Futura liga vai discutir e deliberar temas mais quentes do Brasileirão, como gramado e rebaixamento
Samir Xaud, presidente da CBF, comenta reunião sobre futura liga única
A futura liga do futebol brasileiro vai ter a missão de conduzir estudos e tomar decisões sobre temas mais quentes do Brasileirão. A CBF apresentou longo estudo aos clubes das Séries A e B nesta segunda-feira, no Rio de Janeiro, com previsão de propostas e ajustes ao longo do ano até a criação do estatuto da liga única brasileira até o fim de 2026.
Será a futura liga que decidirá, por exemplo, sobre a qualidade dos gramados e os tipos de campos permitidos para a prática do futebol no Brasileirão. Atualmente, Atlético-MG, Athletico, Botafogo, Chapecoense e Palmeiras usam gramados sintéticos na Série A.
Apresentação de estudo reuniu 40 clubes das Séries A e B do futebol brasileiro
Marcello Neves
Existe um movimento de clubes contra a utilização de gramados sintéticos no Brasileirão. Do outro lado, além da defesa da qualidade do campo artificial, há cobrança à má conservação de outros campos naturais. Uma briga que a CBF nunca levou a fundo e agora transfere aos clubes, numa governança a ser futuramente estabelecida. A ideia é criar padrões para votação e deliberações de temas como esse.
Outro ponto de atenção diz respeito à discussão sobre rebaixamento, com a perspectiva de diminuição de quatro para três rebaixados – o que implicaria diretamente as divisões inferiores. Ou seja, uma diminuição do número de rebaixados da Série A reduziria a quantidade de vagas de acesso na Série B.
A discussão sobre o uso de estrangeiros por partida também pode entrar em pauta – desde 2024, são nove permitidos, antes eram sete. Existem correntes contra a ampliação de estrangeiros, o que poderia provocar subutilização de jogadores da base no futebol brasileiro.
– A CBF entendeu que primeiro precisa organizar a casa, trabalhar as pautas mais importantes e estruturais do futebol para depois iniciar uma discussão em relação à formação de uma liga única. Dentro desses 11 meses de trabalho, trabalhamos nos bastidores e chegou em um momento importante em que os clubes procuraram a CBF, tiveram a iniciativa, e achamos esse timing certo para esse pontapé inicial para a formação da tão sonhada liga única do futebol brasileiro – afirmou Samir Xaud, presidente da CBF.
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Endividamento preocupa
O endividamento foi outro ponto de preocupação levados pela CBF aos clubes. A confederação considera que houve um aumento considerável das receitas nos últimos anos, o que não significou uma melhoria na qualidade do futebol praticado no país.
Internamente, a CBF considera que havia um lugar comum de que um aumento de receitas significaria instantaneamente uma evolução do futebol brasileiro. Nos últimos anos, houve uma grande injeção de investimentos nos clubes, com os altos patrocínio das bets, a formação das SAFs e a antecipação de valores de direitos de transmissão feita pela FFU. Para a entidade, porém, não houve uma melhoria significativa na estrutura do futebol nacional.
Grande parte dos valores que desembarcaram nos clubes foram utilizados para encorpar os elencos com contratações de jogadores e técnicos renomados e aumentos salariais. No diagnóstico da CBF, a mudança deixou o mercado mais caro. Por exemplo, clubes pagam bem mais em folha salarial atualmente do que pagavam por um elenco semelhante anos antes. Ou seja, não há uma mudança de patamar na qualidade dos jogadores e no desempenho.
Também há um consenso na confederação de que o pagamento das dívidas foi deixado em segundo plano. Uma pesquisa apresentada pela entidade apontou que houve um aumento de 147% no endividamento dos clubes entre 2022 e 2024.
A implementação das regras de Fair Play Financeiro, que passaram a ser aplicadas nesta temporada, foi um primeiro passo para mudar o cenário. Agora, a CBF acredita que a criação inclusão de regras de sustentabilidade no guarda-chuva de uma liga única pode ampliar o poder das ações por melhorias na saúde financeira dos clubes.
Estudo vê produto subvalorizado
O diagnóstico feito pela CBF elenca uma série de problemas que ela própria atacou nos últimos anos, entre eles arbitragem, calendário e fair play financeiro. A entidade dividiu a pauta em 10 “dimensões do produto” do futebol brasileiro e comparou com as ligas ingleses, espanholas e alemãs. Com a liga brasileira sempre atrás em todos esses pontos abaixo:
Calendário
Tempo de jogo
Estádio – público e segurança
Estádio – infraestrutura
Transmissão
Comunicação e redes sociais
Marketing
Êxodo de talentos
Governança do Regulamento
Sustentabilidade financeira
O estudo avaliou, por exemplo, o percentual de jogos disputados à luz do dia (com início até as 16h30) nas outras ligas e mostrou que 80% dos jogos do Brasil são noturnos, enquanto na Inglaterra apenas 25% são noturnos. Na La Liga, 60%. E, por fim, 30% na Alemanha. A CBF considera que pode haver impacto no público presente em estádios – também menor na liga brasileira em comparação aos demais. Afinal, pesquisa Nexus recente, feita em parceria com a CBF, apontou que 74% consideram a insegurança ao ir a estádios de futebol.
Hoje, divididos em dois blocos comerciais – a Libra e a FFU -, os clubes têm cronograma sugerido pela CBF para apresentarem sugestões e propostas até o fim de julho e previsão de inaugurar o estatuto da futura liga no fim de dezembro de 2026.
Em resumo, o cronograma indicado é o seguinte:
Maio e julho de 2026: coleta de sugestões e elaboração de propostas de encaminhamento;
Agosto e setembro de 2026: apresentação, ajustes e aprovação das propostas;
Outubro e dezembro de 2026: estruturação das fases – comercialização e estatuto da liga.
A reunião desta tarde de segunda-feira, na Barra da Tijuca, zona sudoeste do Rio de Janeiro, serviu para diagnóstico apresentado pela CBF na comparação com as maiores ligas do mundo – a Premier League, da Inglaterra, a La Liga, da Espanha, e a Bundesliga, da Alemanha.
A CBF considera que o Brasil vive um “gap sistêmico”, atrás dessas ligas em diversos parâmetros definidos, tais como calendário, qualidade e tempo de jogo, estrutura de estádios e para transmissão, comercialização, governança e sustentabilidade financeira.
Os dirigentes da CBF defenderam que antes de discutir a divisão da receita gerada pelo futebol brasileiro – ponto central da maioria das brigas comerciais, como a mais recente do Flamengo com a Libra e os outros clubes dentro da Libra – é preciso aumentar significativamente os valores. Mas é bom lembrar que qualquer novo acordo comercial, quando se trata de vendas de direitos de transmissão, só passaria a valer a partir de 2030. Isto porque os dois blocos comerciais têm contrato até 2029.
Veja a comparação apresentada pela CBF:
A CBF chama atenção para a receita da liga brasileira ser menor do que um terço da Bundesliga, da Alemanha – um país que tem 84 milhões de habitantes e 18 clubes na sua liga principal. Contra um Brasil com 210 milhões de habitantes e 20 clubes na liga principal.
Pesquisa recente da CBF também apontou que cerca de 140 milhões de habitantes brasileiros são torcedores de algum time, com 40 milhões considerados fanáticos por futebol. Ou seja, há produto subvalorizado e com margem de crescimento. geRead More


