Rafael, do São Paulo, revela ajuda secreta do avô e conta suas histórias de pescador
Rafael revela choro e relata o dia que quis desistir de tudo no futebol
A rua estava toda pintada de verde e amarelo. Bandeiras penduradas nas casas. Ali, no meio de tudo, cada vizinho trazia uma cadeira e sentava em frente a uma única TV de 14 polegadas para assistir ao jogo da Seleção. Essa é minha primeira lembrança relacionada ao futebol.
Isso e um grito que vinha da televisão de tempos em tempos.
– Taffarel! Sai que é sua, Taffarel!
Aquilo ecoava dentro de mim. Taffarel… Rafael… Na época, eu tinha cinco anos e foi ali que tomei uma decisão: queria ser goleiro.
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Só que a minha mãe… Minha mãe não queria, não (risos). Ela não gostava da ideia de ver o filho se jogando no cimento da quadrinha e levando bolada. Só que quando ela via, já era tarde: lá estava eu sendo o goleiro do time. E foi sempre assim.
Ela tinha certa razão em ter medo, sabe? Já quebrei o nariz três vezes, dedo então… Mas faz parte da profissão. Pois é, profissão. Não foi fácil convencê-los que eu podia associar a palavra goleiro à palavra profissão.
Rafael em treino do São Paulo
Rubens Chiri/saopaulofc
É que ninguém nunca jogou bola na minha família. Nem meus pais, nem meus irmãos, nada. Tudo que conquistaram na vida foi na base do estudo, e eles queriam me proteger. Hoje eu sou pai e entendo. Na época, não entendia muito, não. Eu fiquei mais de um ano na orelha do meu pai até conseguir o que queria. Viver do futebol era meu sonho.
O primeiro a perceber isso, até antes de mim, foi meu avô. Escondido do meu pai para não tomar uma bronca, ele arrumou um teste para mim no Tombense, time da cidade onde ele morava. Fui nas férias, fiz três treinos e passei. Pedi ao meu pai para ficar, morar com meu avô, mas ele não deixou.
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Voltei para a minha escolinha e logo depois fui disputar um torneio no Espírito Santo. O Vasco me viu e me fez um convite. Eles ligaram para o meu pai e já pediram a conta dele para enviar o valor da passagem para o Japão, pois iriam disputar um torneio lá e precisavam de mim.
Eu estava do lado do meu pai, só escutando. Aí você imagina: eu, que só conhecia Minas Gerais e Espírito Santo, ir morar no Rio de Janeiro e viajar para o Japão? Loucura! Mas meu pai… Meu pai respondeu:
– Tá louco? Meu filho com 11 anos ir para o Rio de Janeiro morar sozinho? Não.
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Marcos Ribolli
O próximo clube que surgiu foi o Cruzeiro. Na noite anterior à viagem para o teste, eu abri a bíblia em casa e fiz uma oração pedindo ajuda para passar no teste porque era aquilo que eu queria fazer da minha vida. Acho que foi naquela noite que percebi que as coisas estavam ficando sérias e que eu podia, mesmo, unir as palavras goleiro e profissão na minha vida. Eu passei no teste, mas meu pai também não me deixou ficar…
Reunião familiar
O cenário mudaria depois de uma noite em que meus pais se reuniram enquanto eu dormia. Os detalhes, claro, eu só soube depois, mas eles sentaram para discutir: e se o Rafael realmente tiver capacidade de se tornar um jogador profissional e a gente está barrando o sonho dele? Ele pode jogar isso na nossa cara o resto da vida, que não foi jogador por nossa culpa. Temos que dar esse suporte. E aí me deixaram fazer um teste de novo.
E eu joguei na cara deles foi logo no primeiro dia (risos).
– Ih, você demorou muito para vir. Agora já temos cinco goleiros da sua categoria e estamos com dificuldade de mandar um embora. Agora você vai ter que provar muito mais para poder ficar – foi o que me disse o diretor do Cruzeiro quando voltei.
