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Nelsinho Baptista critica etarismo e lembra tensão com ameaça de dirigente traficante: “Mato você”

Nelsinho Baptista critica etarismo e lembra tensão com ameaça de dirigente traficante: “Mato você”

Nelsinho Baptista detalha quando foi técnico de time de traficantes na Colômbia
Nelsinho Baptista estava longe da família, sem receber salário e prestes a cobrar o chefe do time de traficantes que aceitou comandar na década de 1980 em Barranquilla, na Colômbia.
– “Tem dois problemas aqui, dinheiro e a família. Você não resolve. Se não pagar, nós vamos embora.” Porque não liberavam as passagens para nossos parentes viajarem. Ele respondeu: um está resolvido. E jogava o dinheiro em cima da mesa. Quando terminou, empurrei de volta e disse: primeiro a família – conta Nelsinho, repetindo o gesto feito por ele quase 40 anos atrás.
– Ele me olhou assim… “Nelsinho, aqui não é Brasil. Eu mato você, pico e ninguém vai achar”.
Foi assim que viveu por seis meses antes de o chefe e presidente do clube despachá-lo de volta ao Brasil, pagando o que devia, porque precisava fugir. Somente uma entre tantas histórias de um técnico que escolheu viver experiências no futebol. Comandou 27 clubes, no Brasil, Japão e até Arábia Saudita, mas hoje, sem trabalhos desde a Ponte Preta de 2024, se vê cada vez mais longe do futebol.
– Acho que está mais para ex-técnico do que um técnico em atividade, né? – diz Nelsinho, abrindo um sorriso, enquanto se prepara para quase duas horas de conversa sobre a própria vida.
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Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Aos 75 anos, mas com muita força e lucidez, Nelsinho administra uma escola de tênis em São Paulo e alguns imóveis enquanto espera ter oportunidade na única forma como ainda se vê no futebol: um cargo de gestão. Está longe, contudo, de sentir falta, ao menos da rotina conturbada. Nos poucos momentos de saudade, assiste aos vídeos de dois marcos da carreira.
– Um da J League no Japão e o do Sport. Até hoje vejo no YouTube aquele final de jogo. Tem momento em que existe uma saudade da gente, né? Que o coração fala mais alto – confessa.
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A caminho da aposentadoria, Nelsinho conta polêmicas, bastidores do Corinthians, desde o ápice do título até o rebaixamento com um elenco de atletas “que tinham medo de jogar”, compartilha a rotina com um “príncipe maluco” na Arábia e opiniões após quase seis décadas de carreira. Incluindo as declarações de Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira sobre técnicos estrangeiros no futebol.
Eu acho ridículo, ridículo, porque principalmente o Oswaldo e o Leão já foram estrangeiros.
– Fui estrangeiro no Chile, na Colômbia, no Japão, na Arábia Saudita, e não posso criticar o estrangeiro aqui. O que aconteceu é que quando nós perdemos a Copa no Brasil, todos os treinadores foram jogados dentro de um saco. Ninguém serve. Então vamos dar oportunidade aos novos. E eles não estavam preparados para isso.
Nelsinho Baptista analisa invasão de estrangeiros mas condena falas de Leão e Oswaldo
Ficha Técnica
Nome: Nelson Baptista Júnior
Apelido: Nelsinho Baptista
Idade: 75 anos (22/07/1950)
Profissão: ex-jogador de futebol, técnico e empresário
Carreira como jogador: Ponte Preta, São Paulo, Santos e Juventus-SP
Títulos como jogador: Campeonato Paulista (1975) e Série B Brasileiro (1983)
Carreira como técnico: Ponte Preta, São Bento, Mogi Mirim, Inter de Limeira, Athletico-PR, América-SP, Sporting Barranquila-COL, Novorizontino, Corinthians, Palmeiras, Guarani, Al-Hilal, Verdy Kawasaki, Internacional, Cruzeiro, São Paulo, Colo-Colo-CHI, Portuguesa, Goiás, Flamengo, São Caetano, Nagoya Grampus, Santos, Sport, Kashiwa Reysol-JAP e Vissel Kobe-JAP.
Títulos como técnico: Brasileirão (1990 e 1993); Copa do Brasil (2008); Supercopa do Brasil (1991); Campeonato Paulista (1997 e 1998); Pernambucano (2008 e 2009); Mineiro (1997); Goiano (2003); Torneio Rio-São Paulo (1993); Liga Japonesa (1994 e 2011); Copa do Imperador do Japão (1996 e 2012); Supercopa do Japão (1995 e 2012); J League (1994 e 2013); Campeonato Japonês 2ª Divisão (2010 e 2019); Taça Suruga (2014) e Taça União Árabe (1993/94).
Abre Aspas: Nelsinho Baptista
ge.globo: Estamos diante de um ex-técnico de futebol, aposentado agora, ou um técnico em atividade?
Nelsinho Baptista: – Acho que está mais para ex-técnico do que um técnico em atividade, né? Acho que todos nós temos um ciclo. Meu ciclo como treinador, acho que está no fim, mas, como profissional, eu gostaria muito de continuar trabalhando no futebol, fora das quatro linhas.
Acha que é mais uma opção pessoal ou uma imposição do mercado?
– Não, espaço tem. A gente tem recebido consultas, mas que não oferecem uma condição de trabalho dentro da nossa realidade, então tenho evitado e por isso penso em uma nova posição. Tive dois profissionais muito competentes e que me ajudaram muito no final da carreira deles, que era o seu Mário Travaglini e o José Teixeira. Eles, como supervisores, um elo entre a diretoria e o departamento técnico, me ajudaram bastante. Esse é o caminho. Pelo menos eu espero. Gostaria, mas até agora não teve nenhum convite.
