Conheça a ex-jogadora da Seleção que virou auxiliar em time masculino e ocupa espaço raro no futebol
Jogadora e auxiliar técnica! Cearense Jana Queiroz ajuda a comandar Atlético-CE
À beira do campo, orientando jogadores, analisando o jogo e participando das decisões da comissão técnica, Jana Queiroz ocupa um espaço que ainda é raro de ser ocupado por mulheres no futebol brasileiro. Auxiliar técnica da equipe masculina profissional do Atlético Cearense, ela é símbolo de resistência e ensina a nunca desistir.
Não há mulheres em comissões técnicas masculinas nas Séries A e B do Brasileiro, por exemplo. O Atlético-CE, de Jana, vai disputar a Série D.
A história de Jana no futebol começou ainda quando criança. Via o pai dentro das quatro linhas — ele chegou a defender as cores do Ceará, mas naquela época o futebol ainda não era profissionalizado —, os irmãos batendo uma bolinha, e ousou se aventurar.
— Meu pai (que hoje não está mais entre nós) foi um dos meus maiores incentivadores. Ele me levava para os campos para assistir aos jogos de subúrbio. Foi aí que começou essa paixão pelo futebol. É algo que já vem do sangue. Não tem como explicar. Futebol é arte, futebol contagia. Desde que eu nasci, talvez eu chutava a barriga da minha mãe (risos) — conta.
Jana mostra medalhas já conquistadas ao longo de sua carreira como jogadora
Giovanna Borges/SVM
Lições e aprendizados
O começo da carreira como jogadora também passou pelos campos dos bairros em que morou, “rachas” com meninos e a invisibilidade de quem está inserida na categoria. Sair de casa cedo e desbravar o mundo carrega consigo lições e aprendizados.
— Eu não tive uma infância muito fácil. É até clichê falar de jogar com os meninos, de sair de uma favela, de não ter condições. Mas essa foi a minha infância. Eu não tinha condições de ir para uma escolinha. Surgiu daí uma conversa com minha avó e, nessa conversa, eu citei: “Vó, um dia eu quero ser jogadora de futebol, quero ir para a Seleção Brasileira e eu tenho certeza de que um dia eu vou conseguir sustentar a minha família”. E ela me respondeu dizendo que eu seria jogadora e iria para a Seleção — contou.
Jana Queiroz narra chegada à seleção brasileira
Giovanna Borges/SVM
E o sonho, enfim, saiu do papel. Com um roteiro inesperado, Jana, em sua história, deixou claro que vale, sim, saber aproveitar as oportunidades. Mesmo que seja algo inédito. Ouse experimentar e viver.
— Eu segui no futsal aqui em Fortaleza. Diante disso, surgiram outras oportunidades para jogar em alguns times daqui e aconteceu de ter uma peneira para ir para o Santos. Eu não jogava no campo e tinha pessoas que me ajudavam a ir, porque eu não tinha condições financeiras. Fui e cheguei lá no Santos em uma peneira com 450 meninas e consegui passar, e uma semana depois eu fui para a Seleção Brasileira. Tipo assim, foi algo surreal — conta.
Quando eu fui para essa peneira, eu saí daqui de Fortaleza com três malas de roupa. E eu falei para minha avó que eu ia e não voltava mais. E a minha avó confiou. Assim eu pude ter a oportunidade de ter uma condição melhor, receber um bom salário para pelo menos colocar um prato de comida em casa.
Parede da casa de Jana decoradas com algumas camisas de clubes que atuou
Giovanna Borges/SVM
Jana Queiroz tem passagem por clubes como Santos, Corinthians, Osasco Audax, Braga (Portugal), Palmeiras, Grêmio, Famalicão (Portugal), Botafogo, Minas Brasília e Zorkiy Krasnogorsk, da Rússia. Atualmente, no auge de seus 37 anos, vive um momento de transição de carreira. Deixa o campo de jogo e assume a função de auxiliar técnica no Atlético Cearense.
