista falando que tinha contratado um craque para curar a “ressaca” dos rubro-negros, mas não disse o nome. Mas aí a direção do Santa Cruz, que tinha proximidade com Adonias (Moura, editor do Diario de Pernambuco na época), vazou a informação – relembra o mandatário.
Direção do Sport pediu que reportagem não fosse publicada
Quando descobriu o acerto de Luciano Veloso com o Sport, o jornalista Amaury Veloso retornou até a redação do Diario de Pernambuco, ao lado do fotógrafo Maurício Coutinho, para redigir a matéria.
Chegando lá, em conversa com o jornalista e editor de esportes Adonias de Moura, que havia sido jogador do Santa Cruz, ouviu que a matéria seria capa do jornal no dia seguinte.
Afinal, tratava-se de um furo bombástico: a ida da Maravilha do Arruda para a Ilha do Retiro.
No entanto, segundo relembrou Amaury Veloso ao ge, a direção do Sport foi até a sede do Diario de Pernambuco pedir que a notícia não fosse publicada, pois atrapalharia o acordo entre as diretorias. Apesar do pedido, a reportagem foi publicada.
No dia seguinte à publicação da notícia que cravou a ida de Luciano para o Sport, o Diario publicou o encontro de Jarbas Guimarães com Adonias.
Jarbas Guimarães em conversa com Adonias de Moura, editor do Diario de Pernambuco
Reprodução/Biblioteca Nacional
Presidente do Santa Cruz foi ameaçado por venda de Luciano ao Sport
“Presidente do Santa ameaçado por vender Luciano”.
Esta foi uma das manchetes do caderno de esportes do Jornal do Commercio no dia 9 de fevereiro de 1975, o domingo seguinte à publicação inicial do Diario de Pernambuco.
Presidente do Santa Cruz ameaçado por vender Luciano.
Divulgação/Arquivo Público de Pernambuco
Na matéria, o presidente tricolor, José Nivaldo de Castro, revela que foi ameaçado por alguns torcedores “inconformados” com a venda de Luciano Veloso para o Sport.
O dirigente tricolor usou o argumento de que o atleta estava insatisfeito no Santa Cruz e queria ir para o Rubro-negro. José Nivaldo cita até uma suposta simulação de contusão do meia para não atuar no Tricolor.
– Que adianta ter um atleta no clube sem motivação alguma para defender suas cores, embora até agora sempre foi bem tratado? Outra coisa que o torcedor desconhece é que desde o surgimento do interesse do Sport o atleta vem simulando contusão, simplesmente para forçar sua venda – disse José Nivaldo de Castro, em matéria publicada pelo JC.
Pentacampeão pernambucano com o Santa Cruz, Luciano Veloso dava sinais de que queria respirar novos ares desde o início do ano de 1975, segundo relatos dos jornais da época.
Tanto é que o Sport tentou contratar o meia ainda em janeiro, mas na ocasião o Santa Cruz não liberou. O que mudou semanas depois.
O clima não estava bom entre Luciano e parte da torcida do Santa Cruz. Tanto é que o meia se incomodou com vaias para um atleta da base no último treino pelo Tricolor antes de se transferir, como registrou o Diario de Pernambuco em reportagem publicada no mesmo dia que cravou a ida do atleta para o Sport.
– Eu aguento esses caras? Olha aí, vaiam até um garoto do juvenil (Jadir) – disse Luciano.
A reportagem também traz fala do presidente coral destacando a insatisfação de Luciano em permanecer no clube.
Reportagem do Diario destaca insatisfação de Luciano no Arruda.
Reprodução/Biblioteca Nacional
Luciano Veloso vira Luciano “Marailha”
“E o que é que tem o Supertime? Tem Luciano MaraIlha”.
O trecho da canção do Quinteto Violado, que embalou o Supertime da Ilha e faz referências ao título até hoje, destaca como Luciano Veloso foi importante no Sport.
O atleta saiu da “Maravilha do Arruda” para se tornar “Luciano MaraIlha”, peça fundamental para o Sport quebrar um jejum de 12 anos sem ganhar o Estadual.
Luciano assina com o Sport e recebe camisa do presidente Jarbas Guimarães
Reprodução/Biblioteca Nacional
No dia da assinatura de contrato com o Sport, Ilha do Retiro lotada de jornalistas e fotógrafos para acompanhar a chegada do meia ao clube. A transação que agitou o carnaval de 1975.
A reportagem do Diario de Pernambuco destacou alguns diálogos da apresentação do meia, como por exemplo a fala dele para o técnico Duque, com quem tinha sido multicampeão no Santa Cruz.
– Chefe, juntos outra vez – disse Luciano.
– É, tudo tem seu dia – respondeu Duque.
A apresentação de Luciano Veloso no Sport
Reprodução/Biblioteca Nacional
A ida do meia para o Sport só foi concretizada após lideranças da diretoria do Santa Cruz aprovarem a negociação.