Na época, cada categoria tinha quatro goleiros. Eles já estavam com um a mais. E aí tinha eu. Peguei o telefone e liguei para os meus pais chorando:
– Tá vendo, vocês não me deixaram vir, agora não vou conseguir passar!
Goleiro Rafael, do Cruzeiro
Reprodução/ Sportv
Não era verdade. O novo teste era de uma semana, mas me aprovaram no terceiro dia e já fui relacionado para o jogo seguinte. Era pra passar uma semana em Belo Horizonte e, no fim, já fiquei um mês direto na concentração. Meus pais precisaram ir até lá levar os documentos para minha transferência.
Morar longe de casa com 12 anos não foi fácil. Dá saudade e você acaba perdendo grande parte da sua infância. Acho que fui em umas três festas de 15 anos. A gente perde essa parte de confraternização. Mas eu amadureci muito rápido. Quando voltava para minha cidade, via meus amigos pensando em passar na escola, curtir a vida e brincar, enquanto eu já tinha uma responsabilidade muito grande, um trabalho, um propósito.
É difícil abrir mão da sua infância para ser jogador, mas se hoje eu vivo esse sonho foi graças à criança de 13 anos que teve coragem de enfrentar esses desafios. E eu sou grato a ela.
A primeira crise
Quando eu tinha 14 anos, fui promovido para a categoria de cima e jogava com meninos até dois anos mais velhos. Eu era só o terceiro goleiro, mas o treinador optou por me dar uma chance no intervalo de um amistoso.
Estávamos ganhando de 1 a 0. No meu primeiro lance, o cara chutou, e a bola passou entre as minhas mãos. Gol deles, empate e falha minha. Para o meu desespero, no último lance do jogo, eles conseguiram virar a partida.
Cara, era meu primeiro jogo na categoria, expectativa lá em cima e a frustração pelo desempenho. Saindo de campo, o treinador de goleiros encosta em mim e fala
– O treinador não vai mais confiar em você, coloquei minha mão no fogo para você ter essa oportunidade…
Rafael, goleiro do Cruzeiro
Washington Alves/Light Press
Eu não consegui segurar. Comecei a chorar, fui para o vestiário, tomei banho chorando e achando que era o final da minha carreira. Decidi que queria voltar para casa. Arrumei minhas coisas e ia saindo para a rodoviária, mas na base menor de idade precisava de autorização para sair sozinho.
Entre ligar para o diretor e para o meu pai, escolhi meu pai. Nem falei muito, só pedi para me autorizar porque estava com saudade e queria vê-los. Mas meu pai não caiu nessa.
– Peraí, com essa voz de choro? O que está acontecendo?
Contei chorando e falei: não queria mais jogar, queria voltar para casa e estudar. Meus pais ficaram duas horas e meia comigo no telefone neste dia. Eu estava decidido a desistir. Eles estavam decididos que eu não podia fazer isso.
– Na primeira pedra no seu caminho, na primeira falha, você vai desistir? Isso vai acontecer mais vezes na sua vida. Pessoas dizendo que você não vai conseguir, vai ter o tempo todo. É o momento de ser mais forte, levantar a cabeça e mostrar que eles estão errados. Agora é que você vai ficar. Não vou te liberar e não vou te aceitar em casa. Você vai provar pra esse treinador que você merece jogar. Vai provar que você é diferente.
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Quando eu estava à beira de desistir do futebol, foram eles que me reergueram. Foram e ainda são a base de tudo para que eu pudesse jogar. Ligo para eles depois de cada jogo para saber o que eles acharam. Eles não perdem um. Depois de tanta preocupação quando eu tinha 11 anos, eles fizeram do meu sonho, o sonho deles.
