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Pressão de Trump e aumento da militarização provocam divisões na Europa

Pressão de Trump e aumento da militarização provocam divisões na Europa

 O discurso mais aguardado na conferência deste ano foi o do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que representou o governo Trump no evento.
Bloomberg/Getty Images via BBC
O centro de Munique, na Alemanha, é mais conhecido por lojas elegantes e carros velozes e chamativos, mas, neste momento, suas ruas estão repletas de cartazes anunciando drones de última geração.
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“A segurança da Europa está em construção”, diz o slogan estampado em um conjunto chamativo de fotografias em preto e branco, espalhadas por uma igreja coberta de andaimes em uma das mais conhecidas vias para pedestres da cidade.
Uma demonstração pública tão explícita de força militar seria inimaginável ali poucos anos atrás, mas o mundo fora da Alemanha está mudando rapidamente e levando o país junto.
A região sul da Baviera se tornou o principal polo de tecnologia de defesa da Alemanha, com foco em inteligência artificial (IA), drones e setor aeroespacial.
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Os moradores daqui, como a maioria dos europeus, dizem se sentir cada vez mais expostos, pressionados entre uma Rússia expansionista e uma China economicamente agressiva a leste, e os Estados Unidos, antigo principal aliado, hoje cada vez mais imprevisível, a oeste.
Segundo uma pesquisa recente do Eurobarometer, mais de dois terços dos europeus (68%) consideram que o país em que vivem está sob ameaça.
Neste outono (no hemisfério Norte), o Escritório Federal de Proteção Civil e Assistência a Desastres da Alemanha alertou, pela primeira vez desde a Guerra Fria, que uma guerra já não é “improvável”. Embora ressalte que o país está seguro, o órgão também recomenda que os alemães mantenham em casa alimentos estocados para três a dez dias. Por precaução.
Anúncios como esses, com a frase ‘A segurança da Europa em construção’, teriam sido impensáveis na Alemanha até pouco tempo atrás.
BBC
A Alemanha é o principal doador individual de ajuda militar e de outros tipos à Ucrânia, agora que os EUA suspenderam qualquer nova ajuda direta. As pesquisas de opinião indicam que os eleitores alemães também querem se sentir mais protegidos dentro do próprio país.
A questão para este país, assim como para outros na Europa, é se as alianças tradicionais com os EUA, na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e na União Europeia, são suficientes ou se seria necessário diversificar parcerias em coalizões ao lado de outras nações de afinidade política, como a Austrália, a Coreia do Sul e o Japão.
Relações precárias
Dinamarca ainda furiosa
Um discurso leal
Uma nova relação frágil
A estratégia equilibrada de Starmer
Não apenas defesa
Relações precárias
Até 2029, o orçamento de defesa da Alemanha será superior à soma dos orçamentos do Reino Unido e da França, afirmou Mark Rutte, secretário-geral da Otan, à BBC News.
Ele descreveu os 150 bilhões de euros (cerca de R$ 930 bilhões) que o país diz que gastará em defesa como “uma quantia impressionante”.
A Alemanha é agora o maior doador individual de ajuda à Ucrânia.
AFP/Getty Images via BBC
É algo que os EUA notam e apreciam, disse Rutte. O presidente dos EUA, Donald Trump, está longe de ser o primeiro presidente americano a insistir que a Europa faça mais por sua própria segurança, embora seu tom tenha sido visivelmente mais ameaçador do que o de seus antecessores.
O estado precário das relações transatlânticas foi o principal tema da Conferência de Segurança de Munique no fim de semana. É o maior encontro anual de defesa do mundo, que reúne líderes, especialistas em segurança e indústrias de defesa.
Embora seja fácil descartar encontros repletos de longos discursos como este como meros fóruns intermináveis, em tempos turbulentos como os atuais eles podem fazer diferença, sobretudo nas conversas reservadas entre líderes globais, longe do alcance das câmeras.
O discurso mais aguardado – e para alguns, com mais apreensão – da conferência deste ano foi o do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que representou o governo Trump.
Líderes europeus e altos diplomatas acompanhavam com evidente tensão. Mas por que uma intervenção de apenas 30 minutos recebeu tanta atenção?