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Você nem titubeou para falar da vontade de continuar no futebol. Você não pensa em aproveitar um pouco para viajar, conhecer novas coisas?
– Muita gente já falou isso para mim. Até minha mãe, quando estava viva, um dia falou: “Ô Nelsinho, para de trabalhar, você já trabalhou demais. Se divirta um pouco, viaje.” Mas está no meu sangue. Trabalho desde os 13 anos, ganhava pelo menos um dinheiro. E mesmo fora do futebol, estou investindo em outras áreas, migrando um pouco para o tênis. Sempre gostei de jogar tênis. Não jogo nada, mas gosto de rebater. Estou com 75 anos, se eu parar com tudo, minha vida para. Eu não quero parar. Tenho muita força, muita lucidez para continuar trabalhando.
Quando você diz investindo, é investindo de que forma?
– Abrimos uma quadra para alunos. É uma franquia que tem essa filosofia. Não tem ranking. A prioridade é ensinar a pessoa que quer jogar. Ela vai chegar e jogar. Não precisa nem ter raquete, nem bolinha. As primeiras aulas são todas dentro de uma filosofia de trabalho da franqueadora.
O tênis é seu único investimento fora do futebol ao longo da vida?
– Não. Tenho investimento em imóvel, é o maior investimento que tenho, mas tem pessoas que cuidam. Para mim, para o meu ego, gostei muito do tênis, porque vou viver também a quadra. Não vou pôr a quadra e deixar que outras pessoas tomem conta. Eu vou viver a quadra. É um meio de continuar no esporte, matar um pouquinho a minha saudade.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
E como é sua relação com o futebol hoje?
– É uma questão de gostar. Gostar é pouco, é apaixonado. Eu sou futebolista. Se você estiver na manhã, por exemplo, de domingo, que começa às 11 horas e vai até 20h30, eu fico assistindo. A minha própria família, às vezes, quando chega sábado e domingo, diz: hoje é dia de futebol, não tem televisão. Hoje é só ele. Eu gosto de ver, apesar de não estar mais atuando, mas é importante ver a movimentação, jogadores novos que estão aparecendo, a própria organização do futebol brasileiro, da Europa. A gente tem que estar por dentro, porque quando vai conversar com alguém, a primeira coisa é falar em futebol. Então tem que ter, pelo menos, um argumento para conversar.
O que acha dessa guerra de narrativas do futebol antigo para o moderno?
– Acho que são ciclos diferentes. Na nossa época, era o jogador e o clube. Hoje tem o jogador, o empresário, o pai, misturou muita coisa. Se foi uma evolução, financeiramente talvez até seja, mas falando da arte do futebol, na nossa geração existia mais o talento, a condição técnica. Essa é a diferença que temos hoje. Por exemplo, na Ponte Preta, eu vim da base até chegar no profissional, para depois sair. Hoje você vê jogadores saindo na base. Na nossa época, se criava um amor pelo clube, pela camisa, e hoje a gente não vê isso. Eu vejo um monte de jogador beijando o escudo na hora que faz gol, mas no dia seguinte aparece uma proposta e ele quer ir embora.
Você acha que o dinheiro talvez tire um pouco daquela gana que o cara tinha antigamente de conquistar mais coisas?
– Eu sempre falo, o futebol virou um negócio, porque o dinheiro está em primeiro lugar. O dinheiro está em primeiro lugar do que o clube, o atleta e tudo. Tem muita gente, muitos investidores que estão provando que os dirigentes do futebol, porque hoje os dirigentes são profissionais, antes eram dirigentes porque gostavam do clube, às vezes tiravam o horário de estar em uma empresa para estar no clube. Hoje não, são profissionais. Todo mundo está ganhando. Acho que seria importante se o investimento no futebol tivesse mais organização, que não partisse só de investidores, partisse também, por exemplo, que nem há uma discussão agora, uma Liga só. Acho que seria muito importante para o futebol brasileiro.
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Você falou de jovens saírem cada vez mais cedo daqui do Brasil. Até quando você considera um processo de formação?
– Não se trata de saber o momento de sair ou não. Acho que principalmente os jogadores que vêm da base, que estão sendo formados, eles têm que chegar no profissional e jogar. Têm que criar um elo entre os clubes. Não que ele não vai ser negociado, ele pode ser, mas não da forma que está sendo. Porque hoje você vê poucos times que têm jogadores de base no elenco profissional, porque os bons já saíram.
– Tem clubes hoje que estão vendendo a base para grupos estrangeiros. Então vai acontecer o quê? Como aconteceu na Itália. Nós temos aqui 130, 150 jogadores estrangeiros e os meninos da base… Na Itália, só estrangeiro, estrangeiro, estrangeiro. Esqueceram da base e hoje é um sufoco para uma classificação para a Copa do Mundo. Isso pode acontecer aqui também.
Você acha que isso se aplica também a treinadores?
– Não, eu acho assim… Por exemplo, eu fui estrangeiro. Fui estrangeiro no Chile, na Colômbia, no Japão mais tempo, na Arábia Saudita, e não posso criticar o estrangeiro aqui no Brasil. Acho que o estrangeiro tem que ter qualidade. E tem que ter o mesmo nível de cobrança do treinador brasileiro. Porque a gente vê que muitos treinadores estrangeiros que vieram não têm a mínima qualidade, não são melhores do que os brasileiros e perdem três, quatro jogos e ficam. Já a decisão contra o treinador brasileiro, o contrato é três resultados. Teve três resultados ruins e já está balançando, a torcida está pedindo a cabeça. Isso é que temos que ver.