Goleiro Rafael é um dos mais assediados durante a chegada do Cruzeiro a BH
Reprodução / TV Globo Minas
A realização do avô
Meu avô não gostava muito de futebol, talvez por isso ninguém na minha família tenha jogado. Ele só assistia novela e, quando eu comecei com essa história de bola, falava que só veria um jogo meu quando passasse na televisão. Só que naquela época os jogos de base não eram transmitidos. Ele não conseguia me ver jogando no Cruzeiro.
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Depois, ele começou a ter problemas de saúde e faleceu quando eu tinha acabado de subir para o profissional do Cruzeiro.
Muito tempo depois, eu conversava com uma tia que morava com ele e ela me contou algo que eu não soube na época. Em seus últimos dias de vida, ele ficou muito feliz porque pôde me assistir jogar: nós chegamos à final da Copa São Paulo e essa partida em específico era transmitida na TV.
Eu não sabia, mas ainda em vida ele pôde me ver jogar e ser campeão. Saber disso me deixou muito feliz porque foi ele que acreditou no meu sonho quando nem imaginava que aquilo se tornaria o sonho da minha vida.
Rafael, atualmente goleiro do São Paulo, foi destaque do Cruzeiro na final da Copinha de 2007 contra o próprio Tricolor
Reprodução/FPF
Eu fiz mais de 100 jogos pelo Cruzeiro, tive muitos bons momentos, ganhei maturidade para entender que, mesmo quando não jogava, o meu trabalho era importante para o grupo. Aprendi que você estar entre os 11 titulares é uma escolha do treinador, mas o que você é no dia a dia, o que você pode agregar para o todo, é uma escolha sua. Isso que tento passar aos mais jovens.
A depressão e a culpa
Eu tive umas sete reuniões com o Cruzeiro, conversas de todas as maneiras e até mesmo o presidente me falou que o único jeito seria entrando na Justiça. Ele não via possibilidades de me deixar resolver de forma amigável. Tanto que acho que foi o único que fez acordo com o clube depois. Sou muito grato ao Cruzeiro, vivi uma história maravilhosa e guardo com muito carinho. E, então, veio o Atlético.
A rivalidade em Minas Gerais é muito grande. Eu sabia das consequências de trocar o Cruzeiro pelo Atlético, das porradas que ia levar, mas era importante para meu desenvolvimento profissional. Eu estava preparado para a decisão que tomei, mas minha família não estava.
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Eu falava para minha mãe não ver nada, mas sabe como é mãe. Ela via e não aceitava aquilo: me ligava, pedia para contar o que tinha acontecido de verdade, querendo me defender e com raiva daquilo tudo. E eu falava pra ela:
– Mãe, nós sabemos o que aconteceu, mas por mais que explique, temos que entender o contexto, as pessoas estão magoadas, elas não querem entender.
Ela não concordava e, quando vi, tinha entrado em depressão e teve que tomar remédios. Pô, ver minha mãe sofrendo por uma decisão minha… Não era fácil.
Goleiro Rafael em São Paulo x Cruzeiro no Campeonato Brasileiro
Marcos Ribolli
Torcedores, que nem são torcedores, são bandidos, descobriram o telefone da minha esposa, começaram a ameaçar, falar que iam matá-la, a família dela, que sabiam onde eles moravam…
Vejo minha esposa entrando em um quadro de depressão, minha mãe já com depressão, meu pai triste… Foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira porque uma decisão minha tinha afetado muito as pessoas que eu amo. E eu não podia fazer nada. Isso mexeu comigo.
Eu tive que ser forte porque era a única opção que tinha. Forte por mim e forte por eles. Segurar a barra e esperar as coisas melhorarem. O tempo traz conforto e as coisas foram ficando mais tranquilas. Vivi coisas especiais no Atlético, títulos também.
Goleiro Rafael, do Atlético-MG
Bruno Cantini/Atlético-MG
Foi uma fase que me ensinou a ser forte e a superar. Foi de muita aprendizado. Hoje, a gente absorve muito menos tudo que vem de fora.