Um dos dirigentes consultados foi Rodolfo Aguiar, responsável por receber o pagamento de 450 mil cruzeiros líquidos para liberar Luciano.
Presidente do Santa Cruz consultou líderes antes de vender Luciano Veloso ao Sport
Reprodução/Biblioteca Nacional
Antes de estrear pelo Sport, Luciano conversou com a imprensa e falou sobre a saída do Santa Cruz. Confirmou que havia se interessado pelo Rubro-negro ainda no início das tratativas, mas negou que não teria motivação em defender o Santa caso continuasse.
– Agora, dizer que se não fosse para o Sport, perderia a motivação no Santa Cruz, comigo não cola. Eu poderia enfrentar a onda da torcida, que iria cair em cima de mim, mas nunca deixaria de me empenhar. Todos os jogadores, embora profissionais, gostam de jogar – disse.
Luciano Veloso, do Arruda para a Ilha do Retiro
Reprodução/Biblioteca Nacional
A estreia de Luciano no Sport foi num amistoso diante do Treze, justamente no Arruda, casa do meia por anos.
E o cartão de visitas no Sport foi especial: golaço na estreia, mesmo sem jogar bem, segundo registrou o Diario de Pernambuco.
Luciano Veloso marcou em sua estreia pelo Sport.
Reprodução/Biblioteca Nacional
Teve gol de Luciano contra o Santa Cruz no primeiro clássico
Sport e Santa Cruz se enfrentaram pela primeira vez no Estadual no dia 23 de março de 1975, no Arruda, com mais de 37 mil torcedores. E o meia Luciano Veloso cumpriu o que tinha dito anteriormente: comemorou o gol normalmente diante do ex-clube.
Registro do caderno de esportes do Diario de Pernambuco sobre o primeiro Clássico das Multidões de 1975.
Reprodução/Biblioteca Nacional
Em registro no acervo da Globo, Luciano diz que não tinha mágoas do Santa Cruz e nem qualquer vingança, mas que comemoraria o gol normalmente, caso marcasse no ex-clube.
– Primeiramente, se Deus me ajudar e eu conseguir marcar um tento, não mudarei. Sou aquele mesmo frio e continuarei sendo. Não vejo problema de vibrar. Não é com vingança da torcida tricolor e nem do Santa Cruz também, não tenho o que falar do clube, foi onde me projetei, onde peguei o pouco nome que tenho. Não tenho nenhuma vingança – disse o jogador.
Repercussão do empate do Sport contra o Santa Cruz.
Reprodução/Biblioteca Nacional
Com bola rolando no primeiro Clássico das Multidões de 1975, foi Luciano Veloso quem abriu o placar, num gol de falta. O Santa Cruz, posteriormente, empatou e o duelo terminou 1 a 1.
Após a partida, de acordo com reportagem do Diario de Pernambuco, Luciano demonstrou frieza ao comentar sobre o gol e a comemoração.
– Senti-me igual como das outras vezes. Não tinha motivos para ter um comportamento diferente, já que esta é a minha maneira de ser. Foi mais um gol que fiz, mais uma contingência do futebol. Sou um profissional acima de tudo e nunca tive a intenção ou nunca pensei em dar resposta à torcida tricolor que me incentivou durante todos esses anos – disse.
Luciano Veloso comenta gol no primeiro clássico contra o Santa Cruz.
Reprodução/Biblioteca Nacional
Protagonista de título
Luciano seguiu como protagonista durante toda a temporada e ajudou o Sport a ser campeão estadual no dia 10 de agosto de 1975, quando o clube venceu o Náutico por 1 a 0 nos Aflitos, com gol de Assis Paraíba.
Um título inesquecível para os rubro-negros, já que quebrou o maior jejum de títulos estaduais do clube até hoje.
Supertime da Ilha virou música e acabou com jejum de títulos do Sport
Afinal, dos 12 anos sem títulos pernambucanos, o Sport foi vice em dez (!!!) oportunidades. Seis diante do Náutico, no hexa alvirrubro, e quatro para o Santa Cruz, que terminou como penta – o Timbu impediu o sexto título tricolor em 1974.
– Foi um título especial, acabando com uma agonia de 12 anos. Muitos me falam que aquele título trouxe redenção para uma geração. Já ouvi falas assim: ‘Presidente, muito obrigado pelo título. Meu filho não virou alvirrubro ou tricolor graças a isso’. É histórico – recorda o presidente Jarbas Guimarães.
Fim do jejum: Sport campeão pernambucano de 1975
Reprodução/Biblioteca Nacional
Mais de 50 anos depois da transferência bombástica que agitou o carnaval de 1975, Luciano Veloso tem status de ídolo no Santa Cruz e no Sport.
O ex-jogador também ajudou outro clube a sair da fila: o Corinthians, em 1977, quando o clube ganhou o Campeonato Paulista e encerrou um jejum de quase 23 anos sem títulos estaduais.
Diario de Pernambuco destaca a quebra do jejum por parte do Sport
Reprodução/Biblioteca Nacional
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