Último trabalho de Nelsinho Baptista como treinador foi na Ponte Preta em 2024
Marcos Ribolli/Ponte Press
– O que aconteceu é que quando nós perdemos a Copa aqui no Brasil, todos os treinadores foram jogados dentro de um saco. Ninguém serve. Então vamos dar oportunidade aos novos treinadores. E eles não estavam preparados para isso.
– Muitos treinadores jovens se queimaram, porque tiveram oportunidade e não souberam ou não tiveram a paciência do dirigente para dar uma retaguarda para eles mostrarem o trabalho, um novo trabalho. Foi quando veio o treinador estrangeiro. Tem quatro, cinco estrangeiros, mas já passaram muitos aqui que não provaram nada. Não provaram nada e tiveram retaguarda.
E por que tem treinador brasileiro que se incomoda tanto com essa entrada dos estrangeiros?
– O treinador brasileiro tem que se unir para a gente voltar a ganhar oportunidades novamente aqui. Hoje muita gente fala que o treinador brasileiro não estuda. Engano. Os treinadores brasileiros estudam, só que não saem falando o que fazem, o que não fazem. Para o treinador brasileiro é o intercâmbio entre eles. Porque nós nunca tivemos. Na nossa época, na minha geração, nós nunca tivemos.
– Nós nunca fomos unidos. Eu participei muito do sindicato dos treinadores, e quando a gente precisava da presença de um treinador com um certo currículo para reivindicar alguma coisa para o Ministro do Esporte, para uma reunião importante, ninguém aparecia. Ninguém podia. Ah, eu tenho compromisso, eu tenho isso. Esse é um erro que a minha geração teve.
Por que você acha que isso acontece?
– Vaidade. Eu participei de uma geração que quando você perdia três jogos, o treinador que estava desempregado ligava para o clube e fazia: “Olha, se vocês precisarem de alguma coisa, estou às ordens, vou aí trabalhar e tal”. Não tinha unidade. E na realidade, eu posso dizer que nós nunca fomos amigos. Nunca. Não trocávamos ideia, encontrávamos em um programa, congresso, mas de amizade mesmo, sincera, não.
Isso já aconteceu com você? De estar em um clube e ligarem pedindo teu trabalho.
– Já. Várias vezes. Em uma eu estava no Athletico, dentro da secretaria e o telefone tocou, era uma terceira derrota que nós tínhamos no Campeonato Paranaense, em 87. Eu estava ao lado de uma secretária e o telefone tocou. Era uma amiga, e ela mostrou para mim, ouvindo, um treinador de nome, que vou ocultar aqui, mas dizia “se vocês resolverem trocar o Nelsinho, estou às suas ordens”. Realmente era complicado.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Antes, acha que tinha mais paciência, menos pressão nos dirigentes e, consequentemente, você tinha um tempo maior para trabalhar? Ou nunca teve tranquilidade?
– Não, teve. Um ponto forte que tem hoje é a internet, a mídia social. Hoje o cara vai assistir ao seu jogo e ele se acha taticamente esclarecido. Então, no outro dia, ele mostra no quadro os botões onde o treinador errou, o que tinha que ser feito. A cobrança é maior. Antigamente não, existia a cobrança da imprensa, como sempre existiu, mas não tinha a cobrança pessoal, eram cobranças técnicas e que eram instrutivas, que você aproveitava bastante algumas críticas, porque muitas vezes você deixa escapar alguma coisa aqui, ali.
Você acredita que existe um etarismo forte no futebol?
– Acho que no ano passado, o Luxemburgo, o Felipão, foram chamados de ultrapassados. Se você analisar os títulos que esses dois têm, é brincadeira… em outro país ele vai ter um camarote reservado todos os jogos, vai ter um monte de favorecimento pelo que já fez. Acho que isso é uma precipitação de julgamento, não só da imprensa, mas também na mídia social, porque hoje, e isso eu posso falar porque vi, tem muitos profissionais que vão comentar o jogo e que ele só critica depois de ver a mídia social. Ele só vai fazer o comentário final dele depois de ver a mídia social. Então, coitado daquele que a mídia está pegando no pé. Ele vai e segue o rio, entendeu?
O que o senhor achou das falas de Leão e Oswaldo de Oliveira em um congresso? Sobre o incômodo deles em ter um técnico estrangeiro no comando da seleção brasileira.
– Eu acho ridículo, acho ridículo, porque principalmente o Oswaldo e o Leão, eles foram estrangeiros. Eles estiveram fora do país e não pode ser assim tão direto. Você pode não gostar. Agora, não vou publicamente colocar aquilo que eu não gosto. Mesmo porque ele estava falando de um treinador que mundialmente é um cara conhecido, ganhador. Ele se equivocou completamente num momento errado. Errou muito.
– Eu não conversei com eles. Eu me afastei do futebol, sabe? Tenho poucos amigos dentro do futebol. Então, até para também não ficar matutando, futebol, futebol. Eu gosto do futebol, mas sei que fora existe vida. E estou nesse caminho, entendeu? Estou nesse caminho.
E é um ambiente difícil de fazer amigos?
– Bem poucos, bem poucos. Tanto como atleta quanto como treinador.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
E você criou algum vínculo?
– Não, não. Sempre tive amizade com todos. Sempre tratei de igual para igual. Tanto o craque como o jovem. Porque acho que é importante. Acho que sempre me comportei dessa forma. Sou o pai, que você tem que dar atenção para o filho A, para o filho B, para o filho C. Se você chamar atenção só de um e não chamar atenção do outro, você vai perdendo aquela liderança, aquele vestiário, aquela confiança.
