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Márcia Fu diz que evoluiu após ser mãe e exalta personalidade forte: “Me protegeu como mulher”

Márcia Fu diz que evoluiu após ser mãe e exalta personalidade forte: “Me protegeu como mulher”

Em 1996, Brasil perde para Cuba por 3 a 2 nas Olimpíadas de Atlanta
Mulher, mãe, apresentadora, humorista, política, influenciadora, participante de reality show. Durante quase a vida inteira Márcia Fu foi vista como a jogadora de vôlei de personalidade forte, que não abaixava a cabeça para as cubanas e defendia as companheiras e ela própria em quadra e fora dela, fosse na bola, no grito e até no braço.
Só que a vida e o próprio jeito inquieto de tentar se reinventar criaram outras Márcias que extrapolaram o ambiente esportivo. No Dia Internacional da Mulher, a ex-jogadora de 57 anos abre o jogo com o ge sobre a maternidade, a postura como atleta e pessoa e as mudanças que vieram com a experiência e a chegada do filho Gabriel.
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Márcia Fu tem 57 anos e história dentro das quadras e fora delas
Márcia Fu/Arquivo pessoal
Das tretas e do ambiente tenso e competitivo em quadra até à calmaria da pescaria com o menino de 13 anos, Márcia Fu aprendeu que nunca é tarde para mudar e entender o sentido da vida.
“Eu consegui ser uma mulher independente. Ganhei o meu dinheiro, conquistei o meu lugar ao sol. E só consegui isso por ser uma mulher de personalidade. Sempre disse: “Eu quero, eu vou conseguir”. E, fora o vôlei, tenho meus outros trabalhos, me reinventei. E tudo por esta personalidade. Sempre cheguei e falei: “Me dá licença que esta cadeira é minha”. E isso é responsável por tudo que eu conquistei. Sou uma mulher negra, que batalhei, cheguei e hoje tenho o meu lugar para quem saiu do interior e estar onde está”.
— Sou muito feliz. Ninguém é feliz por completo, mas sou uma mulher muito bem sucedida, muito bem quista. As pessoas gostam de mim pelo meu trabalho, por quem eu sou. Não importa o que eu faça, tudo é com boa vontade e o maior cuidado. Eu tenho isso dentro de mim, aquele espírito de atleta de não querer perder nem em bolinha de gude.
“E sou feliz com meu presente (filho Gabriel) Sou uma mãe muito coruja, muito presente, muito legal, que educa e não passa a mão na cabeça. Sou muito realizada”.
Personalidade e imposição como proteção
Porém antes de a própria Márcia Fu contar como a maternidade a transformou é preciso relembrar a Márcia Fu intensa, dentro e fora de quadra.
Natural de Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais, a ponteira começou a se destacar desde jovem no Sport Club JF. Depois de se destacar, a jogadora foi vista pelo Minas e recebeu uma oportunidade no tradicional time de Belo Horizonte.
Márcia Fu ao lado de Fernanda Venturini, cpnhaeira de base e no profissional da seleção brasileira
Márcia Fu/Arquivo pessoal
Márcia se lembra que enfrentou dificuldades após deixar a cidade natal, com relação a adaptação e distância dos pais. No entanto, ela carregou a personalidade forte dela aliada com os ensinamentos do Seu Cunha e da Dona Alice para a vida toda e conta que teve tudo que precisava desde criança.
— Minha infância não foi de dificuldades, porque meu pai tinha pelo menos três serviços para nos sustentar. Eu não estudei porque fui para o caminho do vôlei, mas todos os meus irmãos tiveram esta oportunidade, porque meus pais trabalharam muito para dar isso para a gente. Não tivemos regalias, mas tive uma infância abençoada, de classe média para baixo, mas com tudo que a gente poderia ter. O que mais tive foi a educação que me deram; A pessoa que sou hoje é por aquilo que meus pais fizeram, pelo amor que eles me deram — disse.
Márcia Fu foi um dos grandes nomes da seleção feminina nos anos 1990
Divulgação
A base familiaar e o talento com a bola de vôlei fizeram com que Márcia Fu se destacasse no Minas e começasse a integrar a seleção brasileira de base, ao lado de futuras companheiras de profissional, como Ana Mozer, Ana Paula, Fernanda Venturini e companhia limitada.