Mark Rutte (na imagem, falando à jornalista Katya Adler) descreveu os 150 bilhões de euros que a Alemanha destinará à defesa como “uma quantia impressionante”.
BBC
Porque as relações entre Europa e EUA nunca estiveram tão desgastadas quanto agora, nos últimos 80 anos desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). E não se trata de um desentendimento passageiro entre aliados que se dissipará com facilidade.
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Dinamarca ainda furiosa
Nos pouco mais de 12 meses desde que Trump voltou à Casa Branca, ele por vezes insultou e desautorizou líderes europeus, impôs grandes tarifas sobre exportações e, o mais chocante de tudo para os seus aliados na Otan, ameaçou a soberania dinamarquesa sobre seu território, a Groenlândia, se recusando por um tempo a descartar o uso da força para tomar a ilha.
Ao discursar na Conferência de Segurança de Munique, no sábado (14/2), a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, ainda claramente indignada, afirmou que os planos de Trump para a Groenlândia permanecem “os mesmos”, apesar das negociações trilaterais em andamento entre representantes da Groenlândia, dos EUA e da Dinamarca.
Trump descartou tomar a Groenlândia por força militar por enquanto e recuou (pelo menos por ora) de impor sanções econômicas a aliados, incluindo Reino Unido, França e Alemanha, que estariam dificultando os planos dos EUA de adquirir a ilha ártica. Ainda assim, a confiança transatlântica foi profundamente abalada.
As potências europeias veem em Trump um presidente verdadeiramente transacional, que não hesita em usar como alavanca as relações de segurança ou econômicas com seus aliados mais próximos para conseguir o que quer.
Pouco antes de ser reeleito, por exemplo, ele afirmou que os EUA não protegeriam países que não arcassem com sua parte nos gastos com defesa.
Mas é verdade que a Europa se beneficiou por décadas do “cobertor de segurança” americano. Críticos nos EUA argumentam que países europeus puderam manter generosos Estados de bem-estar social enquanto Washington assumia a maior parte dos custos com defesa.
Líderes europeus e altos diplomatas acompanharam o discurso do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (esq.), com evidente tensão.
AFP/Getty Images via BBC
O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, disse à BBC News no sábado (14/2): “Nós nos acostumamos ao forte apoio dos EUA; nos acostumamos à nossa zona de conforto na qual costumávamos viver. Esse tempo acabou, definitivamente acabou. Washington estava certa.”
Mas a crise em torno da Groenlândia e outras ações do governo Trump — como quando suspendeu temporariamente o compartilhamento de informações de inteligência com as forças ucranianas no último mês de março, deixando-as às cegas no campo de batalha, a fim de pressionar Kiev a iniciar negociações de paz com Moscou — deixaram cicatrizes profundas e uma sensação preocupante de desconfiança transatlântica.
Daí a apreensão em Munique antes de Rubio subir ao palco.
No fim, suas palavras foram impregnadas de um senso de parentesco histórico. “Queremos que a Europa seja forte”, afirmou. “As duas grandes guerras do século passado servem para nós como um lembrete constante de que, no fim das contas, nosso destino está, e sempre estará, entrelaçado com o de vocês.”
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Um discurso leal
Considero revelador que tantos políticos europeus na plateia tenham se agarrado ao calor das palavras de Marco Rubio, levantando-se para aplaudir o secretário de Estado dos EUA. Era evidente o alívio por ele não ter ameaçado nem repreendido a Europa como o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, notoriamente fez no mesmo evento do ano passado.
Mas, para quem ouviu com atenção, o discurso de Rubio foi fiel a temas centrais para o governo Trump e difíceis de aceitar para muitos líderes europeus: oposição a políticas climáticas, ceticismo em relação à globalização, ao multilateralismo e à migração, além da defesa da construção de uma nova era de civilização cristã ocidental.
Rubio foi claro: os EUA não têm interesse em aliados que se apeguem ao antigo status quo. O país quer abrir um novo caminho, de preferência ao lado da Europa, mas apenas se houver convergência de valores.
A oferta de estreita parceria feita pelos EUA foi, portanto, condicional e desprovida de disposição para concessões.
