Arsenal e PSG, finalistas símbolos da era pós-Guardiola no futebol
Há quanto tempo você acompanha futebol? Seja pouco ou muito, todos sabemos que existe um antes e um depois de Pep Guardiola. Estamos vivendo o depois, e Arsenal e Paris Saint-Germain são os símbolos da história que jamais fica estática: evolui, apresenta novas ideias e repagina conceitos antigos.
O Arsenal venceu o Atlético de Madrid por 1 a 0 em Londres, em jogo duro. Já o PSG segurou o empate em 1 a 1 com o Bayern de Munique na Alemanha após um show de gols em Paris.
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O crescimento das equipes se une a outros times históricos que nasceram na esteira após o domínio da filosofia de Pep Guardiola no âmbito de clubes e seleções: de forma simplista, um jogo definido pela posse de bola como forma de domínio ofensivo e até defensivo e pela organização do campo em espaços pré-determinados, com funções específicas.
Arsenal e PSG, assim como times brilhantes da última década como o Liverpool de Klopp, o Real Madrid de Ancelotti e os bons momentos de Chelsea, Inter de Milão e outros, são marcados pelo uso do campo não como algo rígido ou fixo, mas pela flexibilidade total, seja no ataque ou na defesa.
Mikel Arteta e Luis Enrique fazem a final da Liga dos Campeões
Jean Catuffe/Getty Images
Times mutantes em sua identidade, equipes que se organizam em torno de muitas ideias e não mais de uma só (ou de suas variações).
O trabalho impressionante (e ainda sem títulos, mas consistente) de Arteta no Arsenal bebe muito do jogo das posições de Pep ao colocar Saka e Trossard como pontas bem abertos no ataque. Eles cumprem aquele velho papel de dar amplitude ao campo. Isso até a página um. O resto do time, e os dois atacantes, bagunçam posições e se movem de acordo com o espaço, com a bola e com o adversário, tudo para se ajustar ao momento.
Ben White, contratação caríssima e criticada na época, joga em alto nível pela direita: defende como lateral e apoia como meia no ataque. O Arsenal é extremamente compacto quando ataca e os zagueiros jogam quase como camisas 10, a exemplo do que Léo Pereira faz bem no Flamengo, e convenhamos, virou quase regra no futebol.
Arsenal: ataque compacto e mobilidade para criar chances de gol
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O lance do gol que definiu a volta do Arsenal a uma final veio assim: passe de Saliba para Gyökeres infiltrar nas costas da defesa e puxar a jogada que Saka conclui. O sueco é um centroavante que cumpre o papel de nove, sabe sair da área, abre espaços e dá assistências. Dembélé, Mbappé e Haaland, todos combinam características e mudam conforme o jogo ou o adversário. Sintoma de um futebol cada vez mais diverso.
Lance do gol: zagueiro que dá passe ao atacante e campo que parece ter 30 metros
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O PSG combina tudo o que o Arsenal tem com uma marcação por pressão que faz pensar: “como eles não se cansam?”.
Poucas vezes nos últimos anos vimos um time tão sufocante e energético, a ponto de passar 90 minutos subindo marcação no Bayern de Munique, na Alemanha! Não existe moleza: todos sobem, sufocam, pressionam. Foi assim que a Inter de Milão caiu na armadilha e tantos outros times foram maltratados pelo finalista de tudo o que disputou na temporada.
A marcação sufocante e constante do PSG é de impressionar qualquer um
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É a obra-prima de Luis Enrique. Aqui, um adendo: veja o documentário do treinador em streaming. É uma aula de gestão de tempo, de pessoas e mostra que a energia de Luis é realmente verdadeira.
Com a bola, o PSG usa muito do jogo de Guardiola, mas com o pé pisado no acelerador. O lance do gol é um bom exemplo: saída de três, o time todo espalhado nos espaços como manda o manual. Até Khvicha Kvaratskhelia buscar a bola lá atrás, tocar rápido e sair com metade do campo livre para cruzar e fazer a assistência.
Meia, volante, atacante… o ponto de desequilíbrio do PSG
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Antes de mais nada, esse texto não está falando que Guardiola está vivendo um ocaso na carreira. Nada disso. Ele continua no topo e evoluiu seus dogmas: já venceu um Campeonato Inglês com Ederson dando chutão para Gabriel Jesus fazer casquinha, já teve De Bruyne fazendo mil coisas em campo, já montou e remontou seu time.
O verdadeiro recado é que a resposta gerada para superar Pep (e tudo o que ele representa) é uma realidade.
Se antes todo mundo buscava minimizar o caos com uma ideia muito bem definida ou dois jogadores bem abertos como válvulas de escape, bem, tudo isso continua hoje. Mas não há mais a busca pelo controle.
Os melhores times do momento são marcados por um forte equilíbrio mental para buscar imposição em todos os momentos. É um futebol regido pela imposição, não pelo controle. Pelo ataque, não pelo domínio da posse.
Mikel Arteta e Pep Guardiola se encontram antes de Manchester City x Arsenal na Premier League
David Price/Arsenal FC via Getty Images
Voltemos à pergunta inicial: há quanto tempo você acompanha futebol?
Você pode ser da turma que tem como referência Zico e o Flamengo da década de 1980 ou o Telê de São Paulo. Pode ter idolatrado o Brasil de 2006 e Ronaldinho (“com mais tempo no auge, ele seria o melhor da história”, quem nunca?). Pode ter brigado para jogar com Messi ou Cristiano Ronaldo no videogame. Ou pode ter começado agora e aprendido a temer Ancelotti e o Real Madrid.
Seja lá sua idade, geração ou referências, o que vemos agora comprova o que Karl Marx disse sobre qualquer fenômeno humano: a história é cíclica. Cada geração encontra uma resposta para a geração anterior. Essa resposta passa a ser dominante e gera novos dilemas para o futuro. E tudo se repete novamente, como tragédia ou como farsa.
Pois o presente é o da resposta, em campo e no jogo, à influência de Pep.
Como é bom gostar de futebol, aqui e agora. E certamente no futuro.
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