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Opinião: adeus da Lusa à Copa do Brasil tem escândalo da arbitragem e cartilha do que não fazer na Série D

Opinião: adeus da Lusa à Copa do Brasil tem escândalo da arbitragem e cartilha do que não fazer na Série D

Portuguesa-SP 2 x 3 Paysandu | Melhores momentos | 4ª fase | Copa do Brasil 2026
A CBF se orgulha de estar pagando R$ 500 milhões em premiações na Copa do Brasil deste ano. A cada temporada, renova o recorde. Em 2026, em especial, divulga com pompa e circunstância que se trata da maior competição do país por ter 126 clubes.
No entanto, em plena quarta fase, valendo vaga na etapa em que entram os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, que garante uma cota de R$ 2 milhões, não adota o VAR e mancha uma classificação com uma arbitragem escandalosamente danosa.
Foi assim a eliminação da Portuguesa para o Paysandu, por 3 a 2, no Canindé, nesta terça-feira. Sem nem entrar em detalhes menos essenciais para o placar, um jogo marcado por uma expulsão no mínimo contestável e dois gols com matadas de mão.
Jefferson Ferreira de Moraes foi o árbitro. Hugo Sávio Xavier e Tiego Henrique dos Santos foram os auxiliares. O trio, que integra o quadro da Federação Goiana de Futebol, acabou sendo protagonista da virada paraense sobre o time lusitano.
Portuguesa x Paysandu
Jorge Luís Totti/Paysandu
Daria para gastar linhas e linhas listando erros nessa péssima atuação da arbitragem. Como, por exemplo, um escanteio claríssimo para a Portuguesa não marcado. Um lance em que as imagens da TV só deixam mais constrangedor do que foi in loco.
No entanto, foco em três lances que interferiram diretamente nas circunstâncias e no placar do jogo. O primeiro deles aos 10 minutos do segundo tempo. A Lusa vencia por 2 a 0. O Paysandu estava no ataque. Marcinho, perto do bico da área, pela direita, usou a mão para ajeitar a bola. O árbitro e o assistente estavam de frente para a jogada.
Guilherme Portuga, da Portuguesa, que estava na marcação, logo reclamou. Juiz e bandeira nada marcaram. Pedro Gonçalves então se aproveitou do espaço deixado pela queixa à mão na bola e chegou pelo corredor direito finalizando. A bola ainda desviou na canela do zagueiro Eduardo Biazus e matou o goleiro Bruno Bertinato.
O segundo lance aconteceu aos 20 minutos da etapa final, na intermediária do campo de ataque da Lusa, em uma dividida entre o zagueiro rubro-verde Biazus e o volante Castro. A bola quicou pouco antes da dividida. Os dois se chocaram. Castro caiu no chão e rolou como se houvesse sofrido uma agressão terrível.
Portuguesa x Paysandu, Copa do Brasil
Dorival Rosa / Portuguesa
O árbitro foi na dele e deu vermelho direto para Biazus. Na hora, no estádio, já deu para notar que o zagueiro lusitano não foi de sola, com as travas da chuteira para o alto, e que ambos acabaram enganados pelo quique da bola. Ao ver as imagens da TV, não há consenso algum sobre o cartão escolhido. Seria, no mínimo, decidido no VAR.
Já o terceiro lance se deu aos 47 minutos do segundo tempo. Escanteio para o Paysandu, lado esquerdo do ataque. Bola alçada à área, desviada no caminho. Italo ajeita de mão e finaliza com o pé para o fundo das redes. Não há dúvida quanto ao toque de mão. A bola muda de trajetória quando toca no braço do jogador. Lance claríssimo.
O time da Portuguesa reclamou de imediato. Árbitro e assistente, ambos de frente para a jogada, simplesmente validaram o gol. Não foi um lance difícil, impreciso, duvidoso. Foi um lance claro, ainda mais na velocidade com que a jogada aconteceu, em que se percebe com mais nitidez a mudança da trajetória da bola.
Três lances que seriam revisados pelo VAR. A expulsão, no mínimo, seria debatida. Mas, ainda que não fosse revista, em uma interpretação de que era para vermelho, o primeiro e o segundo gols do Paysandu teriam sido anulados sem discussão.
Todos os gols de Portuguesa vs Paysandu
Não é exagero algum, portanto, afirmar que a eliminação da Portuguesa foi diretamente provocada por uma arbitragem péssima e, repetindo, danosa. Não foram erros marginais. Foram erros capitais, que mudaram o jogo e mexeram no placar.
Agora, um aspecto não anula o outro. Não é porque houve uma arbitragem horrível que se deve ignorar a atuação da Lusa ou relevar os problemas. Ao contrário dos dois jogos anteriores pela Copa do Brasil, o time entrou aceso, ligado, focado, concentrado.
O primeiro tempo foi um massacre. Renê poderia ter aberto o placar aos 20 minutos se tivesse conseguido tocar por cima do goleiro Gabriel Mesquita um passe que recebeu na entrada da área. Ainda assim, aos 22, após um excelente cruzamento de Maceió pela esquerda, Igor Torres cabeceou no contrapé de Mesquita e fez o 1 a 0.
O segundo poderia ter vindo aos 36 minutos, quando João Vitor cruzou pela direita, a zaga cochilou, e a bola sobrou para Maceió na cara do gol. Era jeito, não era força. O atacante apostou na força e acabou chutando literalmente em cima de Mesquita.