— Como atleta, ainda é difícil ter que largar 100%. É um processo. Estou fazendo terapia. Porque a vida inteira eu só fiz isso, estive dentro do campo. Quando eu iniciei no Atlético Cearense, era um momento muito difícil que eu estava passando na minha carreira, onde eu vinha de um clube grande, que era o Santos, disputava Libertadores, estava sendo titular e eu tive um processo complicado. Passei por um processo de depressão e foi onde eu abri um leque para outras oportunidades — explicou.
Jana tem tido sucesso em sua nova empreitada e isso reflete muito do que foi como zagueira dentro de campo. Muito do que aprendeu dentro das quatro linhas agora é ensinado fora delas. Mesmo com tantas conquistas e feitos históricos, por ser mulher, a ex-jogadora reafirma a necessidade de estar preparada para todas as dificuldades e ressalta a resiliência.
Jana Queiroz, auxiliar técnica da equipe profissional masculina do Atlético Cearense
Giovanna Borges/SVM
— Jamais vou desistir diante das dificuldades que virão. Porém, é difícil a gente ter espaço e eu sei o que eu vou encontrar pelo caminho, mas estou aqui disposta a tudo, independente do que vier. Estou trabalhando para isso. Não só profissionalmente, mas mentalmente, porque eu sei o que eu vou enfrentar pela frente e é algo que eu quero. Eu sou assim muito ambiciosa. Tem espaço para todo mundo. Não sei o meu futuro, não sei se eu vou continuar no masculino ou no feminino, mas a intenção é galgar coisas muito maiores — disse.
No meio da entrevista, Jana decidiu que precisava destacar uma fala da Formiga, ex-jogadora símbolo de resistência e excelência no futebol, sobre a geração de jogadoras que surge nos últimos anos. Ela ressalta que é importante conhecer a história das mulheres e entender que a luta é de todas elas. Jana aprendeu tudo na prática, ao atuar ao lado de grandes nomes como Marta e Cristiane.
— As pessoas precisam, até essa geração de hoje, precisam saber mais sobre o futebol feminino. Eu quero que essa geração entenda o que é o futebol feminino, porque para elas chegarem aonde elas chegaram hoje, para elas terem o que elas têm hoje, foi porque meninas lá atrás brigaram. Há algum tempo, o futebol feminino era proibido. Então, elas têm que entender isso, porque para elas estarem vivendo o que elas estão vivendo hoje, esse cenário de uma boa estrutura, de um bom salário, de ter um financeiro melhor, é porque as meninas estavam brigando por elas — ressaltou.
As mulheres que hoje estão diretamente inseridas em espaços que, tempo atrás, eram 100% ocupados por homens simbolizam resistência, luta e representatividade. Histórias como a de Jana Queiroz reforçam que ocupar esses espaços é também abrir portas para que outras mulheres possam trilhar o mesmo caminho.
— Cuide do seu psicológico e de seus corpos. Contem sempre com o suporte de suas famílias, porque o atleta hoje sempre tem que ter algo mais, tem que se cuidar, tem que dormir bem, se alimentar bem, tem que fazer trabalhos à parte, porque o futebol hoje é muito mais exigido e principalmente o mental. Ter força de vontade, porque a gente sabe que não é uma profissão fácil, mas cada vez mais a gente está tendo nosso espaço e merecemos muito mais — disse.
Jana Queiroz em treino do Atlético Cearense
Giovanna Borges/SVM
— A mulher pode estar onde ela quiser. A gente precisa ser mais escutada, a gente precisa ser mais valorizada, não só dentro do futebol, em todas as áreas, não só na beirada do campo, mas dentro do campo, como uma árbitra, por exemplo. A gente ainda precisa de mais espaço, precisamos ser mais valorizadas em questão disso — concluiu.
Em um cenário ainda marcado pela presença majoritária de homens nas comissões técnicas, a trajetória de Jana Queiroz representa mais do que uma conquista individual. A auxiliar técnica do Atlético Cearense simboliza também um avanço na luta por mais espaço e reconhecimento para as mulheres dentro do futebol. geRead More


