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Dia dos Povos Indígenas: tribos são inspiração para nomes de clubes e mascotes no futebol brasileiro

Dia dos Povos Indígenas: tribos são inspiração para nomes de clubes e mascotes no futebol brasileiro

Este domingo marca uma data especial para a cultura e a memória do Brasil. O 19 de abril celebra o Dia dos Povos Indígenas, que originalmente habitaram o território brasileiro e sul-americano.
A influência dos índigenas no Brasil está na linguagem, na cultura, na culinária, nos hábitos nativos e não poderia estar fora do futebol, a maior paixão nacional. Por isso, o ge mapeou clubes e mascotes que tiveram como inspiração nomes de tribos que ajudaram a construir a história não só do país, mas também da América do Sul.
Guarazinho é o mascote do Aymorés
SC Aymorés/Divulgação
Além do conhecimento sobre futebol, esta reportagem foi possível através de diversas fontes bibliográficas e canais especializados no assunto (confira a lista ao fim da matéria).
Os tupi (Tupi-MG e Tupi-RS)
Os tupi podem ser considerados o grupo mais importante em termos históricos no continente sul-americano. A tribo teve origem na região da Floresta Amazônica e começou a se expandir em meados de 500 a.C.
De acordo com estudos, a população se concentrava na costa atlântica da América do Sul e, a partir da região Norte do Brasil, começou a se expandir pelas áreas litorâneas do país.
Os tupi, que eram divididos em vários outros grupos, com denominações diferentes (veja isso a seguir) falavam a língua tupi, que mesmo após a colonização portuguesa no Brasil, teve importância na construção da linguagem que conhecemos como português-brasileiro.
Os indígenas deste grupo milenar eram nômades (mudavam de local a depender das condições climáticas do ambiente), procuravam lugares com madeira e onde pudessem desenvolver caça e pesca, atividades essenciais para que pudessem sobreviver.
O Tupi Foot Ball Club, equipe fundada em 26 de maio de 1912, em Juiz de Fora, tem a referência ao povo tupi no hino, em um verso da primeira estrofe:
“É o Tupi, é o galo, o índio, é o coração
Batendo, batendo forte
em compassada vibração”.
Chaveiro da década de 1970 mostra ligação do Tupi Foot Ball Club com a cultura indígena
Leonardo Lima/Memorial Carijó
Alguns objetos históricos demonstram a influência indígena na criação do nome da equipe. O responsável pelo Memorial do clube, Leonardo Lima, cedeu ao ge a imagem de um chaveiro da década 1970, com a inscrição do nome “Tupi FC”, a imagem de um índio e a inscrição “O Índio”, que era o nome de uma revista institucional do clube à época.
Revista institucional do clube, “O Índio” é mais um traço da cultura tupi no Alvinegro de Santa Terezinha
Leonardo Lima/Memorial Carijó
O time juiz-forano tem outra referência indígena em sua história que o ge mostrará mais à frente na reportagem, quando falará sobre os carijó.
Outro Tupi do futebol brasileiro está no Rio Grande do Sul. O Tupi-RS é da cidade gaúcha de Crissiumal. Um dos trechos do hino ressalta a influência da tribo na criação do nome do Rubro-Negro, que não disputa competições oficiais desde 2023.
“Um filho teu não foge à luta
Tem sangue gaúcho na veia
Índio tupi está em campo
Pra vencer outra peleia”
Os tupinambá (Tupynambás)
O grupo indígena, que batiza o time de Juiz de Fora, também no interior de Minas, é um dos vários povos tupi, com denominações distintas, citadas anteriormente.
Aldeias de índios tupinambá podem ser encontradas no Brasil, sobretudo na Bahia, como é o caso desta imagem
Cival Tupinambá/Divulgação
Os tupinambá têm dois significados validados para a origem do nome. Segundo Teodoro Sampaio, o significado da palavra é “Descendente dos primeiros pais”, enquanto para Eduardo Navarro o nome quer dizer “Todos da família dos tupi”. Ambos remetem à descendência deste povo dos antepassados, do mesmo tronco linguístico, a língua tupi.
O traço mais marcante dos povos tupinambá era a antropofagia. Segundo relatos históricos, os indígenas deste grupo comiam a carne humana e acreditavam que a partir deste ritual herdariam as virtudes e a força do oponente morto e devorado. Por isso, estudiosos alertam que essa prática deve ser tratada como antropofagia e não como canibalismo.
Os tupinambá habitavam áreas litorâneas no Brasil, sobretudo entre o Recôncavo Baiano e regiões do Rio de Janeiro. Viviam em malocas e sobreviviam da pesca, da caça e da agricultura, sobretudo de peixes e tubérculos. Tinham como característica marcante a arte da guerra, que também está ligada ao ritual antropofágico de comer a carne do inimigo para herdar as habilidades dele.