“Um pouco como um parceiro [psicologicamente] abusivo”, disse com franqueza um diplomata europeu, falando sob condição de anonimato.
“Ele lembrou a Europa de como o relacionamento [transatlântico] costumava ser maravilhoso, mas depois mudou para coerção: se você quer que as coisas sejam boas entre nós no futuro, você tem que fazer como eu digo!”
Outro diplomata observou que, ao falar em valores compartilhados, era revelador, segundo ele, que entre todos os países europeus que Rubio poderia ter visitado após discursar na Alemanha, ele tenha escolhido ir à Eslováquia e à Hungria antes de retornar aos EUA.
Eles são vistos por Bruxelas (Bélgica) como dois dos membros mais problemáticos da União Europeia, ambos com primeiros-ministros nacionalistas eurocéticos que se opõem ao envio de ajuda militar à Ucrânia e que são duros em relação à migração.
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Uma nova relação frágil
O tom mais suave de Rubio também dividiu líderes europeus que haviam falado recentemente como um só, em defesa da Dinamarca, no auge da crise da Groenlândia no mês passado.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou que a relação com os EUA segue frágil, apesar da retórica mais conciliadora de Rubio.
“Algumas linhas foram cruzadas e não podem mais ser descruzadas”, afirmou. “Os europeus passaram por uma terapia de choque.”
Resta saber se parte dos países europeus interpretará o tom cordial do discurso de Rubio como justificativa para não acelerar o aumento dos gastos com defesa prometido anteriormente.
Os cofres da maioria dos governos europeus já estão sobrecarregados e seus eleitores tendem a priorizar preocupações com custo de vida em vez de orçamentos de defesa.
‘Algumas linhas foram cruzadas e não podem mais ser descruzadas’, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Reuters via BBC
Rachel Ellehuus, diretora-geral do think tank (centro de pesquisa e debates) de defesa Royal United Services Institute (RUSI), disse à BBC News ver uma divisão se abrindo no continente.
De um lado, segundo ela, estão os países nórdicos e bálticos, geograficamente próximos da Rússia, além de Alemanha e Holanda, todos com elevados gastos em defesa. De outro, no sul da Europa, está a Espanha, por exemplo, que não demonstra qualquer arrependimento ao recusar-se a aumentar os orçamentos de defesa aos níveis exigidos por Donald Trump.
França e Reino Unido estão ambos verbalmente comprometidos em aumentar os gastos com defesa, diz Ellehuus, mas ainda estão procurando um “curativo político” para ajudá-los a explicar aos eleitores as compensações que isso envolverá — aumento de impostos, redução de benefícios sociais ou maior endividamento.
“Os europeus precisam agir desde ontem e se concentrar”, diz ela. “Eles têm de cinco a dez anos para ficar de pé sozinhos em termos de capacidades convencionais de defesa.”
Na semana passada, o conselheiro do Departamento de Defesa dos EUA, Elbridge Colby, foi direto ao ponto ao participar de uma reunião de ministros da Otan, em Bruxelas: a Europa deixou de ser prioridade para os EUA; o foco agora é o Indo-Pacífico.
“Sob a liderança do presidente Trump, estamos priorizando de novo a defesa de nosso território e a proteção de nossos interesses em nosso hemisfério”, afirmou.
Embora tenha enfatizado que os EUA continuam comprometidos com a cláusula de defesa coletiva da Otan, segundo a qual um ataque contra um membro é considerado um ataque contra todos, Colby insistiu que o país reduzirá sua capacidade militar na Europa, tornando-se uma presença “mais limitada e focada”.
A Europa precisa se tornar parceira, e não dependente, disse ele, ao defender uma nova “Otan 3.0”. A antiga ordem mundial, com o Ocidente no centro, esmaeceu, mas a Conferência de Segurança de Munique neste fim de semana deixou claro que o que virá a seguir para Europa e EUA permanece indefinido.
Marco Rubio pediu um novo século de civilização ocidental; Elbridge Colby defende uma Otan reformulada; já o primeiro-ministro do Reino Unido apelou, em Munique, pela reconstrução da aliança ocidental.