Árbitro de Portuguesa x Paysandu, pela Copa do Brasil: “É final pra gente”
De todo modo, a Portuguesa ainda faria o 2 a 0 no lance seguinte, aos 37 minutos. Na sequência de um escanteio cobrado pela esquerda, Renê finalizou uma vez. Mesquita rebateu. Os zagueiros se atrapalharam. Renê pegou a sobra, muito bem, e marcou.
O segundo tempo, porém, foi o avesso disso. É natural que um time, em vantagem no placar, atire-se menos ao ataque, espere mais o adversário, tente explorar os espaços para encaixar contra-ataques. Não é recuar. É jogar com a vantagem e com sabedoria.
Não é que a Lusa entrou recuada. Entrou, sim, relaxada, relapsa, desatenta. Como se a partida já estivesse decidida. Do outro lado, o técnico Júnior Rocha usou o intervalo tanto para acordar o Paysandu quanto para promover os ajustes necessários.
Igor Torres cita Neymar no intervalo de Portuguesa x Paysandu pela Copa do Brasil
Soube, a partir de então, aproveitar uma fragilidade lusitana: o meio-campo. Setor em que o técnico Fábio Matias perdeu peças fundamentais após o Paulistão e vem tentando compensar primeiro com o que tem e depois estreando reforços recém-chegados.
O Paysandu poderia muito bem ter marcado aos nove minutos, quando os zagueiros Gustavo Henrique e Eduardo Biazus dormiram e deixaram um atacante passar livre por entre eles. Cara a cara com o gol. A sorte é que a finalização levou a bola ao Rio Tietê.
O time paraense tinha volume. E logo no lance seguinte, aos 10, saiu aquele gol de Pedro Henrique após o passe de Marcinho, que ajeitou a bola de mão. Era um massacre do Paysandu? Não. Mas a Lusa dava a bola ao adversário e não sabia aproveitar os erros dele, o espaço deixado por ele. Encaixou um único e mísero contra-ataque.
Fábio Matias critica erros de arbitragem na eliminação da Portuguesa na Copa do Brasil
Foi aos 20 minutos, quando Igor Torres puxou a descida e soltou para Renê, que finalizou da entrada da área. A bola, lenta e caprichosamente, beijou a trave direita de Mesquita. Poderia ter matado o jogo ali? Sim. Mas foi a única descida efetiva.
Aos 22, veio a expulsão de Biazus. E aí o técnico Fábio Matias foi obrigado a mexer no sentido de preservar a vantagem. Adotou três zagueiros, praticamente abdicou de um meio-campo mais criativo ou de transição, e a Lusa foi tentando picar a partida.
Ia conseguindo. Até o gol de empate do Paysandu, aos 47, em que Italo matou com a mão. E, na sequência, um frango do goleiro Bruno Bertinato. Uma falha clamorosa. Uma cena lamentável. Eram passados 50 minutos do segundo tempo. Faltavam menos de dois minutos para acabar. Deixaram Castro livre na intermediária.
Castro fez o que dava naquele momento de desespero: arriscou. Sozinho, espaçoso, sem precisar nem pedir licença. Bertinato aceitou. Uma falha que custou caro. Até porque, não fosse ela, mesmo com a péssima arbitragem, a partida seria decidida nos pênaltis.
“Fomos prejudicados pela arbitragem”, Gustavo após a eliminação da Lusa
A real é que a Portuguesa praticamente não jogou no segundo tempo. Entrou mal e, quando Fábio Matias ia corrigindo essa rota, veio a expulsão. Com a confusão, a parada para hidratação e as substituições, quase não houve mais jogo. Só que o time rubro-verde mostrava-se incapaz de ficar com a bola e gastar tempo com inteligência.
Foi dando mais e mais campo a um Paysandu que, por menos efetivo que fosse, criou o contexto para a arbitragem permitir a virada. Como destacou nas redes sociais o próprio presidente da SAF, Alex Bourgeois, é preciso “saber sustentar resultados”.
São lições seríssimas e caríssimas para a Série D, em que os jogos são decididos mais na transpiração que na inspiração, mais no foco do que na técnica, mais na vontade que na qualidade, em que vantagens mínimas precisam ser preservadas.
A própria qualidade da arbitragem é pior que a da Copa do Brasil. É daí para baixo. Mal tem transmissão, quanto mais VAR. Não se pode oscilar tanto dentro de um jogo, não se pode perder chances de matar a partida, não se pode dar sopa para o azar.
Por mais questionável que a expulsão de Biazus seja, o que explica estar no campo de ataque dividindo bola com uma vantagem de 2 a 0 no placar? Não estava perdendo, precisando correr atrás, virar, etc. É pedir para arbitragem ruim fazer lambança.
Fábio Matias, técnico da Portuguesa
Anderson Romão/AGIF
Não dá também para, nos acréscimos do segundo tempo de um jogo decisivo, dar o espaço que se deu a Castro. Muito menos contar com aquela falha de Bertinato. Acontece? Sim. Mas é o tipo de falha de alguém que não está ligado no jogo. Ele, aliás, hesitou ao sair e esmurrar a bola no segundo gol do Paysandu. Era dele. Mal demais.
Tão importante quanto discutir uma arbitragem desastrosa, que mancha a Copa do Brasil e que impactou diretamente em uma classificação é considerar os aprendizados que a Portuguesa precisa carregar para a Série D. A Lusa sai dessa eliminação para o Paysandu com uma cartilha do que não fazer no Campeonato Brasileiro.
*Luiz Nascimento, 33, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site. geRead More