A partir de 1988 a jogadora e as companheiras começaram a aparecer na seleção principal e foram convocadas para as Olimpíadas de Seul, geração que explodiria anos depois com a participação em Barcelona 92 e culminaria com o bronze em Atlanta 96, primeira medalha coletiva para mulheres no Brasil.
Ponteira nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais
Márcia Fu/Arquivo pessoal
Além da técnica e da força, Márcia Fu era conhecida pelo temperamento forte, agitado, de quem não gostava de perder nem no jogo, nem na discussão e nem na briga.
A confusão com as cubanas após a derrota nas semifinais dos Jogos Olímpicos em 1996 talvez tenha sido a cena mais marcante da personalidade da mineira, que vivia o auge da carreira. No entanto, aquela não era a primeira vez e não seria a última em que a atleta e a mulher Márcia Fu “não deixaria para lá”.
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Márcia considera que a personalidade forte dela a impediu de viver coisas como relacionamentos amorosos mais longos e duradouros. No entanto, apesar disso, ela afirma que o temperamento a protegeu como mulher e evitou que ela passasse por preconceitos, assédios e abusos durante a longa carreira.
— Ao mesmo tempo esta força toda me afastou um pouco de relacionamentos. Eu sinto um pouco de falta disso, daquela coisa de ter alguém em casa, com os filhos, aquela rotina tranquila. Mas eu não me sinto uma pessoa normal, Deus não me fez para ter rotinas tranquilas. Eu sinto falta disso lá no fundo: sinto falta daquele cheirinho de bolo na casa avó, aquela sensação de casa. E hoje, se eu estou em um ambiente assim, me sinto muito confortável. Mas sei que não é para mim.
“Eu não passei por isso (abuso, assédio e preconceito), talvez pela minha personalidade. Minha personalidade me protegeu. Ela inibe, porque uma pessoa vai pensar duas vezes antes de mexer com outra que parece uma vespa”.
— Espero que as leis sejam rígidas para as mulheres não serem obrigados a passar por isso, porque é uma tristeza, eu sinto muito. A mulher tem que denunciar, não pode ter medo e não pode se acomodar com a situação. Afinal, se o homem faz com ela, ele vai fazer com outra. A gente entende que é uma escolha ou uma situação que cada mulher vive, depende de cada pessoa aceitar ou não. Mas ninguém é obrigada a passar por isso.
“A maternidade me melhorou em tudo”
Além do sucesso na seleção brasileira, onde conquistou várias medalhas entre o fim dos anos 1980 e o fim da década de 1990, Márcia Fu passou por muitos clubes do Brasil, como Osasco, Pinheiros, Vasco, entre outros, além do Vakıfbank Ankara, da Turquia, tetracampeão do Mundial de Clubes feminino.
A rotina corrida do voleibol atrasou um dos principais sonhos da ponteira, que era o de ser mãe. Além disso, ela queria passar mais tempo ao lado dos pais, fato que facilitou a tristeza por deixar as quadras. O que ela não contava era com o destino.
Pais de Márcia Fu, Seu Cunha e Dona Alice, sentados lado a lado à mesa na parte superior direita
Márcia Fu/Arquivo pessoal
— Queria ter tido filho mais cedo. Isso ficou para depois, porque eu não podia fazer isso na época. Tinha os campeonatos nacionais pelos clubes e os torneios internacionais pela seleção brasileira. Então eu precisei deixar isso de lado, assim como deixei de lado a presença com meus pais. Isso me chateou muito, porque eles morreram logo depois de eu parar de jogar. É minha única tristeza. Na hora em que eu iria curtir eles, eles faleceram — disse.
A mineira conta que a morte dos pais foi um golpe duro, que ela sente até hoje. Segundo ela, que destaca a ajuda que recebeu dos amigos Ricardo Nakao e Sérgio Pompeu daquele momento em diante, os anos seguintes foram doloridos por conta vazio que a partida de Dona Alice e Seu Cunha deixaram.
Apesar disso, a vida seguiu, e o destino voltou a aparecer, mas daquela vez de uma forma alegre. Márcia Fu tinha endometriose e já não tinha tantas esperanças de engravidar, sobretudo aos 43 anos de idade. No entanto, Gabriel chegou e mudou a vida da ex-jogadora.
