Ex-São Paulo supera depressão e bebida e ajuda clube da capital em feito improvável na quarta divisão
Sem vitória na Séria A4, Vocem e Nacional de São Paulo empatam
O tamanho de um sonho é definido pela força de vontade de quem almeja chegar lá. Para o Nacional-SP, que resiste há anos em situação difícil e com pouco dinheiro, a vontade de escapar do rebaixamento nunca foi tão grande. Mais ainda após uma arrancada que pode ser histórica na Série A4 do Paulistão.
Vizinho dos centros de treinamentos dos primos ricos São Paulo e Palmeiras, na Avenida Marquês de São Vicente, zona oeste de São Paulo, o Nacional resiste há muito tempo nas últimas divisões, mas passou a correr risco real de mais uma queda já no início do ano.
Antes de arrancar para se colocar nessa posição, o Naça acumulava apenas um ponto em 30 possíveis e não tinha feito um gol em dez jogos da primeira fase. A reviravolta passou muito pelo reencontro com as redes: foram sete gols nas últimas três partidas, que confirmaram a invencibilidade e tiraram a equipe da zona de rebaixamento.
Esse ataque redentor conta com Mazola, formado na base do São Paulo e com passagens por Guarani e São Bento. O ge traz relatos sobre o momento do clube, bastidores da arrancada e o papel do atacante, que mesmo sem gols ou assistências viu no Nacional uma chance de recomeçar, esquecer o passado de traumas e vícios e ajudar o elenco fora de campo.
O que aconteceu com o Nacional?
A campanha catastrófica nas primeiras rodadas surpreendeu até o mais pessimista dos torcedores. No ano passado, o Nacional chegou muito perto de subir e perdeu justamente o jogo do acesso para o Paulista de Jundiaí, por 3 a 0, após empate por 1 a 1 em seus domínios.
O início foi tão ruim que o clube chegou a ficar próximo da marca de um ano sem vencer. O último triunfo do clube em jogos oficiais tinha sido no dia 29 de março de 2025, quando bateu o São Caetano por 3 a 0 no jogo de ida das quartas de final do Paulistão A4. A série só foi quebrada com a vitória por 3 a 2 sobre o Araçatuba, no dia 18 deste mês.
Se no ano passado o Nacional montou um elenco forte e “cascudo”, em 2026 a história foi bem diferente. A equipe iniciou a jornada na A4 com um plantel recheado de garotos, a grande maioria sem qualquer tipo de experiência profissional, fator que cobrou seu preço por conta da sequência de derrotas para abrir a campanha. A confiança, esfacelada, não retornava.
A equipe do Nacional-SP que disputa a Série A4 do Paulistão
Guilherme Xavier/ge
Segundo relatos ouvidos pela reportagem, as parcerias com empresários motivaram a mudança drástica no perfil do elenco. Tuca Guimarães, técnico que assumiu o Nacional e é um dos principais responsáveis pela reviravolta, explicou um pouco mais sobre o processo, que também contou com a participação de Ricardo Souza, investidor do time.
– O Nogueira (Júnior, técnico anterior) fez essa lambança aí no começo do ano.
Teve um pouco de descaso com o planejamento, tínhamos um ou outro menino bom, o restante muito cru, o Nogueira veio também com pouca experiência no futebol paulista. E aí foram 10 jogos sem nenhum gol feito. Tomara que, com essa retomada, venha um planejamento a longo prazo – disse.
Tuca aceitou assumir o Nacional em situação crítica, bem diferente do que ele está acostumado. Essa é a sexta passagem do treinador pelo clube que leva no coração. Mesmo com a possibilidade de ficar manchado pelo rebaixamento, ele não poderia recusar ajuda ao Naça.
Ciente dos problemas com a garotada, Tuca trouxe pelo menos cinco atletas mais “cascudos” para atuarem ao lado do atacante Mazola, que era o mais experiente do elenco com folga. Agora, a promessa é de permanência na A4, ainda que o sonho seja muito maior.
– Chega a ser emocionante estar saindo da zona depois de tudo que a gente viveu, o clube que estava com 10 jogos sem nenhum gol, nos últimos dois jogos fez sete, ganhou confiança, ganhou lastro. Tenho certeza de que não vai cair e digo mais, ainda espero ver o Nacional na Série A1 do Campeonato Paulista – explicou.
Entrada do Nacional-SP na Marquês de São Vicente
Marcelo Braga
A redenção de Mazola
Aos 36 anos, o atacante já não tinha mais muito a almejar na carreira quando chegou ao Nacional. Mazola é cria da base do São Paulo e contou ao ge que deixou o CT da Barra Funda, vizinho de porta do Naça, com mágoas pela falta de oportunidades entre os profissionais.
– Eu tenho uma memória afetiva muito grande (do São Paulo), mas também eu tenho uma mágoa. Meu pai sempre foi são-paulino e, antes de ele morrer, ele falou assim: “No dia em que eu te ver jogando com a camiseta do São Paulo, aí eu posso morrer tranquilo.” Eu tive só duas, três oportunidades no São Paulo, realizei o sonho do meu pai, mas queria ter saído por cima, fiquei magoado por não ter feito um gol e homenageado o meu pai – lembrou.
O pai era uma figura central na vida de Mazola, que o perdeu na mesma idade que tem hoje. A ausência foi sentida demais pela família, quando ele ainda era um menino, e aumentou o drama pessoal em momentos de grande sucesso profissional.
