Rússia caminha para modelo iraniano de internet: controle estatal e censura
O governo de Vladimir Putin está ampliando o controle sobre a internet no país com uma série de interrupções móveis, bloqueios de plataformas estrangeiras e pressão para adoção de serviços digitais estatais. As medidas, justificadas oficialmente por motivos de segurança em meio à guerra na Ucrânia, levantam preocupações sobre censura, vigilância e isolamento digital da população russa. As informações são do The New York Times.
Nas últimas semanas, moradores de Moscou enfrentaram quedas prolongadas na internet móvel, afetando desde pagamentos digitais até aplicativos de transporte. Em alguns casos, serviços essenciais deixaram de funcionar, forçando a população a recorrer a dinheiro em espécie, mapas físicos e meios de comunicação analógicos.
Especialistas apontam que os apagões não são apenas respostas a ameaças externas, mas também testes de controle interno da rede.
Passageiros viajando em um vagão de metrô no centro de Moscou (Foto: WikiCommons)
Além das interrupções, o Kremlin intensificou o bloqueio de plataformas estrangeiras como Facebook, Instagram, WhatsApp e YouTube. Agora, o foco se volta para o Telegram, utilizado por mais de 100 milhões de russos. O aplicativo se tornou uma das últimas fontes relevantes de informação independente no país, incluindo conteúdos de veículos proibidos pelo governo.
A agência reguladora Roskomnadzor, órgão estatal que monitora a internet na Rússia, já iniciou a redução da velocidade do Telegram e avalia um bloqueio total. Em paralelo, autoridades promovem o uso do MAX, um “superaplicativo” alinhado ao governo e desenvolvido dentro do ecossistema digital russo. A estratégia faz parte de um projeto mais amplo de criação de uma “internet soberana”, com maior controle estatal sobre dados e comunicações.
O impacto das restrições vai além do acesso à informação. Durante os apagões, dispositivos médicos conectados deixaram de funcionar corretamente, enquanto cidadãos relataram dificuldades para se locomover, trabalhar e se comunicar. O cenário também provocou aumento no uso de VPNs, ferramenta utilizada para contornar bloqueios digitais.
Analistas avaliam que a Rússia caminha para um modelo semelhante ao do Irã, com acesso limitado a sites aprovados pelo governo e uma rede interna isolada. A tendência se intensificou após a invasão da Ucrânia em 2022, quando o Kremlin passou a restringir de forma mais agressiva a atuação de empresas de tecnologia ocidentais.
O avanço do controle digital também tem gerado reações internas. Autoridades regionais e até parlamentares aliados ao governo demonstraram preocupação com o possível bloqueio do Telegram, considerado essencial para comunicação civil e militar. Ainda assim, protestos contra as medidas foram barrados, e manifestações públicas seguem restritas.
Criado pelo empresário russo Pavel Durov, o Telegram criticou as ações do Kremlin, classificando-as como um ataque à liberdade de expressão. Até o momento, no entanto, não há sinais de recuo por parte do governo.


