Dez demissões em três meses: os técnicos não são os personagens centrais dessa estatística
Veja o pronunciamento de Marcelo Paz após a demissão de Dorival Júnior do Corinthians
Há um roteiro que se repete sempre que um treinador é demitido no Brasil. Os debates colocam em evidência o nome da vítima da vez, posto numa espécie de banco dos réus enquanto acontece o julgamento: “a demissão foi justa?”, é a pergunta feita a debatedores e até à audiência.
É natural que o assunto ganhe espaço nas discussões. Em geral, trata-se da notícia da rodada, do fato que quase sempre amansa uma arquibancada inconformada com uma sequência de resultados ruins. O problema é que, quando analisamos isoladamente cada demissão, quase sempre acharemos argumentos a favor da troca de comando. Porque, salvo raríssimas exceções, a cabeça é oferecida numa bandeja em momentos de baixa, de derrotas seguidas, de protestos e impopularidade.
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Peguemos o caso de Dorival Júnior, campeão da Copa do Brasil, da Supercopa, mas dispensado pelo Corinthians após nove jogos sem vencer, o último deles diante de uma torcida contrariada. Será fácil tratá-lo como o vilão da crise. A questão é que, a cada vez que tratamos uma demissão assim, perdemos o contexto, o cenário mais amplo. Porque quando a queda de um técnico é a décima dentre os 20 clubes da primeira divisão do país, num espaço inferior a três meses de temporada e com apenas dez rodadas jogadas de campeonato nacional, tratar qualquer caso como isolado nos faz perder o mais importante: o personagem central não é o treinador.
Dorival Junior em Juventude x Corinthians
Luiz Erbes/AGIF
Juntas, as dez demissões nos oferecem o alarmante sinal de que existe, no Brasil, uma incapacidade endêmica de analisar processos de trabalho, entender as etapas pelas quais um time de futebol pode passar e, acima de tudo, ter clareza sobre os critérios para escolher um treinador. É difícil acreditar que três meses foram suficientes para que dez clubes chegassem à conclusão de que as escolhas feitas para este 2026 haviam sido um equívoco, fossem elas a contratação de um técnico ou a manutenção do trabalho de 2025. E, mesmo com um erro tão gritante, a ponto de impor uma mudança de rota tão precoce, é raríssimo que um dirigente perca seu cargo também. Ou que, ao menos, venha a público admitir à torcida que cometeu um erro de avaliação que pode custar caro ao departamento de futebol que comanda.
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A frequência com que caem técnicos no Brasil já não pode ser tratada como uma característica cultural, muito menos como um folclore ou uma idiossincrasia brasileira. A estatística de dez demissões em dez rodadas, em menos de três meses, é uma marca da qual ninguém deveria se orgulhar, um número que beira o ridículo.
Um cenário que, aliás, tem outro efeito colateral: duas ou três rodadas depois, estaremos comparando o desempenho estatístico de times, antes e depois de degolarem seus comandantes. E, claro, vamos concluir que o dirigente acertou: porque imediatamente antes da demissão, vivia-se o ponto mais baixo de rendimento, fazendo com que duas ou três vitórias sejam o bastante para melhorar a estatística. Mas a história mostra que, no longo prazo, as variações são mínimas.
Está instalado um sistema que não permite a ninguém saber que ferramentas um treinador tem para contornar uma crise, uma má fase. Afinal, ele cai antes. Porque todo o ambiente do jogo já dá como garantido que o treinador pressionado está submetido a uma contagem regressiva. Todos se afastam, fazem dele uma figura isolada. Mas, quando a demissão acontece, o personagem central é o treinador. Nunca o dirigente que o contratou sem qualquer convicção, dando origem a um trabalho que já nasce fragilizado; tampouco a gestão com dificuldades econômicas para honrar compromissos com o time; muito menos as lesões, os desfalques eventuais.
E quando, por fim, o treinador cai, ele vira o nome sob julgamento, o personagem central da sua própria execução: princípio, meio e fim de todos os problemas de clubes repletos de complicações. Quando caem dez técnicos em três meses, o personagem central não é o treinador: é quem contrata, é quem demite. geRead More


