Comissões de agentes drenam mais dinheiro do futebol do que nunca – enquanto clubes sangram
Apenas de 2025 para cá, Bordeaux (França), KV Oostende (Bélgica), Boavista SC (Portugal), SB Vitesse (Holanda) e Brescia Calcio (Itália) foram à falência; o Sheffield Wednesday (Inglaterra) entrou em administração judicial e o Real Bétis (Espanha) entrou em recuperação judicial.
Apesar das muitas iniciativas de regras de controle financeiro lançadas no futebol europeu nas últimas décadas, o cenário segue preocupante. Inúmeros clubes acumulam prejuízos, vivem de socorros recorrentes dos seus proprietários (ou de novas aquisições) e expõem a situação calamitosa de uma indústria bilionária.
A disputa desenfreada pelos melhores talentos, que geram valores vultuosos em transferências e proporcionam uma recorrente inflação salarial – que sempre supera o crescimento das receitas de um ano a outro – compõe a parte principal do problema.
Por outro lado, um segmento relevante, geralmente silencioso e pouco conhecido do público geral, acumula retornos cada vez maiores nos seus ganhos: são os agentes de atletas, que em 2025 desembolsaram nada menos que US$ 1,37 bilhão (€ 1,18 bi).
O dado vem do relatório anual da FIFA, publicado em dezembro passado, sobre as comissões pagas pelos clubes a agentes de jogadores, principais intermediários nas transferências e renovações de contratos. De acordo com o documento, essas comissões tiveram um crescimento de 90% com relação ao ano de 2024.
São retornos baseados em porcentagens de até 15% do valor cheio de uma transferência, mas que também envolvem bônus e luvas em renovações contratuais de um jogador com o clube em que já está empregado.
Na última quarta-feira (1), a The Football Association, federação que rege o futebol inglês, divulgou em seu balanço anual que a Premier League, sozinha, destinou £ 460 milhões (€ 527 mi ou US$ 608 mi) para os agentes de jogadores.
Como a federação inglesa divulga dados em fevereiro de cada ano, contemplando as janelas de verão e inverno, potencialmente o valor divulgado pela FIFA está subvalorizado, porque abarca as transferências de 1 de janeiro a 1 de dezembro de 2025.
Sistema quebrado
Quando comparado o dinheiro destinado pela Premier League para o pagamento de comissões de agentes com o faturamento geral das ligas europeias, os valores estão próximos da Liga Pro da Bélgica e superiores à Premiership da Escócia (não se leva em conta o que os clubes arrecadam com venda de atletas).
Caso se faça o mesmo exercício de comparação com o faturamento dos maiores clubes do planeta, percebe-se que os agentes que atuaram na elite inglesa embolsaram um valor próximo ao da Inter de Milão e superior ao do Borussia Dortmund.
Embora seja um problema antigo, a revelação do crescimento abrupto dos valores destinados a agentes, que quase dobraram de um ano para o outro, causou reações de figuras importantes do futebol global. O mais notório foi Karl-Heinz Rummenigge, ex-presidente e diretor do Bayern de Munique, que definiu a situação como “uma corrida de ratos”, em entrevista à revista alemã Bild.
A leitura de Rummenigge é que o atual sistema está drenando dinheiro do futebol para fora da atividade, lesando os clubes e a própria indústria: “Estamos vendo pagamentos a agentes nas despesas de transferência que são, eu diria, imorais. Esse dinheiro está “perdido” – o dinheiro não está mais circulando, sumiu”, definiu.
O dirigente do Bayern aponta que é necessário atacar o problema a partir de uma nova regulação: “Precisamos de reformas porque as coisas não podem continuar neste estado, dado o rumo que estão tomando financeiramente. Acredito que nós – FIFA, UEFA, consultores, clubes, ligas – precisamos nos sentar e conversar abertamente, honestamente e também de forma correta”.
Clubes protagonizam os espetáculos esportivos que geram produtos midiáticos de grande retorno comercial, mas também são os que arcam com custos de instalações de atuação, de treinamento e de formação de atletas.
Em paralelo, agentes atuam à margem dos desafios de crescimento econômico da atividade e dos custos pesados da produção do futebol profissional, mas auferem retornos cada vez maiores com a pouco arriscada atividade de intermediação de transferências e assinaturas de novos contratos.
Três décadas
Em 2026, completaram-se 30 anos da implementação das mudanças mais significativas do futebol global desde o 15º Congresso da FIFA, realizado em Roma, em 1926 – outra efeméride relevante, agora centenária –, ocasião em que se estabeleceu, pela primeira vez em estatuto, a profissionalização dos jogadores.
No ano de 1996, passou a entrar em curso uma série de transformações da chamada “Lei Bosman”, decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia (tomada no dezembro anterior), que, dentre outras coisas, acabou com o sistema de “passe” e instituiu uma nova dinâmica de contratação de atletas por clubes.
Válido por muitas razões, inclusive quanto aos direitos desses trabalhadores, por garantir maior liberdade de circulação, o novo sistema instituiu que as contratações deveriam se dar por prazos pré-determinados, ficando o atleta livre para assinar com outro clube ao término do contrato.
O “fim do passe”, que no Brasil se consolidou com a Lei Pelé (1998), alterou profundamente a correlação de forças dentro da indústria do futebol. Se por um lado garantiu avanços necessários, passou a submeter os clubes a uma relação desequilibrada frente aos cada vez mais poderosos agentes, que passaram a constituir verdadeiros grupos econômicos em si.
Desde então, pouco se fez de efetivo para reequilibrar essa balança. Os valores do mercado de transferências e do mercado salarial escalonam de forma descontrolada e, sem muitas ferramentas em mãos, clubes seguem acumulando prejuízos, entrando em estado de insolvência ou muitas vezes sendo levados à falência.
Mais do que atacar um segmento que apenas lucra com o futebol, sem se envolver diretamente com os riscos do financiamento das questões mais básicas da atividade, a reflexão por uma nova regulamentação sobre as comissões é necessária pela própria saúde econômica da indústria, pela viabilidade do negócio e pela sobrevivência, especialmente, dos clubes menos poderosos.
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