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Investigação revela rede global de homens que compartilham vídeos de mulheres dopadas e violentadas

Investigação revela rede global de homens que compartilham vídeos de mulheres dopadas e violentadas

 Apoiadoras agradeceram a Gisèle Pelicot, que disse no tribunal que esperava ajudar outras vítimas.
Reuters via BBC
Uma investigação da CNN expôs a existência de uma rede internacional de homens que compartilham vídeos e fotos de mulheres dopadas, inconscientes ou sedadas, filmadas e violentadas sem saber. O caso, que lembra a história de Gisèle Pelicot e outros episódios recentes na Europa, mostra que os agressores não são figuras excepcionais, mas homens comuns que se organizam em fóruns, grupos privados e sites pornográficos.
O material circula em fóruns, grupos privados e sites pornográficos, onde os participantes compartilham técnicas, incentivam uns aos outros e discutem formas de escapar da justiça. A descoberta reacende o alerta sobre crimes sexuais cometidos dentro de casa, muitas vezes por parceiros íntimos.
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Um dos sites citados é o Motherless, plataforma pornográfica que registrou 62 milhões de visitas apenas no mês de fevereiro. Segundo a CNN, ele abriga mais de vinte mil vídeos de mulheres dormindo ou sedadas, um tipo de conteúdo que acumula centenas de milhares de visualizações. A dimensão do fenômeno levanta a pergunta: quantas mulheres no mundo podem ter sido vítimas sem saber?
A história de Gisèle Pelicot, francesa violentada pelo marido e por dezenas de outros homens, ganhou repercussão internacional justamente por mostrar que os agressores podem ser homens comuns, de qualquer idade ou profissão.
Vídeos em alta no g1
A investigação atual, iniciada pelas jornalistas alemãs Isabell Beer e Isabel Ströh e aprofundada pela CNN, confirma que o caso de Pelicot está longe de ser isolado.
A emissora norte-americana identificou mulheres vítimas desse tipo de abuso em diferentes países. Os jornalistas se infiltraram em grupos de chat onde homens trocam conselhos sobre como dopar parceiras, como filmá-las sem que percebam e como evitar rastros digitais. O anonimato e a sensação de “fraternidade masculina” nesses espaços tornam o sistema difícil de desmontar.
Além dos vídeos, a investigação revelou a existência de canais dedicados exclusivamente a ensinar métodos de dopagem. Um deles, chamado “Zzz”, reúne homens que trocam informações sobre substâncias usadas para “submissão química”, incluindo proporções, modos de administração e horários considerados “mais eficazes”. Em uma das conversas, um homem afirma que “sua mulher não vai notar nada e não vai lembrar de nada”, enquanto oferece líquidos sedativos para venda.
A CNN localizou vítimas em diferentes regiões. Uma delas é Zoe Watts, de Devon, na Inglaterra, que descobriu que o marido, com quem foi casada por dezesseis anos, triturava os soníferos do próprio filho para colocá-los em seu chá, a fim de violentá-la e filmá-la inconsciente. Na Itália, uma mulher identificada como Valentina encontrou vídeos gravados pelo marido, com quem vivia havia vinte anos, nos quais aparecia sendo agredida após ser dopada com soníferos e álcool.
Reação na França e pedido de investigação
Na França, duas associações — a Fondation des Femmes e a M’endors pas, fundada por Caroline Darian, filha de Gisèle Pelicot — anunciaram que pretendem acionar a justiça francesa. Em comunicado, afirmam que os “delitos organizados, dentro de verdadeiras comunidades, incentivam e estruturam a violência”. Elas pedem a abertura de uma investigação preliminar, já que é altamente provável que haja usuários franceses envolvidos e novas vítimas no país.
As organizações também solicitam a intervenção da Arcom, órgão regulador do audiovisual, e da plataforma Pharos, responsável por denúncias de conteúdos ilícitos na internet. O objetivo é aplicar medidas de bloqueio e retirada de resultados de busca relacionados ao Motherless e a outros sites que hospedam vídeos de violações cometidas sob efeito de substâncias químicas.
Para enfrentar essas redes, a Fondation des Femmes e a M’endors pas defendem a criação de uma lei contra a violência sexista e sexual, nos moldes do que uma coalizão feminista reivindica há dois anos. Para elas, o caso expõe a urgência de políticas públicas capazes de lidar com crimes que se organizam no ambiente digital e se alimentam do anonimato.g1 > Mundo Read More