Sul-Americana: para disputar de verdade, brasileiros precisam superar a soberba
Sempre ele! Danilo marca nos acréscimos e Botafogo vence o Racing
A vitória do Botafogo contra o Racing, um sono 3 a 2 fora de casa, com direito a gol de Danilo nos acréscimos, até agora é o resultado mais expressivo dos clubes brasileiros na Copa Sul-Americana. A se lamentar, apenas o fato de que o Cilindro estava com portões fechados, já que a Conmebol puniu o time de Avellaneda porque sua torcida fez festa demais (mas esta é uma discussão para outro texto).
O resultado (e o empenho) do Alvinegro é um bálsamo para o futebol brasileiro nesses primeiros momentos da competição. Até agora, em 14 jogos, foram seis vitórias, três empates e cinco derrotas. A primeira rodada havia sido especialmente fiasquenta: dos sete clubes do Brasil na competição, apenas o São Paulo venceu (o Boston River, no Centenário). Até aqui, a maioria das vitórias foi conquistada a duras penas, mesmo contra adversários inexpressivos.
Jogadores do Botafogo comemoram gol contra o Racing
AFP
O desempenho na Copa Sul-Americana contrasta fortemente com a performance dos brasileiros na Libertadores. E, sobre isso, obviamente podemos apontar que os participantes da Libertadores são equipes mais qualificadas. Ainda que o Brasil tenha vagas demais (se escapa do rebaixamento, está quase na Sul-Americana), essa percepção também pode ser aplicada aos times de outros países.
A resposta para a diferença do nível de desempenho dos brasileiros entre uma competição e outra parece ser uma fórmula que nunca prospera: além da incompetência, duas xícaras de soberba. Porque a distância financeira para o restante do continente levou os clubes brasileiros a acreditarem que basta entrar em campo, com qualquer formação, para vencer adversários com pouca tradição, desprezando o fato de que projetos bem estruturados podem encurtar o abismo econômico, ao menos em jogos específicos.
Apenas isso explica que o Santos tenha empatado em casa com os reservas do modestíssimo Recoleta, por exemplo. Ou que o Vasco tenha sofrido uma derrota surpreendente para o Audax Italiano, depois de o técnico Renato Portaluppi sequer viajar para acompanhar a estreia do time, e o Grêmio tenha espremido a última gota de suor para vencer o argentino Riestra, clube que compra seu próprio uniforme de grife, mesmo sem ter patrocínio da marca, somente para angariar algum status.
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É possível argumentar que as competições nacionais são mais atrativas em termos financeiros — a premiação para o campeão da Sul-Americana é de R$ 70 milhões, enquanto o vencedor da Copa do Brasil vai faturar R$ 100 milhões. Além disso, numa competição acirrada e traiçoeira como o Brasileiro, é sempre bom empenhar esforços para não flertar com a zona de rebaixamento. Mesmo assim, parece muito desproporcional o tratamento conferido à Copa Sul-Americana, que a despeito dos humores brasileiros é, sim, um dos principais títulos da temporada.
A disparidade em relação aos vizinhos também fez crescer entre os clubes brasileiros uma forte propensão à megalomania. Nada menos que a Libertadores é suficiente. A Copa Sul-Americana passou a representar um mero estorvo, que merece alguma atenção apenas quando, mesmo com tamanho desinteresse, se consegue chegar nas fases finais. A estratégia, bem sabemos, não vem dando certo: nas sete edições desde que se adotou a final única, apenas o Atlético-PR conquistou o título, em 2021.
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Hipnotizados pelos cifrões, muitos clubes brasileiros parecem esquecer de algo que se adquire apenas ao longo do tempo, sem desdenhar de qualquer conquista que ameace surgir no horizonte: cultura vencedora. Condicionar a busca por títulos apenas ao potencial financeiro é uma subversão de propósitos, um desprezo ao que deveria ser objetivo de qualquer clube, de qualquer torcida.
Quando um torcedor vê seu capitão levantando um troféu, o último pensamento a lhe ocorrer é quanto dinheiro vai entrar nos cofres — o dinheiro vai e vem, mas a taça permanece. E, quando olhamos com atenção, os museus dos clubes mais vencedores e respeitados do continente não se resumem apenas a títulos de Libertadores. geRead More


