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O paradoxo de Neymar: idolatria continental, futebol sem protagonismo

O paradoxo de Neymar: idolatria continental, futebol sem protagonismo

Entre os mais de vinte mil torcedores que lotaram o Monumental Río Parapití, na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, fronteiriça ao Brasil, havia muitos santistas que partiram em caravana do Mato Grosso do Sul. No entanto, também estava presente um imenso contingente de paraguaios e, talvez, até mesmo curiosos de outras nacionalidades. Sem jamais menosprezar o apelo que tem um clube como o Santos, mas ouso dizer uma obviedade: o massivo deslocamento teve como objetivo maior ver Neymar em campo.
Mesmo em um momento de declínio da sua carreira, Neymar arrasta multidões. É o tipo de comoção que apenas jogadores muito diferentes são capazes de provocar. E o furor não se restringe a adversários pequenos, como o modestíssimo Recoleta: semana passada, o San Lorenzo recebeu o camisa 10 com pompa e reverência, quando o time alvinegro jogou em Buenos Aires. Guardadas todas as proporções, com um sopro da atmosfera que cercava Garrincha, o jogador santista tornou-se La alegría del pueblo, pelo menos além das fronteiras. Ou a alegria possível para o momento.
Parece um conto de fadas que cruzou limites geográficos, narrado em bom portunhol. De certa forma, é mesmo, mas existem outros capítulos que nos devolvem ao cenário que se desenrola em solo brasileiro. Poucas horas antes de ser recebido como ídolo, com direito até a uma HARPA onde ressoavam músicas guaranís, Neymar havia se envolvido em um perrengue com Robinho Jr., de apenas dezoito anos — após o gol marcado contra o Recoleta, ambos comemoraram juntos, e depois do jogo anunciaram às câmeras uma espécie de armistício.
Neymar abraça Robinho Jr. após gol do Santos contra o Recoleta
Divulgação/Conmebol
Não tenho informações suficientes para entrar no mérito de quem é a responsabilidade pelo atrito, ou qual a sua gravidade, mas não me parece razoável que uma referência como Neymar entre em conflito com um atleta ainda adolescente, formado pelo clube. Essa predisposição ao conflito, mesmo em situações banais e com motivações superficiais, acaba minando as percepções sobre o que Neymar ainda pode (e quer) fazer, em um momento em que seu desempenho em nada lembra o que acontecia no apogeu da carreira.
E aqui chegamos ao ponto central: o que acontece dentro do campo. Contra o Recoleta, equipe extremamente frágil, Neymar marcou um gol em que sua qualidade ficou evidente, porque isso permanece, além de ter proporcionado alguns lances de puro virtuosismo — e ser caçado por tamanha ousadia. Mas, apesar da boa atuação em comparação aos seus últimos jogos, pouco depois a realidade mostrou-se impiedosa: arrancadas que não chegaram ao fim e uma chance inacreditável perdida. Nesse ponto, cabe cogitar que não é apenas a capacidade física de Neymar que está comprometida, mas também a execução de jogadas e a tomada de decisões.
Em muitas partidas, Neymar sequer é o melhor jogador do Santos, que corre sérios riscos de não se classificar após sofrer o empate no fim. Com frequência, quem vem sendo responsável pela condução do time e pela criação ofensiva é Benjamín Rollheiser. A discussão sobre a presença de Neymar na convocação final de Carlo Ancelotti se sustenta apenas pela disposição a recordar os tempos de glória, pois todo o contexto atual teria peso para anular o debate.
Comentaristas debatem a sua convocação ideal da seleção para a Copa do Mundo, com o Neymar
A desavença com Robinho Jr. não vai custar a convocação a Neymar, assim como uma atuação brilhante contra o Recoleta também contribuiria muito pouco — e talvez fosse o caso do jogador eleger jogos mais pesados para tentar reverter a ausência na lista de Ancelotti, que já se desenha como tendência. Nesse sentido, o campo é imperioso, e hoje nada do que acontece dentro dele leva a crer que Neymar pode ser um diferencial para a Seleção na Copa do Mundo.
Um homem é um homem e suas circunstâncias. No caso de Neymar e de tudo que o circunda, é praticamente impossível ser indiferente, para o bem e para o mal. Assim mostra a comoção que surge em diferentes pontos do continente quando Neymar entra em campo, e assim também aponta o insistente debate sobre sua convocação, que hoje, pelo que se vê em campo, é o equivalente a investir contra todas as probabilidades, quase como apostar em forças sobrenaturais. geRead More