Mazola no São Bento, um dos últimos clubes que defendeu antes do Nacional
Divulgação/EC São Bento
Depois de passar por Paulista de Jundiaí e Guarani, Mazola foi negociado com o Urawa Reds, do Japão. Lá, o atacante tinha intérpretes, carros de luxo e ternos caros, mas se via com um vazio que só seria preenchido no futuro. A ausência de uma família para compartilhar as conquistas fez com que o jogador enfrentasse forte depressão e vícios que poderiam ter acabado com a sua carreira.
– Eu perdi meu pai com 36 anos para as drogas, ele também chegou a se profissionalizar no futebol. A gente viveu um momento muito difícil depois que ele faleceu, morando num barraco que cabia uma beliche e um fogão, eu, minha mãe e cinco irmãos. Ela era faxineira e sustentava cinco filhos. Via ela chorando e não aguentava mais ver essa nossa situação, nossas roupas eram doadas, a gente não tinha nada – iniciou, antes de prosseguir:
– No Japão, na China, ganhava uma fortuna, tinha intérprete, motorista e não tinha família perto, não tinha ninguém. Eu ficava me perguntando: “Eu tenho tudo, mas ao mesmo tempo não tenho nada”. Tive depressão, me perdi várias vezes no meio do caminho com bebida, comecei a usar maconha, sabe? Usava aquilo para esquecer do vazio. Se você não tem uma família por perto, não vale nada o que você faz – lembrou, emocionado.
O preenchimento desse vazio só veio no Nacional, em fim de carreira. Mazola não aceitou a proposta do clube da capital por dinheiro, mas para que seus filhos, de dois e quatro anos, tivessem memórias do pai em campo como profissional. O atacante, inclusive, joga com lesão crônica na parte posterior da coxa esquerda.
Mazola em ação pelo Nacional-SP
Guilherme Xavier/ge
Mazola não chegou a contribuir com gols ou assistências em oito jogos pelo Nacional, mas ele funciona muito mais como um líder no vestiário, voz ativa e “imediato” de Tuca na tentativa de fuga do rebaixamento. Como mencionado, restam apenas dois jogos.
O desafio não vai ser fácil, já que o Naça pegará o Barretos, quarto colocado, e o vice-líder Inter Bebedouro em sequência. Os dois, contudo, já estão praticamente classificados para o mata-mata e podem poupar as equipes pensando na próxima fase.
O jogo contra o Barretos será neste sábado, às 16h. O Nacional encerra a sua participação no Paulistão A4 uma semana depois, às 15h, em casa.
Um pouco da história do Nacional
As origens do clube caminham ao lado da história do futebol no Brasil. O início do esporte, que se tornou paixão nacional, tem muitos nomes, mas Charles Miller é um dos maiores. Apesar de a fundação ter sido em 1914, ele só ganhou o nome que tem até hoje — Nacional Atlético Clube — em 1947.
Charles Miller era filho de um diretor da São Paulo Railway Limited, companhia ferroviária inglesa que se estabilizou no Brasil no século XIX. O primeiro nome do clube, portanto, foi São Paulo Railway Atlético Clube. Historiadores, como Heitor Romeu César, datam a estreia da equipe na primeira divisão paulista em 1933. A melhor campanha na elite veio seis anos mais tarde, quando terminou em quarto lugar, atrás de Corinthians, Palmeiras (na época Palestra Itália) e Portuguesa.
O clube só foi chamado de Nacional quando a concessão da São Paulo Railway acabou, e a empresa voltou para o Reino Unido. A ferrovia foi nacionalizada, e o Nacional oficializou a mudança em amistoso contra o Flamengo. Com o Pacaembu lotado, a equipe perdeu por 5 a 3, jogando um tempo como São Paulo Railway Atlético Clube e outro como Nacional.
O Nacional se manteve tradicional no cenário paulista nos anos 50, mas, depois disso, perdeu força na elite estadual. Os principais títulos são a Série A3 (1994, 2000 e 2017) e A4 (2014) do Paulistão.
Após décadas turbulentas que sucederam, o clube encontrou sua vocação: revelar grandes talentos nas categorias de base. Tanto que foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior em 1971 e 1988, o último com um esquadrão de dar inveja aos principais clubes do país.
A lista de revelações é extensa. Félix e Cafu conquistaram a Copa do Mundo em 1970 e 2002, respectivamente, enquanto Deco, Dodô e o goleiro Magrão, ídolo do Sport Recife, tiveram carreiras vitoriosas no futebol.
Hoje, o Nacional vive de parcerias com escolinhas de futebol para crianças e aluguel de quadras para outros esportes, como tênis, vôlei e o próprio futebol amador. Quando o ge esteve no local, o gramado do estádio do Naça estava sendo preparado para receber uma etapa do Circuito Mundial de Rugby.
A estrutura de rugby que está sendo montada no Nicolau Alayon
Guilherme Xavier/ge
O Estádio Nicolau Alayon é patrimônio da cidade de São Paulo e não pode ser demolido ou negociado, mas o Nacional já recebeu propostas para negociar outras áreas dos 80 mil metros quadrados do clube. O Jardim das Perdizes, condomínio de luxo nos arredores, além de Palmeiras e São Paulo, vizinhos com Centros de Treinamento de última geração que contrastam com o Naça, estiveram entre os interessados. geRead More