E quem é mais conhecido no Japão? Você ou o Zico?
– Sem dúvida, o Zico. O Zico foi o cara que revolucionou o futebol do Japão. Porque a J League, na época que o Zico foi, a Federação Japonesa praticamente era amadora. Não existia um profissionalismo. Foi quando foi fundada a J League. O que a J League fez para fazer um marketing no futebol é o que a Arábia está fazendo hoje. Ela pegou um craque de cada país, de seleção, e colocou num time a custo dela, da própria J League, não do clube. O Zico foi nessa ideia deles. E foi o cara que mais ficou lá, de brasileiro. Aliás, a mão de obra brasileira é a melhor que existiu no Japão. Tanto como treinadores, quanto como atletas também.
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O que te motivou a ir para o Japão?
– Nós tivemos uma proposta, e eu fui para o Verdy. Era um time conhecido, porque já tinha passado como treinadores o Carlos Alberto Silva, o Dino Sani e o Seu Pepe. Então, as informações que a gente tinha, era o time top, o Verdy Kawasaki e o Yokohama Marinos. O Verdy era de brasileiros, e o Yokohama de argentinos. Era uma guerra danada. Em 1993 foi o meu primeiro ano. Ganhamos o bi, que o Verdy já tinha sido campeão uma vez, pela J League, eles me levaram para o segundo ano da J League, e nós fomos campeões. O Verdy foi bicampeão.
– Eu sempre tive na minha cabeça de sair do Brasil, de conhecer outra escola de futebol. Tanto é que estive na Colômbia, no Chile, na Arábia Saudita. São países que mostravam para mim que eu tinha que sair. E o Japão foi o que mais me identifiquei, que é um trabalho sério, eles te dão praticamente a chave do departamento de futebol. O problema é seu, você resolve. Financeiramente, é outro departamento. Tanto que fiquei 17 anos.
Acha que é mais valorizado lá do que aqui?
– Não, eu tenho meu reconhecimento aqui. Sou muito realista comigo, por isso que não fico esperando. Eu analiso, sei que não vai acontecer, então não vou ficar perdendo tempo. Por exemplo, fui investir em outro esporte. Porque estou vendo que tenho que arrumar alguma coisa para mim, para viver. Não é questão financeira. É para ter alguma coisa para fazer. Porque ficar em casa, a gente briga toda hora com a esposa, então tenho que ter alguma saída. Isso aí foi o que… a ideia que eu tive.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Como foi morar no Japão?
– Em termos de ambiente, de trabalho, foi tranquilo, porque já tinham passado vários treinadores brasileiros. A rouparia era brasileira, tinha jogadores brasileiros, e os próprios japoneses aprendem a palavra, não a falar, e tinha um tradutor brasileiro, filho de japonês. Não tive muito problema.
– Culturalmente, foi mais difícil para nós, porque não tinha nada do Brasil lá, nem celular tinha na época. Você tinha que comprar cartão para ir no orelhão, ligar para o Brasil e falar três minutos.
– A gente morava tudo no mesmo bairro, um perto do outro, jogador, treinador, tudo. Passava um caminhão, um furgão, e levava as coisas brasileiras. Você via a Gazeta Esportiva de uma semana atrás, o Faustão, aquelas fitas K7 grandes, o Fantástico, mas tudo de uma semana passada, não era daquele domingo que você estava vendo. Ele passava de 15 em 15 dias, e a gente se revezava, “já vi a fita, me dá outra”. É dificuldade, e a comida era terrível, mas me acostumei bem, era um barato, foi legal. Foi assim nos primeiros dois anos, depois foi tranquilo.
E de hábito diferente que você aprendeu lá, tem algo que gostou e levou adiante?
– Eu gosto muito da disciplina dos jogadores. Porque hoje, aqui no Brasil, tem jogador que chega, o treino é 9h, ele chega cinco para as 9h. Tem que se trocar, às vezes fazer as necessidades, e quando vai para o campo é 9h15, e a maioria do grupo tem que ficar esperando. Lá o japonês chega, o treino é 9h, então 7h, no mais tardar 7h30, eles estão no clube. Vão fazer o ofurô deles, passar na academia, e 9h estão no campo.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Além do Japão, você passou por outros países como treinador e sei que comandou um clube da Colômbia que tem histórias um tanto peculiares…
– Eu podia fazer um filme (risos), porque em Barranquilla existe o Júnior Barranquilla e o Sporting Barranquilla. Só que o Sporting era um time de traficante de cocaína. Tinha um cara lá… e ele veio para o Brasil com seu Juan Figer (ex-empresário de futebol) atrás de um treinador: “Meu pai está doente, vai morrer, e ele quer ver o Sporting novamente em atividade”. Eu estava no América, em São José do Rio Preto, o Figer me chamou, falou que tinha isso e fomos. Mas chegamos lá e era totalmente desorganizado, não tinha nada, nada.
– O presidente, filho do chefe lá, chamava Barrios, parecia o Maguila, sabe? Mas o Maguila quando ele estava forte mesmo. Eu levei alguns jogadores brasileiros, o Edson Borges, atacante do Coritiba, o Romulo, ponta que jogou no São Paulo, Atlético. Não tinha lugar para treinar, não tinha nada. Até que foi passando, em três partidas, ganhamos uma, perdemos uma e empatamos outra. E o dinheiro? Nada.
