Rafael Marques vira técnico por acaso, explica treta com Cuca e faz mistério sobre desafeto no futebol
Rafael Marques explica trajetória até virar treinador
Atacante com passagens de sucesso por Botafogo e Palmeiras na década passada, Rafael Marques iniciou em 2026 sua carreira como treinador, à frente do Primavera, caçula na elite do Campeonato Paulista.
+ Siga o ge Palmeiras no WhatsApp
O resultado foi aprovado: o time não apenas se manteve na A1, como chegou a disputar uma vaga no mata-mata. Garantiu-se, assim, na Série D do Brasileirão de 2027 e chegou a avançar em uma fase da Copa do Brasil antes de ser eliminado pelo Ceará. Feitos atingidos antes do esperado por Rafael.
– A gente brinca que acabou caindo no colo. Não foi planejado assim – resumiu Rafael ao ge, ao explicar o início de sua nova carreira.
Rafael Marques, técnico do Primavera, em entrevista exclusiva ao ge
Thiago Ferri
Mais notícias do Palmeiras:
+ Verdão pega time da Bahia na quinta fase da Copa do Brasil
+ O discurso de Abel antes da vitória sobre o rival São Paulo
Rafael Marques chegou ainda como jogador ao Primavera, em 2022. Já em fim de carreira, foi convidado por Nenê Zini, seu empresário e um dos gestores da SAF do clube, a iniciar sua transição para uma nova carreira, como auxiliar técnico.
– Eu faço meu último Campeonato Paulista (na A2) e já meio do ano decido parar (em 2022). E veio o convite novamente para jogar na Copa Paulista para iniciar a transição. Não precisaria jogar muito, mas seria líder no vestiário, como um treinador, só que dentro do campo – detalhou.
Rafael Marques revela bastidores de discussão com Cuca
Em 2023, foi oficializado como auxiliar técnico fixo do Primavera e participou da comissão técnica que levou o time à primeira divisão do Paulista, em 2025.
Ficha técnica
Nome: Rafael Marques Mariano
Idade: 27/05/1983 – 42 anos
Clubes como jogador: Ponte Preta, Palmeiras, Inter de Limeira, Marília, Samsunspor (Turquia), Manisaspor (Turquia), Omiya Ardija (Japão), Botafogo, Henan Jianye (China), Cruzeiro, Sport, São Caetano, Figueirense, Ventforet Kofu (Japão), Botafogo-SP e Primavera.
Com a saída do treinador Fernando Marchiori para o Caxias, em outubro, o clube até cogitou contratar outro nome, mas optou pela efetivação de Rafael Marques. Antes até do que ele imaginava.
– Aqui a gente tem pés no chão, é bem simples, mas muito bem feito. O trabalho evoluindo a cada ano e acaba que os próprios jogadores falam: tem que ser o Rafa (o treinador), porque ele está aqui já há quatro anos. Todo mundo conhece a voz dele, conhece o processo, conhece a filosofia do clube e todo mundo gosta do estilo dele – relembrou o treinador.
O resultado: 12ª colocação no Estadual, com duas vitórias, dois empates e quatro derrotas. O Primavera foi o segundo melhor ataque desta fase, com 14 gols, empatado com o Palmeiras e atrás apenas do Novorizontino (16).
– Dentro dos objetivos, a gente conseguiu o que a gente queria. Poderíamos ter ido mais longe, mas esse é um gosto de que o trabalho está no caminho certo. Ano que vem vai ser diferente. Tem que ser diferente, porque não é mais o caçula – avisou.
Rafael Marques, técnico do Primavera, em entrevista exclusiva ao ge
Thiago Ferri
Oswaldo: inspiração e vítima de “covardia”
Conhecido por ser um jogador querido nos vestiários pelos quais passou, Rafael Marques mantém o estilo sorridente e pacífico como treinador. Ele se inspira em Oswaldo de Oliveira, com quem trabalhou no Botafogo e Palmeiras.
