Atleta trans tem decisão favorável para disputar Municipal de Futsal no interior do AC: “Sempre quis”
Com apoio jurídico, a atleta trans Chandelly Castro, 27 anos, do Grêmio Feijó, conquistou o direito de disputar o Campeonato Municipal de Futsal Feminino, que começa no próximo domingo (22) e se estende até o fim de março, na cidade de Feijó, no interior do Acre.
Chandelly Castro (E) cumprimenta companheira durante partida de futsal
Arquivo pessoal/Chandelly Castro
O “ok” saiu após parecer favorável da Prefeitura de Feijó, que é a organizadora da competição. Chandelly Castro não havia sido proibida – formalmente – de ser inscrita na competição, mas encontrava certa resistência da comunidade em ser aceita como atleta do naipe feminino.
Diante dos burburinhos na cidade e das opiniões contrárias quanto à legitimidade de participação entre as mulheres, ela recebeu apoio do time e da Federação Internacional do Desporto (FID), que prestou auxilio jurídico para assegurar a participação dela.
– A minha expectativa pra esse campeonato está a flor da pele. Eu tô muito ansiosa. É a minha primeira vez, uma conquista que eu jamais esperaria. Muitos desacreditaram de mim, muitos ficaram soltando piadinhas, falando coisas que não deviam, mas eu relevei tudo isso. Fui com a Justiça e consegui a vitória, graças a Deus – disse em entrevista ao ge.
Chandelly Castro (3ª em pé da dir. p/ esq.) ao lado de outras atletas do Grêmio Feijó
Arquivo pessoal/Dionísio Sousa
FID presta apoio jurídico
A FID soube do caso durante o estadual de futsal da entidade ainda no ano passado, em Feijó. In loco, a diretoria ouviu do presidente do Grêmio Feijó, Dionísio Sousa, que Chandelly Castro estava encontrando certa resistência em ser aceita em torneios femininos, apesar de possuir documentação comprovada.
A partir daí, a FID prestou apoio jurídico para poder chancelar a participação da atleta trans, mesmo sem proibição formal da organização. A documentação foi encaminhada ao Grêmio Feijó para ser apresentada à Prefeitura Municipal.
Dhonata Gomes, presidente da FID
Arquivo pessoal/Dhonata Gomes
– Se o Estado reconhece a atleta como feminina, no documento oficial, não somos capazes, nem Federação, nem Prefeitura ou quem seja, de dizer que não é. Não tem como a gente ir contra o Estado. Com base nisso, a FID fez uma documentação embasada juridicamente – explicou o presidente da FID, Dhonata Gomes.
Dhonata Gomes informou que levou o caso à reunião nacional da FID e que a entidade vai promover campanhas de conscientização sobre sexualidade e contra o preconceito.
– O esporte não é pra ser preconceito. O esporte é pra ser inclusão. Essa é o entendimento da FID.
“Sempre quis jogar”
Chandelly Castro conta que sempre gostou de jogar futsal. Desde pequena, brincava de bola com os meninos. Mais jovem, já no ensino médio, a paixão pelo esporte aflorou ainda mais e passou a jogar também vôlei, mas o futsal tem a preferência dela.
Chandelly Castro (3ª esq. p/ dir.) ao lado de time de futsal
Arquivo pessoal/Chandelly Castro
– No início foi muito difícil a questão da aceitação, porque eu sempre quis jogar um campeonato feminino, só que muitas pessoas, gente do esporte mesmo, daquilo que você joga, sempre disseram pra mim que jamais eu conseguiria por conta que eu era uma mulher trans, que eu me sobressaia em cima das mulheres cis. Foi muito difícil. Eu venho nessa luta já faz a base de uns cinco anos. Eu sempre quis jogar e sempre me proibiram, nunca deixaram – lembra.
Mulher trans desde os 16 anos, Chandelly só ratificou a documentação em 2019. Ela conta que até receber o apoio do Grêmio Feijó, nunca havia tido o apoio dos treinadores das outras equipes onde passou.
No Grêmio Feijó, a atleta disse que teve o apoio necessário e resolveu insistir para tornar a participação no Municipal de Futsal possível. Ela também agradeceu o apoio da Prefeitura de Feijó pelo parecer favorável.
Chandelly Castro se reconhece mulher tras há mais de 10 anos
Arquivo pessoal/Chandelly Castro
– Estou muito feliz, muito feliz mesmo por estar participando, mesmo que seja meu primeiro ano de muitos que virão. Eu espero que eu seja exemplo para outras mulheres trans que queiram praticar esporte (…) quero dar essa oportunidade para mais pessoas como eu, mulheres trans, pessoas trans, não só as mulheres trans, mas os homens trans também, poder jogar no masculino – destaca.
Ao lado da equipe, Chandelly Castro estreia no Municipal de Futsal de Feijó no dia 22 de fevereiro, contra o BR364, às 16h, no Ginásio Coberto de Feijó. geRead More