– Meu preparador físico era o Vadão, e eu falei: “Vadão, vamos cobrar o cara, né?”. Também existia um problema que ele não liberava as passagens para a família viajar. Eu falei: “Olha, tem dois problemas aqui, dinheiro e a família, você não resolve. Se não pagar, nós vamos embora”. Ele falou: um está resolvido, e jogava o dinheiro assim em cima da mesa. Quando terminou, eu empurrei o dinheiro e falei: primeiro a família. Ele olhou assim… “Nelsinho, aqui não é Brasil. Eu mato você, eu pico você e ninguém vai achar”. Aí o Vadão: não, calma, calma, calma.
– Bom, sei que era aniversário dele, ficou tudo bem, nós fomos jantar e toda vez ele ia muito no banheiro, sabe? Eu falei: pô Vadão, esse cara, não é possível, acho que tem algum problema. Nesse dia, ele já tinha bebido bastante, foi para o banheiro uma vez, a segunda vez ele voltou, tinha um bigode… totalmente com cocaína. Eu falei: Vadão, ele estava cheirando. Esse cara é brincadeira. As dificuldades que nós passamos lá, pelo amor de Deus. Os colombianos às vezes conversavam: o que vocês estão fazendo aqui com esse cara? Vai embora daqui.
– Eu vim embora porque ele teve que fugir. Mataram um secretário de segurança, mas aí ele foi honesto, chamou a gente e falou: está aqui o dinheiro de vocês, vão embora, porque eu vou, se ficar aqui, vou ser preso. Aí viemos embora.
Falamos de Japão, Colômbia, mas como é que foi ir para a Arábia Saudita em meados da década de 90, num país monarquista, com uma cultura totalmente diferente, uma religião diferente?
– Foi mais difícil porque os costumes são completamente diferentes, né? Era um país que, por exemplo, você estava treinando, chegava na hora da reza, eles abandonavam o treino e iam rezar. Você tinha que esperar. A gente ia numa cidade chamada Maeda, que é perto de Jeddah, descia de avião no aeroporto de Jeddah e tinha um percurso de 80 quilômetros para ir pra Maeda. Só que só muçulmano podia passar. A comissão tinha que pegar um táxi, andar o dobro pra chegar na cidade.
– Nesse clube, eles atrasavam três meses o dinheiro, chegavam no segundo ou terceiro mês, pagavam tudo. E tinha um príncipe que tomava conta. E o príncipe é um maluco, né? Um cara que vivia mais bêbado do que… A gente não podia beber, mas eles bebiam. Assistiam a treino com uma garrafinha de água, só que a água era vodka.
– O pagamento do jogador estava atrasado, por exemplo. E os caras… Ah, não tem treino hoje. Não tem treino? Ninguém vai sair daqui. Fulano, chama o príncipe. Tinha que esperar. Isso o treino era de manhã, ele apareceu cinco horas da tarde. Todo mundo esperando. E ele veio, cara… Ele dava na cara dos jogadores. Pá! Batia em um, batia no outro. E os caras tudo abaixando a cabeça.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Falando em futebol brasileiro, dá para escolher um trabalho pelo qual você tenha um carinho maior?
– É difícil escolher um, porque todos têm um certo valor. Por exemplo, a final caipira foi uma coisa que casou, uma cidade que tinha 20 mil habitantes, e tudo deu certo. A contratação dos jogadores, o dirigente, nós da comissão. É como plantar uma muda e ir molhando, daqui a pouco vê a muda crescendo. Isso foi no Novorizontino.
– No Corinthians, para mim, era um salto que eu não esperava, sinceramente. Até quando recebi o telefonema não acreditei. Falei: está brincando comigo, cara? Perdemos um título ontem e você me liga hoje para querer tirar um sarro, né? Aí ele falou: não, é verdade. Você tem que estar aqui em São Paulo até 17h da tarde. Eu falei tudo bem. O Novorizontino não tinha mais calendário, então eu estava livre.
– Cheguei em São Paulo, me levaram para a casa do Sr. Vicente Matheus, ele estava meio gripado, tinham perdido para o Cruzeiro, estavam dentro da zona de rebaixamento, e ele me confundiu com o Marcelo Djian: Marcelo, o que você está fazendo aqui? Aí o Nenê do Posto falou: Sr. Vicente, esse é o Nelsinho, do Novorizontino, vai ser treinador do Corinthians. Ele falou: não, ele é muito novo para treinar o Corinthians. Para mim foi o melhor presidente, o cara que apostou em mim, confiou, me deu uma condição muito boa.
– O São Paulo também foi muito bom, em 98, foi excelente. O trabalho no Athletico.
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– Agora, o Sport realmente foi um que… foi emocionante, porque a cidade se comoveu, a torcida, e nós começamos do zero. Às vezes até eu brinco com o Eduardo (Baptista, filho de Nelsinho, atual técnico e e ex-auxiliar dele), falo: você sabe a escalação que nós começamos? Nossa, tinha um jogador, um garoto chamado, nome de Barroca, uma coisa assim, eu falei: esse jogador que nós vamos ter que colocar na frente, não tem outro? Não, é para iniciar o jogo, é um Campeonato Pernambucano.
– Houve as contratações, e ninguém acreditava na gente, ninguém acreditava, todo mundo achava que a gente não ia chegar à final. Mas foi o trabalho, a diretoria, a própria torcida, deu uma força danada para a gente. Foi uma emoção terrível, até hoje eu vejo, no YouTube, aquele final de jogo. Vejo ali a movimentação nossa, minha, do próprio Eduardo, até emociona, mas todos os títulos são importantes.
Em que momentos você para e vai assistir?
