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Ataque militar ao Irã divide base eleitoral do governo de Donald Trump

Ataque militar ao Irã divide base eleitoral do governo de Donald Trump

 Renata Lo Prete entrevista Oliver Stuenkel sobre o governo de Donald Trump na guerra do Irã
As declarações desencontradas de autoridades do governo americano — somadas ao vaivém do próprio Donald Trump ao explicar os objetivos da guerra — aumentam a tensão em torno do conflito com o Irã para além do tabuleiro do Oriente Médio.
A ofensiva expõe não apenas incertezas sobre os próximos passos militares de Washington, mas também uma crescente preocupação política dentro dos EUA, onde os custos domésticos da escalada podem pressionar a Casa Branca e aliados do presidente.
Para o professor de relações internacionais da FGV e pesquisador em Harvard, Oliver Stuenkel, há hoje uma divisão clara dentro do movimento trumpista. Em entrevista ao “Jornal da Globo”, Stuenkel destaca que existe uma ala mais nacionalista e isolacionista do movimento MAGA (Make America Great Again), que inclui o vice-presidente, JD Vance.
“A retórica de Trump durante a campanha sempre partiu da proposta de terminar o que é conhecido como ‘guerras intermináveis’ no Oriente Médio e em outros lugares do mundo, como Afeganistão, Líbia e Iraque”, afirma.
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Jornal Nacional/ Reprodução
De acordo com o pesquisador, parte importante da base trumpista votou no presidente justamente por esperar uma postura “mais contida e menos intervencionista”, sobretudo no Oriente Médio.
Ao mesmo tempo, existe de uma ala republicana mais tradicional e conservadora, representada por nomes da mídia e de senadores como Lindsey Graham e Ted Cruz, que defendem uma presença americana mais ofensiva na região.
“O jornal ‘The Wall Street Journal’, por exemplo, que tende a estar à direita no espectro ideológico, disse hoje que é fundamental que o presidente Donald Trump não se retire rapidamente do Irã e que mantenha uma presença forte na região”, observa.
Na avaliação de Stuenkel, o momento é particularmente delicado para o vice-presidente JD Vance, cuja trajetória política foi marcada por críticas às intervenções militares americanas.
“Para o vice-presidente é muito difícil, porque a sua oposição às guerras no passado tem sido parte essencial das críticas contra governos anteriores, sobretudo à postura de Biden e à incapacidade de resolver conflitos no Oriente Médio”.
O professor afirma que a decisão de Trump de atacar o Irã cria uma contradição direta para Vance. “Isso explica por que inicialmente ele teve uma postura bastante passiva durante os primeiros dias do conflito”.
“Certamente é um desafio, sobretudo porque ele pretende ser o sucessor do movimento MAGA no próximo ciclo eleitoral nos EUA”, analisa.
Israel First
Em menos de 24 horas, Trump e o secretário de Estado apresentaram versões distintas sobre a decisão de atacar o Irã. Na noite de segunda (02), Marco Rubio afirmou que Washington já esperava uma ação israelense e que isso poderia desencadear ataques contra forças americanas. Segundo ele, agir preventivamente era necessário para evitar mais baixas.
Na tarde de terça (3), o presidente apresentou outra versão. Disse que os EUA já acreditavam que o Irã atacaria primeiro e afirmou que, se algo ocorreu, foi porque ele próprio pode ter “forçado a ação de Israel”, embora ambos estivessem prontos.
Horas depois, Rubio voltou a público para alinhar a mensagem com Trump. O secretário afirmou que o presidente concluiu que as negociações não funcionariam e que a ameaça iraniana era “insustentável”, levando à decisão direta de atacar.
Para o pesquisador, as mensagens contraditórias dentro do governo revelam falta de coesão estratégica. E opositores questionam se o ataque atende aos interesses nacionais americanos.
“Estamos vendo um cabo de guerra dentro da própria coalizão trumpista, o que explica também o que parece ser uma falta de preparo na hora de justificar o conflito”, afirma. “Isso ocorre num momento muito difícil para o governo Trump, que tem baixas taxas de aprovação e enfrenta uma eleição parlamentar complicada em novembro.”
Impacto nas midterms
Oliver Stuenkel destaca que apoiadores do presidente já expressam frustração com a falta de clareza sobre os objetivos do conflito.
“As perguntas são: por que agora? É um conflito de longa duração? Haverá envio de tropas terrestres? Haverá negociação? É para derrubar o regime?”, enumera. “Isso facilita o trabalho da oposição, que busca mostrar que Trump não pensou direito sobre os próximos passos depois da decapitação do regime iraniano.”
O impacto imediato eleitoral, no entanto, ainda é incerto.
“Me parece que o custo político ainda não é tão grande assim, porque dependerá da duração e do custo econômico e humano para os EUA”, avalia.
O professor ressalta que um aumento no número de vítimas americanas poderia mudar o cenário, devido ao cansaço da sociedade com conflitos prolongados.
“Há uma preocupação de que a crise geopolítica eleve o custo do petróleo e leve a uma disrupção econômica. Se a guerra acabar elevando a inflação ainda mais, isso pode representar um grande problema para Trump antes das eleições parlamentares de novembro.”g1 > Mundo Read More