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Hortência revela conselho de Pelé e lembra volta às quadras após ser mãe: “Hoje, talvez, seria cancelada”

Hortência revela conselho de Pelé e lembra volta às quadras após ser mãe: “Hoje, talvez, seria cancelada”

Ao Abre Aspas, Hortência fala sobre maternidade, medalhas, Magic Paula, Pelé e Senna
O ponto final de uma carreira vitoriosa no esporte pode significar o início de uma nova vida. Literalmente. Para não interromperem a carreira, muitas atletas colocam em prática o plano da maternidade só depois de se aposentarem do desporto. Foi o que fez Hortência Marcari, Rainha do Basquete, quando deu à luz João Victor Oliva, em 2 de fevereiro de 1996, após se retirar das quadras. A pausa, no entanto, durou pouco: Hortência retornou à ativa apenas cinco meses depois, nas Olimpíadas de Atlanta 1996, com um “empurrãozinho” de Pelé, seu padrinho de casamento.
Em entrevista ao quadro “Abre Aspas”, do ge, Hortência conta que o Rei do Futebol a incentivou a buscar sua primeira medalha olímpica, sonho fracassado quatro anos antes, em Barcelona, quando a seleção feminina de basquete se despediu da competição em sétimo lugar.
— Eu comecei a pensar: “Não tenho medalha olímpica, o time está bem pronto. Já sou mãe. E se elas ganharem uma medalha e eu não? Não vou me perdoar. Quero estar lá”. Ainda bem que eu tomei essa decisão. O Pelé foi meu padrinho de casamento. Eu o encontrei na época, falei sobre a minha dúvida, e ele disse: “Vai, menina. Vai lá, vai ser feliz”. Ele me ajudou muito a tomar a decisão.
Hortência ganhou a medalha de prata há 30 anos
André Durão
Cinco meses depois, Hortência, que levou o filho João Victor Oliva para os Jogos de Atlanta, conquistou a medalha de prata, a primeira do Brasil no basquete feminino. Ela garante que ficou em paz com a decisão de retomar a carreira, enquanto cuidava de um recém-nascido.
— Nunca tive culpa. Hoje, talvez, eu seria cancelada, porque tirei o João Victor do peito com um mês de vida. Não podia treinar com o peito cheio de leite. (…) É tomar a decisão e olhar para frente, não para trás. Não pode se preocupar com o que os outros vão falar, porque é a sua vida. O meu medo era não conseguir jogar direito. Não fiquei 100% em forma, cheguei a uns 80%. Mas eu estava lá e ajudei minha equipe a ganhar uma medalha. Eu tenho uma medalha olímpica. Quantas pessoas no mundo não queriam isso? — indagou.
Bem antes da consagração, em 1988, Hortência rompeu mais uma barreira ao estampar a capa da revista masculina “Playboy”, espaço que não era ocupado por desportistas. A Rainha explica que, à época, o basquete era considerado “esporte de homem” e posar nua a ajudou a mostrar que “atleta tinha corpo bonito”.
— Naquela época, jogar basquete ainda era coisa de homem. Não fui a primeira atleta a ser convidada, mas fui a primeira que aceitei. Também quis mostrar que atleta tinha corpo bonito. E também pelo dinheiro, porque não sou trouxa (risos).
Hortência levou o filho recém-nascido para Atlanta 1996
André Durão
Hortência ainda fala sobre a rivalidade — e parceria — com Magic Paula, reflete sobre pressão estética na atualidade, se diverte com o veto a Fidel Castro no vestiário dos Jogos Pan-Americanos de 1991, elege o maior jogo da sua trajetória e guarda com orgulho um presente dado por Ayrton Senna.
Ficha Técnica
Nome: Hortência de Fátima Marcari

Idade: 66 anos (23 de setembro de 1959)