– Tem momento que existe uma saudade da gente, né? Que o coração fala mais alto. E esses são momentos que eu vejo por que estão sempre no YouTube. Tem um momento do Japão e um momento do Sport. O final do jogo. Você bate o olho, fala: ah, vou ver. E clica, né? É coisa que mexe com a gente.
– Porque eu tinha saído do Corinthians de um rebaixamento, e nós somos campeões, nada contra o Corinthians, mas das pessoas que estavam dirigindo o Corinthians na época. Aquele título tem esse grande peso também. 3×1, e o Carlinhos Bala vai falar que Deus falou com ele. Nós chegamos lá, a imprensa explorou muito isso, e um dia eu falei para o Carlinhos: para de falar isso, porque os caras vão usar na reunião deles, vão usar isso contra nós. Ele falou: “Nelsinho, mas Deus falou comigo, foi o gol do título”. Então tudo bem.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Que história você vivenciou nos bastidores que nunca compartilhou e que te marcou?
– O Sport foi uma casa que tenho uma gratidão e posso dizer um amor, sabe? Pelo que foi feito, pelas pessoas que estavam, que ajudaram e mereciam. A gente tinha alguns problemas de salário atrasado, não era de meses, era às vezes de 10 ou 20 dias, mas a premiação, não sei de onde vinha, era em dinheiro vivo.
– A gente bolava tudo, tinha uma porcentagem para quem jogava, e dava para todos os funcionários. Todos. Quando saía o bicho, os funcionários faziam uma fila, ficavam esperando fora do vestiário. E tinha uma coisa, você pedia um negócio, era para ontem. Chegava ontem. Você pedia hoje, já tinha chegado ontem, sabe? Essa é a boa vontade, esse é o espírito que foi criado dentro do Sport. Esse é o espírito.
Você se questionou em algum momento da carreira?
– Não, eu nunca me derrotei. Sempre acreditei em mim, sempre fiz as coisas confiando que eu poderia fazer, mas às vezes o trabalho do treinador não depende só dele. Para ganhar título, você não ganha sozinho, se não tiver uma organização, boa vontade de todos no clube, você não ganha nada, não adianta. Agora, perder também não perde, você pode errar em algum momento, todo mundo erra, mas eu nunca me senti derrotado, sempre tive força para seguir.
O que te deixou chateado na passagem pelo Corinthians em 2007 (ano do rebaixamento do clube)?
– Acho que comentei isso, deu muito o que falar, não gostaria de entrar nesse ponto, mas posso afirmar que não é só no departamento de futebol que tem que trabalhar, todos têm que trabalhar. Os bastidores, principalmente, e isso nós não tivemos.
– E no elenco, tinha alguns jogadores que tinham medo de jogar, tinham receio de treinar. Teve uma época que toda antevéspera ou véspera do jogo, a Gaviões ia fazer um barulho e tinha jogador que pedia para não entrar pro campo para treinar. “Deixa eu fazer a musculação aqui, professor”.
– No segundo dia que eu estava no Corinthians, a Gaviões foi no Parque São Jorge, tinha umas oito pessoas com o presidente da Gaviões. Atendi eles na minha sala, e falaram: nós respeitamos muito seu passado aqui, sei que veio para colaborar, mas temos oito jogadores que não vamos apoiar se o senhor escalar. Falei: “vocês estão brincando. Pô, oito jogadores eu não posso escalar? Gente, não é assim. Estamos em um momento que todos têm que receber apoio, principalmente de vocês”. Ainda falei pro Eduardo (Baptista): vai ser difícil, porque a gente via um grupo abatido, que não estava nem aí também, se caía, se não caía.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Aquele 7 x 1 do Corinthians no Santos, quando você treinava o Santos, por que falam tanto que aquele jogo foi para tentar derrubar o técnico? Realmente aconteceu isso?
– Não, eu não acredito. Joguei futebol durante 23 anos. Tive treinadores que não gostava, mas nunca me passou pela cabeça o: vou prejudicar, não vou correr. Não estou prejudicando ele, estou me prejudicando. O que aconteceu foi que jogamos com um goleiro que era dos juniores, com um zagueiro que era dos juniores, com um volante que vinha emprestado do interior do Paraná. Não tinha nem como comparar. O jogo aconteceu e, paciência, não acredito que houve corpo mole de ninguém.
O atraso no salário dos jogadores atrapalha muito? Como você lida com isso?
– O atraso salarial atrapalha muito. Independentemente do que você ganha, se é muito, pouco, é a quantia que você está esperando todo mês. Isso tira a tranquilidade dos jogadores. Eu já tive, por exemplo, no meu início de carreira, como treinador, fui para o São Bento de Sorocaba, atrasava pagamento e eu tinha que conversar com os jogadores. Até que um dia um jogador chegou para mim e falou: professor, o senhor fala disso, daquilo. E o pagamento? Quando vai sair?
– Agora, tem jogadores que confundem a falta de dinheiro com o empenho dentro do campo e tem jogadores que sabem assimilar. A gente sempre incentiva e, lógico, tem que ser uma pessoa que cobra a diretoria. A questão é a confiança de falar: vou procurar resolver, ir na diretoria e a diretoria resolver. Quando você fala para eles: estamos conversando, vai lá e não resolve, a coisa fica difícil.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
E você viveu atrasos no Sport de 2018, quando pediu demissão dizendo não trabalhar com pessoas que enganam todo mundo. O que aconteceu que nunca contou?
– Na minha primeira saída, eu tive uma questão talvez até de vaidade de um diretor. Porque quando nós ganhamos o título da Copa do Brasil, ele (Guilherme Beltrão) foi um cara que ajudou muito, mas era muito vaidoso e talvez esperasse um reconhecimento maior dele do que, por exemplo, o meu, ou do presidente, ou dos jogadores.