– Eu escutei uma vez: “você quer ser o quê? Um comandante ou líder?”. É muito diferente. O comandante é aquele cara mais durão, autoritário. Esse não é o Rafa. Eu me encaixo no perfil de querer liderar eles.
– Tive como referência um baita de um professor, para mim ele sempre foi um “gentleman”: Oswaldo Oliveira. Ele sempre foi um cara que todo jogador gostava, um cara educado, dificilmente… Isso lá atrás, depois mudou muito, mas lá atrás você não via ele xingando muito, perdendo o controle.
Rafael Marques indica inspirações como técnico: “um gentleman”
Admirador do técnico, Rafael Marques lamentou a polêmica em que Oswaldo foi pivô, junto de Emerson Leão, com críticas a treinadores estrangeiros no Brasil em evento organizado pela CBF e ao lado de Carlo Ancelotti, comandante da seleção brasileira.
– Achei uma covardia o que fizeram com Oswaldo.
– Talvez ele colocou no momento que não seria legal. O próprio Ancelotti e a CBF abriram as portas para os treinadores. Mas não foi só o Oswaldo. O Leão também falou coisas que talvez outros treinadores quisessem falar – refletiu.
– Não que a gente não tenha que ter treinadores brasileiros e estrangeiros aqui, até porque eram dois brasileiros que trabalharam muito tempo lá fora. O próprio Oswaldo fez uma linda carreira no Japão. Seria muito contraditório o Oswaldo falar que não poderia ter estrangeiro aqui, sendo que ele trabalhou lá fora. O Leão, também.
– A gente pode ter treinador estrangeiro no Brasil, a gente evolui com eles, mas talvez foi a chateação maior desses treinadores mais experientes, de acharem que agora brasileiro não presta. Não é assim. Acho que é um pouco da mágoa que eles sentem por não serem mais valorizados – completou.
Rafael Marques viveu fase de destaque no Botafogo com Oswaldo de Oliveira
Piervi Fonseca / Agência Estado
Bastidores com Cuca e a briga de 2016
Embora entenda que seu melhor momento como jogador tenha sido no Botafogo entre 2012 e 2013, Rafael Marques considera sua passagem mais marcante no futebol brasileiro pelo Palmeiras, entre 2015 e 2017.
Parte dos elencos que venceram a Copa do Brasil e o Brasileirão, o ex-atacante teve sua importância em campo, como nos gols em clássicos, e também uma voz influente dentro do grupo.
Por mais que não eu fosse capitão, tinha a minha liderança do meu jeito, o dia a dia. Eu era muito mais de apaziguar a situação. Briga não me faz bem
Tem algum desafeto no Futebol? Rafael Marques aponta uma pessoa
Mas um dos episódios mais marcantes de sua trajetória foi justamente o oposto do que estava acostumado. Após a vitória sobre o Coritiba, pela 27ª rodada do Brasileirão de 2016, Rafael Marques e Cuca tiveram uma discussão no vestiário do Allianz Parque.
Ele contou detalhes da relação com o treinador e deixou claro que tudo foi resolvido rapidamente.
– Com o Cuca foi coisa de vestiário. E ainda quando o Cuca volta (em 2017), ele brinca: você vai me foder, Rafa. Vão achar que você vai sair por minha causa. Eu falei: deixa achar, Cuca. A gente não tem problema algum, cara. Eu já estava perto de sair (para o Cruzeiro), estava negociado para sair já, porque eu estava precisando procurar outros ares – lembrou.
– Ele também é uma baita referência como treinador. O dia a dia do Cuca é mais difícil, ele tem os costumes dele, as manias dele, faz parte de cada treinador. Eu gosto do ambiente mais tranquilo, mais leve. O Cuca gosta de ter jogadores ali perto dele, corda esticada. Mas acabou resolvendo ali, tanto que a gente é campeão brasileiro.
Rafael Marques e Cuca no Palmeiras
Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação
Antes de se encontrarem no Palmeiras, Cuca e Rafael Marques quase trabalharam juntos na China, mas a negociação com o Shandong Luneng não avançou.