Márcia Fu e filho Gabriel
Márcia Fu/Arquivo pessoal
— Sempre quis ser mãe, mas não podia antes. Só que tudo é no tempo de Deus. Fiquei sem os meus pais, fiquei sem sentido para vida. Mas logo depois, eu ganhei o Gabriel. Ele nasceu de mim, mas eu digo que eu ganhei ele, como um presente, porque eu tenho endometriose, tinha muitas dificuldades para engravidar. E engravidei aos 43 anos. Isso já seria uma gravidez de risco normalmente e ainda tinha o meu quadro. Quando falo que o Gabriel é um presente de Deus é porque ele é mesmo — contou.
“A maternidade me melhorou em tudo, principalmente na maneira como a gente vê a vida. Hoje em dia eu não sou amis eu, eu não penso mais em mim primeiro. Hoje eu priorizo Gabriel, a comida dele, a roupa dele, o bem-estar dele. Isso me mudou muito. Até ser mãe eu era até um pouco egoísta. Depois que eu tive ele, mudei minha visão. Quis melhorar por causa do meu filho. Ele virou a razão para eu estar de pé”.
Gabriel nasceu em 2012 após oito meses de gestação. Apesar de ter passado alguns dias na incubadora e com tratamento respiratório, o menino se recuperou bem e vai completar 14 anos agora em junho.
Gabriel compelta 14 anos em junho
Márcia Fu/Arquivo pessoal
Márcia Fu afirma que o filho tem a mesma personalidade dela, mas tem um jeito mais calmo de lidar com as adversidades.
“Ele é uma onça. Ele é bravo, igualzinho a mãe. Mas ele tem uma coisa do pai dele, que é calmo. Ele é um bravo calmo. Eu sou uma brava agitada. Ele puxou minha personalidade forte, mas ele é tranquilo na hora de resolver as coisas”.
— Ele já está rapazinho e você sabe como é: já faz as coisas dele, já tem umas menininhas na área e eu fico em cima. Eu sou ciumenta, muito coruja, mas é um menino que me respeita demais. As pessoas adoram ele.
O curioso é que a vida agitada Márcia Fu, que atualmente trabalha como apresentadora de TV, humorista e influencer, com mais de 700 mil seguidores no Instagram, contrasta com a calmaria do principal hobby de Gabriel, que costuma ir à pescaria com a família do fisioterapeuta Ricardo Nakao, grande amigo de Márcia e do menino,
Um dos hobbies de Gabriel é a pescaria
Márcia Fu/Arquivo pessoal
— Ele gosta de pescar. Vê se eu aguento isso? Lá só tem gente mais velha e ele adora estar com gente mais velha. Eu não gosto desta calmaria da pescaria, me incomoda, me deixa inquieta, mas tenho que levar, porque sou eu quem cuida dele. Eu levo um livro, faço um exercício físico e fico lá, enquanto ele pesca com meu amigo Ricardo Nakao e os pais dele, que são como avós para o Gabriel. Na verdade, acho que não sou eu quem levo meu filho para pescar. Ele é que me leva para a pescaria para eu me acalmar (risos).
Mensagem para as mulheres
Márcia Fu vai completar 57 anos no dia 25 de julho. Apesar da ligação intensa com o esporte, a ex-atleta se reinventou, foi Secretária de Esportes de Juiz de Fora em dois mandatos, concorreu às eleições em outros cargos públicos, se tornou uma das principais atrações em um reality show e percebeu que gostava de trabalhar com a mídia e o contato com as pessoas.
Márcia Fu atualmente mora em São Paulo
Márcia Fu/Arquivo pessoal
Dentro desta mistura que a vida dela se tornou, Márcia se considera uma mulher feliz e vencedora em todas as áreas onde atuou e deseja que neste Dia Internacional da Mulher todas sejam tenham esta felicidade e se valorizem.
— Se respeitem! Deem valor para aquilo que nós somos. Hoje em dias muitas melhores são diretoras, medalhistas olímpicas, engenheiras, presidente de clubes. É preciso valorizar o que somos. Não somos poucas, nem somos pouco. Somos muitas e somos muito. Conseguimos nosso lutar na sociedade e que consigamos manter isso com muita força. Vamos em frente, porque estamos batendo um bolão (risos) — concluiu geRead More