– Então, quando voltei, começou umas coisas que falei: vou sair, vou embora. Logo que voltei, em 2018, ele não estava. Só que quando as coisas estavam andando, ele voltou e uns amigos falaram: toma cuidado, porque ele voltou para tirar você.
– O Brasileiro começou, nosso primeiro jogo era contra o América em Minas Gerais, perdemos de 3 a 0, o pagamento estava atrasado e conversamos com eles para o pagamento sair. No outro dia de manhã, dia da viagem, chegou todo mundo satisfeito. “O pagamento saiu”. Todo mundo sorrindo no café da manhã. Só que fui ver minha conta no celular e o meu não tinha entrado. Não tinha pagado. Fomos viajar e eu já tinha falado para o diretor: quero conversar com você. Pagou todo mundo, só eu que não pagaram? Por quê? E ele disse: “você não precisa, estava no Japão”. Falei: “olha, independente do que eu tenho ou não tenho, quero meu salário”.
– Perdemos em Belo Horizonte, e jogava contra o Botafogo na Ilha do Retiro, e outro diretor (Leonardo Lopes), que tinha chegado naquele ano, foi na rádio e falou: se Nelsinho não ganhar, vamos pensar o que vamos fazer. E eu não sabia. Vi que o vestiário estava meio estranho, todo mundo olhando para mim, como quem diz “vamos ajudar”, que eu tinha um bom ambiente no clube. Nós dominamos o Botafogo, fizemos 1 a 0, podia ganhar de 3 a 0, e no último minuto o Botafogo empata.
– Entrei no vestiário todo mundo estava meio preocupado. O Daniel Paulista, que era meu auxiliar, me deu uma carona para casa e disse: eu não ia te falar, mas preciso. Aconteceu isso, isso e isso. No outro dia, convoquei a entrevista. Está louco, não dá. Falei: não estou aqui pelo que fiz, estou aqui para fazer. Era o segundo jogo e já tinham me dito que esse outro diretor tinha vindo para dificultar para mim.
Nelsinho Baptista na passagem pelo Sport em 2018
Anderson Freire/Sport Club do Recife
Como que você enxerga a situação atual do Sport?
– Alguma coisa aconteceu, porque é incrível um time como o Sport ganhar só uma ou duas partidas no Brasileiro. Alguma coisa estava fora da linha. O Sport dentro da Ilha é muito forte. É uma diretoria mais jovem agora, porque aqueles mais experientes não estão no clube. Só que eles estão fora, mas querem mandar e isso atrapalha. Por exemplo, quem me disse que o diretor, não gosto nem de falar o nome dele, iria voltar, quem me mandou a mensagem, foi um ex-presidente. Falou: toma cuidado que ele voltou para te derrubar. Quem está dentro sofre problemas e quem está fora quer manipular. Não quer voltar, mas quer manipular. Atrapalha muito.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Como foi a sensação de enfrentar o seu filho como técnico (nos duelos Novorizontino x Ponte Preta, pela Série B de 2024)?
– A força de vontade dele foi impressionante. Quando eu estava trabalhando, ele estava tentando jogar futebol, mas chegou uma hora que eu falei: Eduardo, para, vai estudar. Ele tinha um sonho e dizia: “pai, então compra um posto de gasolina que eu tomo conta”. Fui lá e comprei, para ele e a irmã, minha filha Andréia, e ele foi estudar educação física.
– Quando se formou, queria que eu o trouxesse comigo e eu dizia: “não posso, agora não”. Hoje é normal, mas antigamente pai e filho era uma crítica danada. Falei para ele: você vai ter que bater cabeça, e ele bateu. Paulista de Jundiaí, Araçatuba, base da Portuguesa, e os amigos me ligavam, né: “Nelsinho, você não vai levar seu filho? Leva ele, ele tem condições”. Quando eu estava no Goiás, levei ele para trabalhar na base, porque não era organizada a parte física, e quando eu estava lá, surgiu o Flamengo. O Portela estava comigo como preparador físico, e falei para ele: você vai me desculpar, mas fica aqui no Goiás, o Eduardo vai ter a chance dele.
– Ele foi crescendo, me ajudava muito tecnicamente, até que, no Japão, depois do terremoto de 2011, minha nora e meus netos ficaram com medo, vieram embora e ele também. A gente vinha conversando para ele ser treinador, e foi quando ele me ligou, pegou o Sport. É um cara que demonstrou que tinha objetivo.
– E esse encontro nosso, ele sumiu durante a semana. A gente se fala três vezes por semana, até hoje, ele me liga, eu ligo, e essa semana eu vi que ele não ligou, então também fiquei na minha.
– Foi um momento inesquecível, porque, quando você está ganhando, como profissional está feliz, mas você lembra o lado dele: está perdendo, mas ali eu analisei que nós precisávamos mais da vitória do que ele, então depois do jogo nós conversamos. Na coletiva ele falou: “estava 2 x 0, saiu o pênalti, olhei pro meu pai e eu falei, puta, o que será que ele vai fazer? Como que ele está se sentindo?” É um sentimento diferente.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Em algum momento, durante o jogo, você olhou para ele?
– Sempre. E o pior é que muitas vezes eu olhava e ele estava olhando. Aconteceu vários momentos de a gente cruzar o olhar. Em Campinas, ele foi no vestiário depois, nos cumprimentar, e estava feliz também, disse: fica tranquilo, nós vamos ganhar outra. E em Novo Horizonte nós conversamos, eu falei: agora pensa em vocês, não em nós. Ficou uma para cada lado.
