O “pensar demais” ataca novamente e coloca Pep Guardiola no divã
Manchester City 1 X 2 Real Madrid | melhores momentos | UEFA Champions League | Oitavas
Ele diz que ama. A torcida odeia, e não há prova melhor que as duas derrotas para o Real Madrid que tiraram o Manchester City da Liga dos Campeões e novamente provaram um ponto antigo: que Pep Guardiola “pensa demais” em jogos eliminatórios.
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Guardiola pensativo durante a derrota do Manchester City para o Real Madrid na Champions League
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O jogo de ida: um time ofensivo demais? Ousado demais?
Contra um adversário que jamais pode ser desrespeitado, Guardiola mexeu demais onde o cenário pedia estabilidade e ousou com um 4-2-3-1, com uma linha de três meias formada por Nico O’Reilly, Semenyo e Savinho atrás de Haaland, e Rodri e Bernardo Silva como volantes.
Uma escolha arriscada para enfrentar um oponente que jamais se abala sob pressão e soube explorar o que o City tem de pior nessa temporada: a linha alta. O treinador Arbeloa, num 4-3-3 simples, simplesmente orientou Vini, Guler e Diaz a explorar a linha alta do City, que tentava controlar a posse fora de casa.
O jogo aberto permitiu a Federico Valverde circular livre entre os setores.Não existe exemplo melhor que o primeiro gol: o City fora de casa, buscando pressão no campo do maior vencedor de Liga de Campeões do mundo, contra um goleiro que sabe jogar com os pés e sem vigiar Valverde, livre livre, nas costas do lateral.
Primeiro gol do City: erro estrutural básico da defesa. Parece filme repetido.
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O segundo gol, com Vini atraindo toda uma defesa…ou melhor, com Rodri sobrecarregado na proteção da linha defensiva, provou que novamente Guardiola pensou demais.
Porque ao montar um time aberto jogando fora de casa, Guardiola abriu mão do controle que sempre definiu suas melhores equipes em mata-matas. Em vez de reduzir variáveis, aumentou. Em vez de proteger o time, expôs. ”Em três vezes que chegaram, foram três gols”, admitiu o treinador. “Todas as vezes que chegamos na linha de fundo, nos primeiros minutos e também no segundo tempo, provavelmente faltou o último passe.”
O 3 a 0 não veio de um Madrid dominante, mas de um City desorganizado sem a bola e ineficiente com ela. É um cenário muito parecido com muitos times que controlam a bola no Bernabéu, mas esquecem do mental de ferro do Real.
O jogo de volta: trocas inteligentes…ou caos?
Na volta e precisando reverter o placar, Guardiola trocou cinco jogadores em relação à ida. Cinco! Saíram Guehi, Nico O’Reilly, Savinho e Semenyo e para um time muito mais ofensivo, com Reijnders, Cherki, Doku e Haaland. O time acelerou, controlou a posse de bola, mas novamente deixou a defesa muito exposta.
Não deu outra: o Madrid voltou a explorar isso com facilidade, encontrando Vinicius Júnior em profundidade após passes verticais de Valverde, craque absoluto dessa fase da Liga dos Campeões. O lance do pênalti e da expulsão de Bernardo Silva nasce exatamente desse cenário, que já tinha se repetido inúmeras vezes no cenário de ida.
Ainda não somos completos. Já estive numa equipe do Manchester City em que éramos completos em todos os aspectos. Neste momento ainda não somos.”
E agora: pensar demais ou simplificar?
Os fatos provam que a crítica de que Guardiola abusa no “overthinking” estão extremamente corretas. Overthinking é pensar demais. Conhecendo o Guardiola que Marti Perarnau relatou em livros brilhantes, dá para deduzir que ele pensa demais por ser bom, mais inteligente que a maioria, absolutamente genial.
A questão é que nem todo mundo acompanha a lógica, e o tempo não permite que Guardiola explique tudo nos detalhes aos seus jogadores. Não se trata de ser ofensivo ou defensivo, mas sim de saber jogar o jogo de forma mais simples para chegar aos objetivos finais. Guardiola quer vencer como todos, mas se preocupa demais com o método, que é bom, e com a riqueza dele, que é ainda melhor.
Gringolândia analisa atual momento do Manchester City de Guardiola
Não foi a primeira, segunda, nem terceira vez que Guardiola é eliminado da Liga dos Campeões por mudar escalações. A crítica começou na segunda metade dos anos 2010, com as eliminações para Monaco, Tottenham e Liverpool.
A mais doída delas foi no mundo pandêmico, os 3 a 1 do Lyon, no qual Guardiola reinventou um time com três zagueiros e Gabriel Jesus e De Bruyne na frente que ninguém, e talvez nem ele, entendeu.
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Após ser campeão, a pedra no sapato virou o Real Madrid. Essa foi a quinta temporada seguida em que aconteceu o confronto entre Manchester City e Real Madrid no mata-mata da Liga dos Campeões. O time espanhol levou a melhor quatro vezes: em 2021/22 (semifinal), 2023/24 (quartas de final), 2024/25 (playoffs para o mata-mata) e agora em 2025/26 (oitavas de final). A equipe inglesa ganhou a disputa em 2022/23 (semifinal).
Existem dúvidas se o projeto de Guardiola continuará por muito mais tempo. Em dez temporadas, ele venceu seis vezes o Campeonato Inglês, quebrou recordes, ajudou o mundo a pensar o jogo de forma diferente. Guardiola continua como um dos maiores de todos os tempos. Talvez o maior ao lado de Carlo Ancelotti.
Mas pensar demais vem custando cada vez mais caro. Se antes não custava em casa, os adversários aprenderam e a Inglaterra vê projetos sólidos, inspirados no próprio City, ameaçando o trono: o Liverpool que interrompeu a sequência de títulos em 2019/20 e no ano passado, o Arsenal que parece mais maduro do que nunca e é obrigação citar o Aston Villa, comandado pelo genial Unai Emery.
À frente de Unai Emery, Pep Guardiola lamenta derrota do City para o Aston Villa
Chris Brunskill/Fantasista/Getty Images
Esses projetos também têm treinadores que pensam demais, mas pensam diferente. E estão começando a vencer Guardiola no que ele tinha de melhor: o pensamento. O Guardiolismo que reinou deu lugar a uma variedade de formas de jogar que não cabem em nomes, às vezes nem em análises. Todas com um único objetivo: vencer.
Pensar demais sem entender esse objetivo pode custar cada vez mais caro. Como custou ao mais uma vez eliminado Manchester City.
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