Bicampeão mundial de boxe morou em caixa d’água, ‘pagou’ para lutar e almeja Guiness Book
Popó e Whindersson se reencontram na luta principal do FMS 8
O apelido traz uma referência famosa, mas a história de quem o carrega é um tanto quanto desconhecida. Luzimar Gonzaga, chamado de Tyson Tigre, viveu nas ruas de Salvador quando menino e encontrou no esporte mais do que um propósito para contrariar os inúmeros obstáculos que enfrentou na vida até se consagrar bicampeão mundial de boxe. Aos 43 anos, ele ainda segue na ativa e busca cravar seu nome no livro dos recordes ao se tornar também um atleta profissional de fisiculturismo.
Os dois títulos mundiais do ex-pugilista foram conquistados há mais de uma década em eventos da World Pugilism Commission (WPC), entidade vista como a “segunda divisão do boxe” conforme ele mesmo explica. Porém, não diminui o tamanho das conquistas, muito menos o orgulho com que o baiano narra sua trajetória de superação.
Tyson Tigre foi campeão mundial dos super médios na WPC pela primeira vez em 2014
Reprodução/Arquivo pessoal/Tyson Tigre
Abandonado pela mãe, Luzimar perdeu o pai na infância e ficou sem teto após experiência traumática morando com a tia. Aos dez anos, o então garoto se viu por conta própria, mas foi vivendo nas ruas que conheceu o que seriam suas válvulas de escape: primeiro a musculação, depois o boxe. Sem casa, ele chegou a morar dentro de uma caixa d’água que servia como depósito da academia improvisada onde começou a treinar.
Perdi meu pai quando tinha 10 anos. Fui morar com uma tia, sofri maus tratos e ela me colocou para morar nas ruas. E nas ruas conheci o boxe.
— Primeiro, conheci a musculação, comecei a treinar, morei dentro de uma caixa d’água abandonada que era onde o pessoal guardava os pesos da academia de musculação fundo de quintal. Lá tinha um rapaz que treinava boxe e começou a me ensinar. Fiquei treinando com ele e, dois anos depois, fui levado a um projeto social onde me inseri de vez no boxe — acrescentou.
Tigre do boxe e batalhador
O que começou por um golpe do destino veio acompanhado de um apelido que imediatamente pegou. Ele venceu cinco lutas logo no primeiro campeonato que disputou e foi comparado ao lendário Mike Tyson. Para ficar mais autêntico, acrescentou o “Tigre” na alcunha.
Luzimar Gonzaga, conhecido como Tyson Tigre, com seus cinturões de boxe
Reprodução/Arquivo pessoal/Tyson Tigre
Ao todo, foram mais de duas décadas dedicadas à modalidade, mas nunca sem esforço. As adversidades sempre o acompanharam de perto e quase interromperam a trajetória mais de uma vez.
Em 2009, assim que começou a morar em São Paulo, ele se viu desamparado novamente após a morte do empresário que o trouxe da Bahia. Sozinho, precisou conciliar o esporte com o bico como segurança de festa e cogitou dar um basta em tudo, mas foi “salvo” por quem viria a ser seu treinador na nova cidade, persistiu e ainda foi coroado.
Em uma dessas noites em que voltava do trabalho, deu de cara com Ari. O encontro foi casual, mas o treinador viu o potencial do boxe em Luzimar e, mesmo com a fuga do lutador na primeira tentativa, se manteve firme em recrutá-lo para a sua academia, a AGB (Associação Guarulhense de Boxe).
O trabalho voluntário de Ari mudou a vida de Tyson Tigre e também fez a diferença para o crescimento da academia. Hoje, a AGB conta com outras filiais e planeja chegar à Grécia, onde o seu treinador principal já esteve para debater a ideia.
“Pagava” para lutar
Ambos os títulos mundiais da WPC foram conquistados nos últimos dois anos da carreira de Tyson Tigre, que competia na categoria supermédio e se aposentou do boxe profissional em dezembro de 2015. Mesmo bicampeão, o baiano nunca conviveu com o glamour nem durante nem após ter encerrado a carreira na nobre arte.
Apesar das conquistas, ele desabafou ao ge que batalhava para conseguir sustento. Luzimar também relatou que a falta de suporte, somada à visão ultrapassada que tinha sobre patrocínios, o travaram de alçar voos mais altos nos ringues embora tivesse mais de 40 vitórias no cartel.