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A estratégia equilibrada de Starmer
Em nítido contraste com a insistência de Marco Rubio em maior soberania nacional, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, falou a favor de maior integração entre o Reino Unido e a Europa em defesa, para reduzir custos de rearmamento, embora tenha enfatizado que isso não significava que o Reino Unido estivesse virando as costas para os EUA.
Sophia Gaston, especialista em segurança nacional do King’s College London (Reino Unido), afirmou à BBC News que, em Munique, Starmer conseguiu articular com mais clareza as nuances da estratégia britânica.
“Outros aliados na Europa podem estar mais dispostos a falar em divergências com Washington”, disse. “Mas, para o Reino Unido, continua sendo um imperativo estratégico triangular dentro da relação transatlântica. Haverá também momentos em que o Reino Unido terá de fazer escolhas difíceis, e Starmer pareceu mais confiante ao encarar essa realidade.”
“A chave é ter uma compreensão muito sólida do interesse nacional e dos nossos instrumentos de poder e influência. Isso exige uma abordagem muito mais competitiva, que nem sempre foi natural para o Reino Unido, que tradicionalmente conduziu grande parte de sua diplomacia de maneira elegante e discreta, focada em consenso.”
Keir Starmer defendeu maior integração entre o Reino Unido e a Europa na área de defesa.
PA Media via BBC
Em tempos rápidos e imprevisíveis como os atuais, líderes europeus recorrem cada vez mais a coalizões sob medida, ao lado de organizações tradicionais como a Otan ou a União Europeia, que, por serem maiores, tendem a reagir com mais lentidão. Esses agrupamentos também incluem países de fora da Europa.
Um exemplo é a chamada Coalition of the Willing (Coalizão dos Dispostos, em tradução livre), liderada por Reino Unido e França e criada para garantir a soberania da Ucrânia em caso de um eventual acordo de paz com a Rússia. A Turquia participou de reuniões da coalizão, assim como Nova Zelândia e Austrália.
O Canadá trabalha cada vez mais em conjunto com países nórdicos e bálticos que compartilham desafios geopolíticos e valores comuns, segundo interlocutores. O objetivo é promover estabilidade e dissuasão desde as margens do mar Báltico, passando pelos Estados nórdicos e bálticos, pelo Atlântico Norte, pela Groenlândia e até o Ártico canadense.
Um formulador de políticas europeu, que pediu à BBC News para não ser identificado, comentou em tom de brincadeira que o Canadá está se tornando “cada vez mais europeu a cada dia”. Japão e Coreia do Sul eram cada vez mais vistos como parte da “família de afinidades”, acrescentou.
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Não apenas defesa
Essas coalizões específicas não se restringem à área de defesa. O presidente da França, Emmanuel Macron, há anos defende que a Europa amplie o que chama de autonomia estratégica, tanto em termos de segurança tradicional quanto em segurança energética, cadeias de suprimentos e novas tecnologias.
Em Munique, ele recomendou que o continente faça redução de riscos em relação a todas as potências externas.
Neste fim de semana, a própria presidente da Comissão Europeia admitiu que, se a União Europeia não avançar com rapidez suficiente na melhoria da competitividade, “um grupo de Estados-membros terá de seguir adiante sozinho”.
As tentativas de grupos menores de países europeus de cooperar para fortalecer a independência estratégica do continente nem sempre são bem-sucedidas.
Um exemplo é o atual impasse entre França e Alemanha em torno do esforço conjunto para desenvolver a próxima geração de caças por meio do programa Future Combat Air System (FCAS, na sigla em inglês).
Pode-se dizer também que, apesar do discurso sobre autonomia europeia, a conferência deste fim de semana foi também um lembrete de quão dependente a Europa permanece do apoio de segurança dos EUA — desde seu guarda-chuva nuclear até o compartilhamento de inteligência e estruturas de comando e controle. Foi também um lembrete de quão atrás a Europa está dos EUA em inovação de alta tecnologia.
Mas, mais do que mecanismos de curto prazo projetados para “sobreviver” a Donald Trump, as mudanças em curso na Europa, incluindo alianças mais estreitas com países de fora do continente, tendem a ter efeitos duradouros.
O mundo agora parece dançar ao ritmo da política de grandes potências. E até a lenta Europa está tendo que se adaptar.
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