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A pobreza de ideias do Flamengo preocupa mais do que os títulos perdidos

A pobreza de ideias do Flamengo preocupa mais do que os títulos perdidos

A atmosfera no Maracanã estava tão tensa que sequer permitia pensar nos simbolismos do jogo. Por exemplo, era a centésima partida de Filipe Luís no comando rubro-negro e poderia ser o segundo título internacional do Flamengo conquistado no mítico estádio (o primeiro foi a Recopa 2022, batendo o Independiente del Valle). Tudo isso precisou ser deixado de lado por uma questão mais urgente: a instabilidade da equipe neste começo de temporada, que precisava ser remediada com um título, de preferência com atuação consistente. Pois nada disso aconteceu na derrota para o Lanús, que expôs a forte turbulência técnica e conceitual vivida pelos rubro-negros.
Filipe Luís já marcou seu nome na história do Flamengo, e não há borracha capaz de apagar. Sobre o técnico, além evidente capacidade, é preciso reconhecer a audácia: não tem medo de insistir na convicção sobre seu entendimento do jogo — e de cada jogo em específico. Para enfrentar o Lanús, mandou a campo Danilo e Evertton Araújo, deixando fora Léo Ortiz e Paquetá, enquanto Aytorn Lucas assumiu a lateral-esquerda. No banco, também estavam Cebolinha, Luiz Araújo, Bruno Henrique e Pedro. Uma pessoa muito convicta, na verdade, é aquela que flerta o tempo inteiro com a teimosia. No futebol, geralmente é o resultado que faz o ponteiro do julgamento pender para um lado ou para o outro.
Filipe Luís e jogadores do Flamengo após derrota para o Lanús
André Durão
Desde o começo, o jogo se desenhou como um insistente samba de uma nota só. A imposição flamenguista encontrava como resposta um Lanús muito bem estruturado defensivamente pelo técnico Mauricio Pellegrini. É preciso dizer que, ao menos em termos de postura, o time rubro-negro esteve muito mais aceso e envolvido do que na semana passada, na derrota em solo argentino, mas carecia de ideias para traduzir sua superioridade em oportunidades claras de gol — um problema recorrente em outros momentos instáveis superados pela equipe de Filipe Luís.
Um escorregão do arqueiro Rossi após recuo imprudente de Aytorn Lucas serviu como presente para o centroavante Castillo (que, vejam só, estava mesmo de aniversário) abrir o placar. No entanto, o empate conquistado logo depois, com Arrascaeta convertendo pênalti, recolocou a situação nos trilhos no momento em que o jogo ameaçava desandar para o desespero — ele viria, mas ainda tardaria um pouco para chegar.
Apesar de um primeiro tempo razoável, parecia que a capacidade criativa do Flamengo definhava conforme o tempo transcorria. A poucos minutos do fim, o segundo gol marcado por Jorginho, novamente de pênalti, forçou a prorrogação, mas o poder de sufocamento rubro-negro já não era tão intenso. E nesta altura Filipe Luís já havia recorrido a uma espécie de SWAT vinda do banco de reservas para tentar resolver o perrengue: estavam em campo Jorginho, Cebolinha, Lucas Paquetá, Bruno Henrique e Pedro. E, ao menos nesta noite, a tentativa de alcançar o resultado a todo custo aconteceu mais pela qualidade e insistência do elenco do que através de conceitos claros aplicados ao campo.
Canale Lanús Flamengo
Wagner Meier/Getty Images
A virada do Lanús, com gols de Canale e Aquino, quando todos em campo já olhavam de canto para a marca da cal, pareceu um castigo pesado demais, mas acabou servindo como emblema para mais uma partida com pouco repertório rubro-negro. Ninguém deve ter a pretensão de ensinar como a torcida deve se posicionar, mas o Flamengo não é um “time sem-vergonha”, como cantou parte do Maracanã no domingo passado. Há dois meses, esse mesmo time batia de frente contra o Paris Saint-Germain na decisão da Copa Intercontinental, correndo muito. Assim como correu muito na derrota de ontem.
É claro que pode haver alguma ressaca física e mesmo anímica depois de uma temporada avassaladora como a do ano passado, mas o problema parece estar relacionado muito mais aos conceitos e à forma de atuar. Mais decepcionante do que a sequência de derrotas inesperadas (na Supercopa e na Recopa), que deixaram títulos pelo caminho, é o desempenho da equipe, sua estrutura e mesmo algumas escolhas do técnico.
Hoje, o Flamengo é um time que passa por severa instabilidade, na primeira vez que o trabalho de Filipe Luís é seriamente questionado, e com razão, desde que assumiu, em outubro de 2024. Você já leu por aqui que sua continuidade é o maior reforço da temporada rubro-negra, e ainda não há motivos para pensar diferente. Não faltam subsídios para uma reação: basta olhar para o elenco e para o que o próprio técnico já mostrou ser capaz de fazer com esses mesmos jogadores. Mas esta reação não pode tardar, pois o calendário da temporada é voraz e logo as grandes disputas vão ganhar peso. Para isso, Filipe Luís vai precisar reinventar o time. Talvez, reinventar também a si mesmo.
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