Apelido: Rainha do Basquete

Principais títulos com a seleção: Medalha de Prata (Olimpíadas de Atlanta 1996), Campeã Mundial em 1994 (Austrália), Ouro nos Jogos Pan-Americanos de Havana 1991, Prata no Pan de Indianápolis 1987 e Bronze no Pan de Caracas 1983
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Abre Aspas: Hortência
Como surgiu esse apelido de Rainha? Foi um peso para você?
— Nas Olimpíadas de Los Angeles, me ligaram falando que queriam uma entrevista comigo para o livro das Olimpíadas. Eu falei assim: “Tudo bem. Mas eu não sei se vou. Só vamos ficar sabendo (da classificação) um mês e meio antes”. Quiseram a matéria. Aonde eu ia eles iam atrás. O Brasil não se classificou, mas entrou uma matéria de três páginas falando sobre a minha história com o título “The Queen”. Foi aí que a “Rainha” começou. Eu amo, adoro ser chamada de Rainha do Basquete, mas isso não pesou absolutamente nada em cima de mim. Eu sei quem sou, o que preciso fazer. Ter esse apelido não me faria jogar nem mais, nem menos. Tinha que continuar a vida como sempre levei. É legal o apelido? É legal. Mas não afetou em nada a minha vida, e não é todo mundo que me chama de Rainha.
Como é ser um expoente do basquete em um país que valoriza o futebol acima de tudo?
— O povo brasileiro gosta de título, de medalha. O basquete não trazia muito isso. Quando entrou a minha geração, começamos a mostrar o basquete feminino na televisão, a TV Globo foi muito importante para isso. Existia aquela guerrinha, a rivalidade entre Hortência e Paula. Uns gostavam da Paula, outros de mim. Fomos aparecendo na televisão. Quando começamos a ganhar títulos, fomos campeãs pan-americanas, mundiais e fizemos a final olímpica, o basquete feminino ficou muito em evidência. Eu gosto de ser exemplo para as pessoas, principalmente para as crianças. Estou há 30 anos fora da quadra, não jogo mais. Infelizmente não tinha internet naquela época, hoje eu seria muito maior. O mundo está precisando de exemplos para as pessoas poderem seguir. Eu fico feliz de ter tido crianças querendo ser igual a mim. Eu gosto, é legal (risos).
Hortência disputou o número 4 da seleção com Magic Paula
André Durão
O que permitiu a formação de Hortência e Paula no passado e hoje em dia não existe mais?
— Quando não tem uma gestão muito eficiente, ficamos torcendo para aparecer alguém. Como apareceu o Pelé? O Ayrton Senna? A Paula e eu simplesmente aparecemos. Nossa vontade de disputa era muito grande e foi passando para o público. Não podemos esperar surgir um grande ídolo, temos que fazer aparecer, dar estrutura para que ele apareça, dar conhecimento para que essa pessoa aconteça. Pode ser que exista essa pessoa, mas ela não tem a estrutura para florescer. Às vezes, o dom está ali, mas como vai lapidar? Tem que ter uma estrutura. No caso da Paula e da Hortência, não foi gestão. As meninas que estavam naquele momento fizeram o basquete feminino aparecer.
Vamos falar sobre a Paula, sua rival na disputa por clubes e companheira de seleção brasileira. Eram sentimentos misturados em relação a ela?
— Tudo que acontecia entre a família, os torcedores, nunca afetou a admiração que sempre senti por ela. Eu fiz uma coisa que poucas pessoas podem entender: trouxe meu adversário para o meu dia a dia. Quem me motivava nos treinos? Aquele sofrimento, falar “não” para um monte de coisas, não ir nas festas… Eu trouxe ela para me motivar. Tem que treinar porque tem que ganhar da Paula. Enxergava a minha concorrente como um grande motivador para o meu dia a dia, para superar as dificuldades, as lesões, o cansaço. De repente, você é convocado para a seleção brasileira e o seu concorrente, que não é seu inimigo, está lá para jogar com você, passar a bola para você. Era muito louco isso (risos), você tinha que virar a chave. Qual é o sentimento que tenho pela minha grande adversária dos 22 anos em que joguei basquete? Um sentimento de gratidão, não é de inimizade. Foi a pessoa mais importante da minha carreira, graças a ela sou o que sou. Treinei a vida toda para ganhar dela. Como posso definir esse sentimento? Como posso falar dessa pessoa que me tornou o que eu sou dentro da minha profissão? As pessoas, às vezes, veem adversário como inimigo, seja numa empresa, na família. Traga para o seu dia, eu fiz isso há 50 anos quando conheci a Paula.
Havia dois grupos na seleção, um que jogava com você e outro com a Paula. O que vocês fizeram para uni-los?
— Quando entendemos que nós éramos importantes uma para a outra… A Paula e eu éramos líderes dentro de quadra. E, quando isso acontece, você faz a cabeça das outras. Essa liderança era para que a gente ganhasse. Com o decorrer do tempo, fomos construindo essa liderança, essa admiração das meninas em volta da gente. Colocamos na cabeça delas que o mais importante era o trabalho em equipe, o resultado. Voltava de Pré-Olímpico, de Mundial, com a Paula como melhor jogadora, eu como cestinha… E o título? Não vinha. Quando entendemos que o conjunto era importante, começamos a ganhar títulos. A entrada da Janeth, da Alessandra, da Helen, também foi muito importante para a gente. Essa geraçãozinha dentro da nossa, que nos ajudou muito a ganhar. A Paula era melhor na linha dos três pontos. Por que eu passo a bola para ela? Porque eu quero que ela faça a cesta para ganharmos o jogo. Esse entendimento demorou pela nossa falta de experiência, pela nossa juventude. Quando o entendimento veio, começamos a ganhar.