E o posto de gasolina?
– Nós vendemos, porque não tinha mais ninguém para cuidar (risos).
Nelsinho, e como foi para você enquanto pai ver aquele episódio famoso do Eduardo do “fala a fonte” no Palmeiras?
– Recebi muitas críticas de amigos, até de família: pô, você não deu uma palavra. Mas o que eu tinha que falar, falei para ele lá atrás, então ele está preparado. Se errou, se não errou, ele que tem que assumir.
– Eu sofri bastante, porque me segurei. Ele tem o mesmo gênio que eu, sabe? Também já fiz isso, mas falei: espero que não aconteça mais, porque senão fica ruim para você. Mas hoje ele está mais maduro. E eu conversei com ele todos os dias daquilo, falei: calma, não adianta jogar mais palha na fogueira, você já falou o que tinha que falar.
– Mas eu sofri muito. Tinha vontade de pegar o avião e vir pra cá, sabe? Para ficar perto dele. Mas conversamos bastante, ele também é um cara inteligente, que sabe se postar, é uma experiência que ele não vai esquecer jamais.
Encontro entre Eduardo Baptista com o pai Nelsinho
Marcos Ribolli
Os treinadores mudaram de postura ao longo do tempo?
– Hoje acho que é mais um gestor do que um treinador de outra geração. Eu, como atleta, ouvi cada coisa de treinador. Os treinadores eram enérgicos, falavam, xingavam. Não era: por favor, dá para você sair, era tudo na porrada, no grito. Eu sofri muito, no sentido do São Paulo, por exemplo, José Poy, mas ele foi o treinador que me fez ganhar mais dinheiro, porque eu lutava tanto contra ele, que vencia a disputa com o Forlan na titularidade do São Paulo. “Esse cara quer me atrapalhar? Vou atrapalhar ele também”. Se você fizer isso hoje, o jogador vai falar com o empresário, o empresário vai falar com o diretor ou com o presidente. Não pode mais. É uma evolução? Talvez seja. O jeito antigo está errado? Não, porque formou craques, agora estamos em outra realidade.
– Lógico, taticamente, é importante, tem que saber treinar, hoje fala-se muito em poupar jogadores. Poupar? A gente jogava, na época que o Brasileiro tinha 72 clubes, quarta e sábado, viajava para o Norte, daqui a pouco estava no Sul, e não tinha nada de poupar. A comodidade, a ajuda para os atletas, melhorou muito. Você imagine, por exemplo, os craques de antigamente se têm a preparação de hoje, comida, viagem.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
Nelsinho, o que dá para você projetar da sua carreira?
– Como treinador, sinceramente, eu não vejo, sabe? Já estou com 75 anos, então não vejo mais assim. Se aparecer, eu gostaria de ter essa oportunidade para ajudar, pela experiência que tenho, de fora e daqui do Brasil, de passar para essa turma nova uma experiência que a gente viveu, para grupo de jogadores, treinadores ou o próprio dirigente, porque às vezes tem executivos com 25 anos, 24 anos. Acho que, não só eu como outros treinadores com experiência, poderiam ajudar o futebol brasileiro. Não ser deixado de lado. Eu tive duas pessoas sensacionais, como pessoa e como profissional, que era o seu Mário Travaglini e o professor José Teixeira, que trabalharam no São Paulo comigo e no Corinthians.
E você sente que ficou alguma história aberta que gostaria de encerrar?
– Não, eu acho que está tudo encerrado. Eu fui para o Japão por dez dias, o vice-presidente me convidou, e ele falou: a história que fizemos aqui, ninguém vai mais fazer, brincou comigo, você não quer voltar? Eu falei: nem nós vamos conseguir fazer mais o que nós fizemos. Então, deixa como está (risos). Não mexe, deixa quieto. Essa história eles não vão tirar da gente nunca.
E se não tivesse sido jogador, que profissão você teria?
– Eu ia tentar ser jogador, cara (risos). Porque está no meu sangue. Isso eu tenho desde garoto, sabe? Inclusive tenho um neto que tem um pedigree. O Luca. E, às vezes, minha filha e meu genro falam: pô, precisa de uma… Digo, calma, ele tem 11 anos, não adianta a pressa, ele vai chegar aonde ele quer. Eu também era assim, fuçado, procurei, procurei e consegui.
Nelsinho Baptista em entrevista ao Abre Aspas
Marcos Ribolli
E você disse que começou a trabalhar com 13 anos, já era com futebol?
– Não, eu era office boy dentro de uma empresa. Levava para cá, para lá, em uma empresa da Volkswagen. Eu perdi o emprego porque eu faltava para ir treinar na Ponte Preta (risos), aí meu pai falou: e aí? E eu disse: agora vou jogar bola.
Olhando para trás, tem alguma que gostaria de ter vivido e não conseguiu ou não pôde?
– Não. Eu poderia dizer que todas as experiências que vivi fora foram muito boas. É importante ter confiança em você. Respeitando seu lugar, o lugar dos outros, mas batalhando por aquilo que você tem que atingir. E eu me sinto satisfeito comigo mesmo porque não posso dizer: pô, eu podia ter feito isso. Eu fiz. Deu certo? Não deu? Mas eu fiz. Não gosto de ficar me lamentando. Não me arrependo de nada. Vivi com um príncipe maluco, um traficante…
E o que era pior, o príncipe ou o traficante?
– O príncipe, cara, porque o príncipe era doido. O traficante você já sabia, conhecia ele, mas o príncipe era maluco. geRead More