— Faltou apoio. Nessa época, eu tinha em mente que patrocinador era uma instituição de caridade, mas não. É uma via de mão dupla. Achava que todo empresário tinha obrigação de patrocinar um atleta, mas não é assim que funciona. O atleta tem que trazer retorno para a empresa. Hoje tenho uma mente mais aberta — contou Tyson Tigre.
Tyson Tigre teve cartel de 42 vitórias e 11 derrotas no boxe profissional
Reprodução/Arquivo pessoal/Tyson Tigre
Naquele tempo, eu não tinha essa experiência, então acabei desistindo por falta de incentivo. Eu, como campeão mundial, praticamente pagava para poder fazer uma luta.
— Hoje em dia a gente sabe como buscar um patrocinador e transformar em finanças para se desenvolver dentro do esporte, tem outra maturidade, outra cabeça. Infelizmente, não tenho mais idade para dar continuidade à carreira do boxe, já estou com 43 anos, mas continuo treinando como se fosse menino novo ainda — complementou.
Do ringue aos palcos em busca de recorde
Após deixar as luvas de lado, Tyson Tigre decidiu retornar à academia para, desta vez, investir no fisiculturismo. A genética e o físico avantajado ajudaram, ele despontou rapidamente no novo ofício e já acumula mais de 30 títulos amadores no currículo, entre eles de campeão brasileiro e sul-americano. Começou na Classic Physique, categoria do astro Ramon Dino, e depois subiu para a Open Bodybuilding, para atletas acima de 102kg.
Tyson Tigre, bicampeão mundial de boxe, migrou para o fisiculturismo após a aposentadoria como pugilista profissional
Reprodução/Arquivo pessoal/Tyson Tigre
Até então, ele teve como ápice na modalidade o quinto lugar entre novatos no Arnold Brasil de 2019, subindo ao pódio. Ele, inclusive, traçou como objetivo para este ano ganhar o cobiçado Pro Card e conseguir eternizar seu nome no livro dos recordes como o primeiro atleta profissional de boxe e de fisiculturismo.
— Ainda não conquistei o Pro Card, pretendo buscar esse ano. Quero ter a oportunidade de tentar entrar no Guiness Book como o único atleta no mundo profissional no boxe e no fisiculturismo, que são duas modalidades completamente diferentes uma contra a outra. Muita gente fala que o fisiculturismo deixa o boxeador lento e travado, e estou aqui para provar o contrário. Sou conhecido como peso-pesado com movimentação de peso leve.
O bicampeão mundial está agora focado na carreira como fisiculturista, mas nunca largou o boxe e voltará ao ringue em 30 de maio para se apresentar no Fight Music Show 8. Fábio Maldonado, ex-pugilista e lutador de MMA, será seu adversário no evento que trará a revanche entre Popó e Whindersson Nunes.
Tyson Tigre foi campeão no Campeonato brasileiro de fisiculturismo SPFF de 2025
Reprodução/Arquivo pessoal/Tyson Tigre
Tyson Tigre até recusou o primeiro convite da organização porque estava prestes a competir no fisiculturismo. Depois da luta de exibição, que será sua terceira desde a aposentadoria, ele pretende retomar a preparação para subir ao palco no segundo semestre de 2026 e exibir o físico torneado mirando o cartão profissional.
Sem espaço para mágoas
Apesar de tudo o que enfrentou, Tyson Tigre não carrega ressentimentos em sua trajetória. Ele é grato pelo apoio que recebeu da esposa e espera servir como exemplo a quem também encara adversidades desde muito cedo.
— Eu não uso a minha história como vitimista, a uso como uma forma de motivar outras pessoas a acreditarem em si mesmas. É mostrar para todo mundo que, independente da dificuldade que está passando na vida, a gente vai vencer. Muitos me perguntam se hoje tenho alguma mágoa da minha tia, da minha mãe que me abandonou com o meu pai quando eu tinha sete meses… Falo que não, porque precisava passar por isso — comentou.
Tyson Tigre e a esposa, Sueli
Reprodução/Arquivo pessoal/Tyson Tigre
Eu precisava ser abandonado por eles para que me tornasse a pessoa que sou hoje. Talvez, se tivesse sido criado por eles, eu não seria esse cara que sou hoje. Eu não teria tido essa resiliência, essa vontade de vencer, de sempre ser o melhor.
— Graças a Deus hoje estou bem, sou escritor, tenho a minha empresa registrada, sou dono de um estúdio de boxe e musculação. A minha bênção hoje dedico à minha esposa, que acreditou em mim enquanto muita gente não acreditou — finalizou o pugilista bicampeão mundial. geRead More