O sorriso que mudou tudo
A Bruna estava grávida, a gente tinha acabado de mudar de casa em Belo Horizonte, o Atlético tinha recém-renovado meu contrato por mais três anos, o Rodrigo Caetano dizendo que eu não ia sair porque era muito importante para o projeto dele. E aí veio o São Paulo.
Eu estava viajando quando o Fábio, meu empresário, me ligou. Coloquei no alto-falante e ele falou que tinha uma possibilidade de São Paulo. Fiquei feliz pela oportunidade e desliguei o telefone.
Quando eu olho para a Bruna, ela está me encarando e diz:
– Eu nunca vi esse sorriso no seu rosto. Não sei por que, mas você tem que ir para lá.
Eu não tinha percebido o sorriso. Foi ela. Ligo de novo para o Fábio e peço:
– Faz um favor? Não sai de lá sem conseguir fechar esse negócio.
Rafael e o empresário Fábio Mello em sua apresentação no São Paulo
Arquivo Pessoal/Rafael
Foi uma confusão danada, mas deu certo. Agradeço a ele, ao Rodrigo Caetano e ao Atlético, que entenderam que era um pedido pessoal.
Eu fui muito bem recebido no São Paulo. Cheguei com uma responsabilidade muito grande de vestir a camisa que foi do Zetti, do Rogério Ceni e de tantos outros. Mas, ao mesmo tempo, tive o Rui (Costa) e o Muricy que sempre acreditaram em mim. Então, todo aquele nervosismo de chegar ao São Paulo acabou diluído por essa confiança. E fez com que eu quisesse retribuir em campo.
Eu vivo um sonho de vestir essa camisa.
No São Paulo, a pressão é o tempo todo para você ganhar e toda derrota é momento de crise e difícil de gerenciar. Mas não vejo como uma dificuldade. É uma honra.
Vivi tantos momentos mágicos, mas se tivesse que escolher um seria a final da Supercopa por estar com minha família no estádio. Ainda mais da maneira como foi, nos pênaltis e comemorando um título.
Foi aqui que vivi meu ápice de chegar à seleção brasileira e conhecer o cara que me despertou para ser goleiro: Taffarel. Nem nos meus maiores sonhos podia imaginar que isso poderia acontecer na minha vida.
Rafael, goleiro do São Paulo, treina com a Seleção na Inglaterra
Rafael Ribeiro / CBF
Completar 200 jogos com essa camisa só me faz relembrar o quão realizado eu sou aqui. Falo isso de verdade. Eu amo vir aqui treinar, jogar, sou tão grato ao torcedor que sempre depositou confiança em mim. Passamos por muitas coisas nesses 200 jogos e espero passar por muitas mais, muitas conquistas. Agora vamos dobrar a meta! E se chegarmos nos 400, a gente dobra de novo.
Já falei: se o São Paulo quiser um contrato vitalício, minha assinatura eles já têm.
O dono da balança
A cada 15 dias, no máximo, eu preciso ir para minha terapia, que é pescar. Às vezes, quando está corrido, eu treino pela manhã e vou à tarde. Ali, eu me desligo do mundo. Agora ando indo com o Tolói e o Coronel, dois mato-grossenses muito mentirosos. Olha, é cada história (risos).
Eu não conto mentiras, não. Um dia, quando parar de jogar e for levar meus netos para pescar, eu nem penso em contar de futebol para eles. Não… Eu quero mesmo é contar do tamanho dos peixes que eu já peguei!
E é o seguinte: a balança é minha, a régua é minha e o tamanho é meu. Já peguei peixe de uns 60 e poucos quilos. Você tá rindo, aí? Não tá acreditando? Mas eu tô falando a verdade. É que a balança vai até 40kg só, mas daí para frente é meu olho clínico para peixe, mesmo…
Rafael em seu hobbie preferido: a pesca esportiva
Arquivo Pessoal/Rafael
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