De multiatleta à embaixadora e até árbitra: a mulher que predominou nos primeiros anos de Flamengo
Conheça a história de Lydia Von Ihering, uma das precursoras do esporte feminino no Fla
Em ambiente e período predominantemente masculinos, a presença de uma mulher e a forma como ela é retratada na história chama atenção nos primeiros anos do Flamengo. Nas décadas de 1920 e 1930, Lydia Von Ihering circulou por várias modalidades esportivas e foi figura ativa na prática, organização e divulgação do esporte masculino e feminino. Uma mulher com voz ativa no clube.
Lydia Von Ihering, a mulher que predominou nos primeiros anos de Flamengo
Acervo/Flamengo
Filha de imigrante austríaco com uma gaúcha, a brasileira é considerada uma das precursoras do esporte feminino no Flamengo. Ela praticou natação, ginástica, tênis, vôlei, basquete, remo, corrida e até esgrima. Foi embaixadora rubro-negra e uma das fundadoras da Phalange Feminina, uma das primeiras torcidas organizadas do Fla. Em 1928, um grupo de mulheres se organizou para praticar esportes com uniforme próprio e torcer.
“Eu me considero uma das mais Flamengas entre as Flamengas. Tenho há dez anos mais ou menos um verdadeiro fanatismo pelas cores rubro-negras”, disse Lydia em entrevista ao Jornal dos Sports na década de 1930.
Lydia foi uma das precursoras do esporte feminino no Flamengo
Acervo/Flamengo
O Flamengo tem em seu acervo, acessado pelo ge, um álbum com inúmeros recortes da passagem de Lydia Von Ihering pelo clube. É interessante como a imprensa carioca não se atinha apenas às características físicas da atleta, algo comum quando se pensa na retratação da mulher no início do Século 20, mas destaca os feitos esportivos e o protagonismo dela no dia a dia da instituição. Lydia era porta-voz rubro-negra nos jornais da época.
— A gente pode pensar na Lydia como precursora da prática do esporte, mas, imaginando os desafios que ela teve ali nas décadas de 1920 e 1930, ela é uma das precursoras no sentido de pensar o lugar da mulher em vários espaços. Ela é uma mulher que fazia tudo. Ela estava no vôlei, no basquete, à frente do remo, não só como atleta, mas também como uma grande articuladora para valorizar o esporte naquele momento. Uma personagem multifacetada — destacou Desirree Reis, gerente de Patrimônio Histórico do Flamengo, em entrevista ao ge.
— Essa micro-história está relacionada a uma questão mais macro, que é a questão de dificuldades que as mulheres tiveram na história e sempre. De desafios, de preconceitos e de dificuldades de ocupar alguns lugares. A Lydia se mostrou muito presente enquanto uma mulher articuladora junto à imprensa, sendo vista de fato como uma voz que podia representar o clube. Isso abriu espaço para muitas mulheres, inclusive para nós que hoje ocupamos cargos aqui no Flamengo— completou.
Lydia praticou várias modalidades no Flamengo
Acervo/Flamengo
Para ilustrar como Lydia foi uma mulher à frente do seu tempo, uma das imagens publicadas pelo Jornal dos Sports tem a seguinte legenda: “Lydia Von Ihering, a graciosa sportwoman do Flamengo, já faz uso das calças”. Assunto que ela comentou em entrevista ao Museu da Pessoa em 2001:
“A Carmen Miranda me emprestou uma calça, e eu levei a um alfaiate que ela recomendou, e mandei fazer. Uma calça de lã branca, muito comprida, muito bonita. Eu tenho a impressão que, se não fui a primeira, talvez uma das primeiras mulheres a usar calças no Brasil”.
Lydia Von Ihering, atleta do Flamengo, usando calças na década de 1920
Jornal dos Sports
Multiatleta
Residente do bairro do Flamengo, próximo à sede do clube, Lydia gostava de atividades ao ar livre e iniciou na natação no mar em 1926. Dois anos depois, disputou sua primeira competição já filiada ao clube: “Aquela derrota foi para mim um grande estímulo e um punhado de ensinamentos. Terminando em seguida a época dos esportes aquáticos, resolvi dedicar-me aos terrestres”, comentou a atleta ao Jornal dos Sports.