O Tupynambás Futebol Clube, fundado em 11 de agosto de 1911, não tem ligação específica à cultura indígena no hino, que foi composto em 2007, pelo músico Daal.
Manto Tupinambá é originalmente feito de penas vermelhas. O Tupynambás tem a mesma cor na camisa do clube
Museu Real de Arte e História da Bélgica/Divulgação
No entanto, o vermelho, cor principal do clube, era utilizado constantemente nas vestes e enfeites usados pelos tupinambá. Um manto com penas vermelhas de guará era parte da cultura deste povo, na Bahia, no século XVI, e foi exposto em mueeus europeus, como contou o g1, em 2021
Os guarani (Guarani-SP, Guarani-MG, Guarany-CE, Guarani-RS, Guarany-RS, Guarani-SC)
O povo guarani (“Os Guerreiros”) é um dos mais importantes na construção da identidade do continente sul-americano, ao lado dos tupi, e é considerado a etnia mais numerosa da América Latina.
O grupo ocupava a região dos rios Paraná e Paraguai, nas regiões oeste do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A tribo se fazia presente nos territórios de Bolívia, Paraguai, Argentina e Brasil.
índios Guarani, na Bahia
Adriana Oliveira/TV Bahia
A língua guarani veio do tronco da língua tupi, pelas referências culturais herdadas. No entanto, inicialmente os guarani não possuíam uma linguagem escrita e se comunicavam através da linguagem oral, passada tradicionalmente de geração para geração.
Eles eram seminômades, viviam da caça, da pesca e da agricultura de subsistência.
Bugre, mascote Guarani
Ari Ferreira/ GloboEsporte.com
A relevância deste povo é tão grande que inspirou diversos clubes a se chamarem Guarani. O principal deles é o Bugre, de Campinas, campeão brasileiro em 1978 e vice em 1986 e 1987.
No hino a referência ao Bugre e à “taba”, palavra de origem tupi-guarani que significa “local onde habita os indígenas”, marcam a importância da tribo no clube paulista.
“Brinco de Ouro, a nossa taba
Construímos com devoção
Nossa família bugrina
Tem raça e tradição
Avante, avante meu Bugre
Com fibra e destemor
A cada nova jornada
Guarani é mais amor”
Além do Bugre campineiro existem outros vários guaranis no Brail. Só no Rio Grande do Sul existem quanto deles: o Guarany Futebol Clube, de Bagé, o Esporte Clube Guarani, de Venâncio Aires, o Grêmio Atlético Guarany, de Garibaldi, e o Guarany Futebol Clube, de Alegrete.
Outro deles está em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. O Guarani-MG, clube fundado em 20 de setembro de 1930, tem algumas referências à tribo. Uma delas é o apelido. Embora o mascote seja o Tamanduá, o time também é conhecido como Bugre, nome dado pelos espanhóis aos indígenas considerados pagãos durante o processo de colonização e catequização. No hino , um trecho faz alusão ao heroísmo e às atividades de subsistência do povo guarani.
“E lá se vão nossos heróis
buscar vitórias para servir,
meu sentimento, meu alimento
coração de Guarani.
Pelo prazer, de te querer
o teu nome é imortal”.
Assim como os tupi, os guarani tiveram importância na construção do idioma português-brasileiro. Esse povo também é subdividido em grupos menores, que eram apelidados pelos espanhóis durante o processo de colonização nos países da América Latina e na região Sul do Brasil, como mostraremos a seguir.
Os aimoré (Aymorés-MG e Aimoré-RS)
Os aimoré faziam parte do grupo dos índios tapuia (conhecidos como “Os outros” ou “Os bárbaros”), grandes inimigos dos grupos tupi na luta por território no Brasil, entre os séculos XVI e XVIII.
Imagem mostra um casal de índios aimoré. Eles eram chamados de botocudos por conta dor adornos que usavam nos lábios e orelhas
Portal Brasiliana Fotográfica/Reprodução
Eles viviam entre o Sul da Bahia, o Espírito Santo e o Vale do Rio Doce, em Minas Gerais e eram conhecidos como botocudos, por usarem um botoque, que era uma espécie de adorno, na região dos lábios ou orelhas.
De forma oficial, o Sport Club Aymorés, clube de Ubá fundado em 27 de abril de 1926, teve o nome criado pelo argentino Luis Feisntein, por causa da marca de uma caixa de fósforos. Porém o fato do nome ser o mesmo da tribo motivou a criação do mascote do clube. “Guarazinho” é um índio que usa botoque na orelha. No hino do Azulão também existe uma referência que liga o clube aos indígenas no seguinte trecho, logo no início da canção.