Depois do título brasileiro, o técnico deixou o Verdão por questões pessoais e foi substituído por Eduardo Baptista, mas retornou em maio de 2017. Dias depois, Rafael se transferiu para o Cruzeiro.
– Eu não fico no Palmeiras não por causa do Cuca. Em 2017 fiz um jogo só e fiz gol. Não tem nada a ver com ele. A nossa briga ficou ali.
“Hoje torço para o Palmeiras”
Santista na infância, Rafael Marques diz que se tornou palmeirense pela história no clube, em que teve duas passagens (uma primeira, mais curta, em 2004).
– Hoje eu torço paro Palmeiras e amanhã você não pode ser treinador do Corinthians? Posso. E sabe o que vou querer? Ganhar do Palmeiras.
Palmeiras x Ponte Rafael Marques comemoração
Marcos Ribolli
– Eu sou profissional. É uma babaquice que a gente tem dentro da nossa cultura. É babaquice. Olha a violência que a gente tem. Queria ter classificado agora no Paulista para poder enfrentar o Palmeiras lá dentro (no Allianz Parque), mesmo torcendo para o Palmeiras.
– É o time que faltava dentro da minha casa (risos), porque meu pai era santista. Eu me tornei santista na infância pelo meu pai, meu irmão é são-paulino e minha mãe, corintiana.
Perrengues na reta final como atleta
Após a passagem pelo Cruzeiro, Rafael Marques passou por seis clubes em cinco anos até se aposentar. As dificuldades na reta final da carreira ajudaram na trajetória como treinador.
– Dificilmente você consegue manter a carreira toda ganhando um salário alto. Mas graças a Deus consegui fazer um pé de meia lá atrás, na Turquia, Japão. Sempre fui um cara muito pé no chão, muito conservador. Nunca fui um cara de ostentar, de gastar mais do que podia.
– No Sport foi uma decepção porque o clube sempre foi muito bem organizado. E no ano que eu vou para lá as coisas começam a desandar extracampo, na questão financeira, e a gente cai com o Sport. Ali comecei a dar uma brochada, uma desanimada.
Rafael Marques pelo Figueirense
CÉLIO JR/AM PRESS & IMAGES/ESTADÃO CONTEÚDO
– Aí vem para o São Caetano, disputamos o Paulista, aparece o Figueirense. A gente faz um bom campeonato na Série B, tinha a grande chance de subir para a Série A. E começa aquele cenário de ter que dar o W.O. para tirar o presidente por corrupção. Comecei a ter mais ainda a realidade do que é o futebol, vivenciar mais de perto.
Agora como técnico no Primavera, Rafael Marques sabe que tem muito a contar para seus atletas por aquilo que passou. Mas com um cuidado.
– Eu evito falar vai: “quando eu jogava, fazia isso”. Não posso de deixar de dar exemplos para eles, mas é um cuidado que ex-jogadores têm que tomar quando vêm para o lado de cá. Porque eu não sei como eles vão receber do lado de lá.
Rafael Marques, técnico do Primavera, em entrevista exclusiva ao ge
Thiago Ferri
Após a primeira experiência à beira do campo, Rafael Marques considera que o resultado foi positivo. Ele evita fazer planos a longo prazo na carreira, mas entende gostou da nova vida.
– Quero como treinador passar o que eu fui, como atleta. Cara a cara, transparente, do bem, alegre. Vou procurar sempre fazer isso. É o que o Rafa quer procurar passar como treinador. E capacitado.
– O Campeonato Paulista foi uma resposta boa para mim. Eles acreditaram no modelo de jogo que eu gosto. É ofensivo, propor jogo. Isso para mim é uma resposta boa. E agora são detalhes, coisas que eu também tenho que aprender – encerrou.
+ Veja mais notícias do Palmeiras
Mais Lidas
🎧 Ouça o podcast ge Palmeiras🎧
+ Assista a tudo do Palmeiras na Globo, sportv e ge geRead More