Do mar ela foi para as quadras e fez parte de times femininos do Flamengo no vôlei e no basquete: “Quando nos sentimos mais fortezinhas, começamos a jogar contra o time dos rapazes, lá na Rua Paissandu. Claro que os rapazes ganhavam, todos faziam parte do time que disputava o campeonato da cidade, mas nós jogávamos direitinho, e o voleibol também”, recordou Lydia ao Museu da Pessoa.
Lydia foi terceira colocada no Campeonato Brasileiro Feminino
Acervo/Flamengo
Depois, voltou às águas para disputar uma competição de remo. Em dupla com outra atleta rubro-negra, Elza Reiner, Lydia foi campeã em 1929: “Terminei a prova exausta pelo esforço e pela emoção”. A multiatleta rubro-negra se arriscou também na esgrima, que tornou-se seu esporte predileto. Ela foi terceira colocada no Campeonato Brasileiro Feminino da modalidade.
“Faço esporte por esporte, portanto ganhar ou perder é coisa secundária. O que me orgulha é defender as cores do meu querido Flamengo. Minha vida esportiva nada tem de extraordinária”, declarou Lydia em 1930 sem imaginar a dimensão que ela teria na história rubro-negra.
Lydia era madrinha do remo masculino do Flamengo
Acervo/Flamengo
Embaixadora do Flamengo e do Brasil
Além de abrir portas para o esporte feminino no Flamengo, Lydia Von Ihering foi uma grande apoiadora dos esportes masculinos, escolhida madrinha do remo rubro-negro em época que esta era a principal modalidade praticada no país. Ela fazia campanhas públicas e organizava torcidas.
— Ela, sobretudo, constrói o amor pelo Flamengo que a gente tem hoje. Quando a gente pensa na nação rubro-negra, na paixão pelo clube, para mim a Lydia é uma personagem desse amor pelo Flamengo que vai além de um jogo. Ela traduz o “Ser Flamengo” que a gente herda hoje — comentou Desirree Reis.
Lydia foi eleita rainha da embaixada brasileira nas Olimpíadas de 1932
Acervo/Flamengo
Em 1932, teve o esforço retribuído pelos atletas, que a apoiaram em campanha para representar o Brasil nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Lydia venceu um concurso, com votação em massa dos rubro-negros, e foi escolhida a rainha da embaixada brasileira nos Estados Unidos. A imprensa internacional destacou a presença da atleta rubro-negra na época:
“Uma jovem encantadora chegou ontem a bordo do navio brasileiro. Ela se chama Lydia e é conhecida como Senhorita Flamengo, por ela ter vencido o campeonato de atletismo feminino do clube de mesmo nome no Rio de Janeiro. Ela está aqui para representar seu país nos Jogos Olímpicos.
Senhorita Flamengo fala um pouco de inglês, com um sotaque delicioso, e contou que pratica natação, remo, esgrima e basquete. Ela espera ganhar algo para o seu país nos jogos. Ela é uma jovem simples e genuína, sem maquiagem, e evidentemente em ótima forma física para o atletismo”.
Lydia foi eleita rainha da embaixada brasileira nas Olimpíadas de 1932
Acervo/Flamengo
Além de português e inglês, Lydia falava fluentemente alemão e tinha conhecimento sobre espanhol, francês e italiano.
Primeira árbitra de basquete
Um dos títulos que Lydia mais se orgulhou em sua trajetória no Flamengo foi a de primeira mulher a apitar jogos de basquete. Foram duas partidas apitadas por ela, uma no Rio e outra em Niterói. “Lydia arbitrou com desembaraço e precisão os aludidos embates, que se desenrolaram perante bom público”, registrou o Jornal dos Sports.
“Um dia faltou um juiz, e eu resolvi ser juiz, isso na Rua Paissandu. Parece que eu não me dei mal, não, tanto que teve um jogo de basquete masculino em Niterói e me convidaram para apitar, fui a primeira juíza de basquetebol”, afirmou Lydia ao Museu da Pessoa.
Lydia com times masculinos do Flamengo
Acervo/Flamengo
Lydia foi a primeira árbitra de basquete
Jornal dos Sports
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