“Aymorés, de guerreiros gigantes”
Guarazinho é o mascote do Aymorés. Assim como um índio aimoré, usa botoque
SC Aymorés/Divulgação
Segundo relato do escritor português Pero de Magalhães de Gândavo, no livro “Tratado da terra do Brasil – História da Província de Santa Cruz”, de 1576, os aimoré eram grandes, altos, diferentes de outros povos.
— Chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros índios, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são muito altos, não parecem com outros índios da Terra.
Assim como os tupis, que dão nome a times de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, os aimorés também são inspiração para mineiros e gaúchos. Além do Aymorés, equipe de Ubá citada acima, existe o Aimoré-RS, cujo mascote é o Índio Capilé, que é citado no hino da agremiação. O clube é de São Leopoldo e tenta retornar à elite do Estadual.
“Aimoré, Aimoré!
Oh Bravo Índio Capilé
Tuas vitórias nos enchem de glórias
Por ti sempre de pé”.
Os araxá
O grupo dos araxá tem origem guarani e é um dos vários povos desta tribo que foram denominados por europeus após a chegada deles no país.
Eles ocupavam regiões diferentes no Brasil. Boa parte dos araxá vivia na região litorânea do Sul do país, entre onde se localiza a Ilha do Mel, no Paraná, e Laguna, em Santa Catarina. Lá eles eram conhecidos também como carijós (curiosamente o apelido do Tupi Foot Ball Club, do qual falaremos a seguir)
A cidade recebeu o nome de Araxá por conta de parte do território ter sido ocupado pela tribo
Prefeitura de Araxá/Divulgação
No entanto, outra parte considerável do povo araxá vivia na região onde atualmente ficam o Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba justamente na área onde existe a cidade de Araxá e o Araxá Esporte, fundado em 20 de setembro de 1958.
O nome “Araxá” é de origem tupi-guarani, em que “Ara” quer dizer “lugar” e “Chá” significa “Alto, elevado”, em menção a topografia do local. Com isso, a cidade foi batizada em alusão ao grupo indígena, o que se refletiu no nome doo clube.
Os carijó e a relação com o Tupi de Juiz de Fora
Como explicado acima, os araxá também eram conhecidos como carijó. Curiosamente, o Tupi, de Juiz de Fora, tem como mascote o Galo Carijó. No entanto, essa referência não tem a ver com os índios e sim com outras duas questões.
O Galo Carijó é o mascote do Tupi
Reprodução/TV Integração
O nome carijó era o apelido de Antônio Maria, um dos fundadores do Tupi. Além disso, o Galo Carijó tem penas preto e brancas, que são as cores do time de Juiz de Fora.
Índio Condá (mascote da Chapecoense)
A Chapecoense desbravou o futebol brasileiro nas primeiras duas décadas dos anos 2000. A equipe saiu da última divisão nacional, chegou à elite do Brasileirão e ficou marcada pelo acidente aéreo em 2016, tragédia com 71 vítimas fatais.
Índio Condá Mascote Chapecoense homenagem vigília
Diego Madruga
O processo de reconstrução da Chape, que caiu para a Série B e retornou no campo para a Série A em 2026 é digno da coragem do mascote que ostenta. O Índio Condá é uma referência a Vitorino Condá. Ele foi um importante cacique da etnia Kaingang no Século XIX. Líder na luta pela permanência do povo no Oeste de Santa Catarina ele também batiza o estádio da Chapecoense, a Arena Condá.
Xavante (mascote do Brasil de Pelotas-RS)
Outro clube tradicionalíssimo no Sul do país é o Brasil-RS. Reconhecida pela torcida apaixonada, a equipe de Pelotas tem como mascote do Índio Xavante.
Índio Xavante é o mascote do Brasil-RS
GE Brasil, divulgação
Os xavante são considerados como um povo indígena guerreiro e resistente que habita a região leste do Mato Grosso, pertencente à família linguística Jê. Conhecidos pela forte cultura, ocupam o cerrado, ee vivem da caça e colheita.
Pesquisa
Além de conversar com as assessorias dos clubes citados para tirar dúvidas e esclarecer curiosidades históricas, o ge utilizou outras fontes de consulta em canais especializados e sites referentes à cultura dos índios no Brasil.
Fundação Nacional do Índio (Funai)
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
g1
Canal Buenas Ideias (Eduardo Bueno)
Canal Terra Média
Canal do Iuri Freitas
Canal Professora Marilia geRead More