Você lembra quando foi a primeira vez que vivenciou essa situação, de olhar para o lado e ver sua “adversária” sendo sua amiga na seleção?
— Na primeira seleção brasileira, tivemos um embate por causa do número. A Paula é número quatro, e eu também sou. Quem você viu na vida gostar do número quatro (risos)? Gostam do 10, do nove, do sete… do quatro? Foram distribuir as camisas. Quem quer o número quatro? A Paula e eu levantamos a mão. Pô, começou aí a “discussão” (risos). O técnico falou: “Alguém vai abrir mão?”. Não. Ganhei no par ou ímpar. Ali foi a primeira coisa… Sabe quando você olha para uma pessoa com admiração? Ela era muito boa jogadora. Eu sempre tratei todo mundo igual.
Hoje como é a sua relação com a Paula e com as outras meninas da seleção?
— Temos dois grupos de WhatsApp, um das campeãs mundiais e outra das vice-campeãs olímpicas. Não é sempre que nos reunimos, mas estamos nos comunicando, não nos separamos. A única que morreu foi a Ruth, sentimos para caramba na época. Estamos sempre trocando ideias, convidando para aniversário, jantar. Você não pode conviver com as pessoas por 20 anos e apagá-las. Você pode não conviver no dia a dia, cada uma tem uma vida diferente da outra, várias vibes. O esquecimento, jamais. Nada melhor do que um grupo de WhatsApp, porque uma coloca uma coisa ali, uma ideia, uma ajuda, é muito legal. Nós não nos separamos. Quando nos aposentamos, cada uma foi para o seu canto. A Paula pensa diferente de mim em relação ao pós-carreira. Eu fui ser uma coisa, ela foi ser outra. Tudo bem, são escolhas.
O ponto de partida para um período vitorioso no basquete feminino foi o Pan de 1991. O que vem à cabeça ao falar sobre a conquista da medalha de ouro em Havana?
— O primeiro jogo seria contra o México e deu W.O. A estreia, então, foi contra os Estados Unidos, e nós ganhamos. Marcou muito. Foi bom para a equipe. Fomos para a final contra Cuba dentro de Cuba. Um dia antes, o Fidel Castro tinha brincado na imprensa de que sabia como ganhar do Brasil porque tinha sido jogador de basquete. Ele tentou entrar no aquecimento para falar com a gente, e a Maria Helena (técnica do Brasil) não deixou, vetou. Quando acabou o jogo, foi o momento mais marcante, que todo mundo fala e está na cabeça do brasileiro. O Fidel se recusa a dar a medalha pra mim e para a Paula em uma brincadeira, tirou a gente do pódio. Em quadra, a gente estava muito concentrada. Você enxerga quando um time está preparado pela atitude das atletas no dia a dia, todo mundo fazendo tudo ao mesmo tempo, pensando juntos. A equipe estava pronta, sentia isso no aquecimento. O grau de conhecimento que tínhamos uma das outras era tão grande que eu via quando as meninas estavam bem ou avoadas. Às vezes, tinha que dar uma chamada: “ô, desce aqui para a Terra”. No aquecimento eu já começava: “Paula, dá uma chamada ali na menina”.
Hortência e Magic Paula conversam com Fidel Castro no pódio de Havana 1991
Arquivo pessoal
Por que o Fidel Castro queria encontrar vocês antes da final?
— Ele quis atrapalhar o aquecimento, desconcentrar a equipe, é uma tática. Iríamos parar o aquecimento, ele cumprimentaria a equipe. A Maria Helena, sabiamente, não deixou. Ela falou: “Aqui, não” (risos). E está certa. Estávamos focadas, e aí para e cumprimenta o Fidel? Cumprimenta depois. E foi o que aconteceu. Imagina parar o aquecimento para isso. Não é que não queríamos cumprimentá-lo, não queríamos nos desconcentrar. Tática de guerra (risos).
A Vila Olímpica tem muita coisa a oferecer. Você gostava de aproveitar esse ambiente?
— Não. Eu sempre achei que a Vila Olímpica é o lugar que mais distrai o atleta. Alguns vão para se divertir, e outros vão para ganhar medalha. Se não tiver o treinador, o diretor, as meninas focadas, é um problema. Alimentação, diversão no dia a dia, os homens, as mulheres… é difícil. Você senta para almoçar, e do teu lado senta um cara fo**. Você não pode se distrair, o time tem que estar fechado. A Vila Olímpica é o lugar em que você precisa tomar cuidado para não sair do seu caminho.
Você ficava atrás das suas colegas para que elas encarassem a Vila da mesma forma que você, a líder da seleção?
— Na primeira edição de Olimpíadas, não deu muito certo, não (risos). Eram dois apartamentos, divididos. A gente falava: “Cadê fulana de tal?”. Você não é dona das meninas. Na segunda edição, depois de tomar uma porrada na primeira, a gente entendeu. Na Vila Olímpica é duro, se não tiver muito focada no seu objetivo, você se distrai.
— Teve um caso que mostra como estávamos focadas em Atlanta. Estávamos sentadas, todas as jogadoras, dois dias antes da final, e entra o Bill Clinton (presidente dos Estados Unidos na época) com a seleção feminina de basquete. O treinador e o assistente técnico foram cumprimentá-lo. Ficamos vendo o burburinho. Aquilo não afetou a gente. Ficamos sentadas, concentradas. Isso demonstra o grau de foco, de sinergia. Nossa equipe sabia da importância de estar ali. Foi meu último jogo, nunca mais entrei em uma quadra, nem para brincar.
No Mundial de 1994, vocês passaram por altos e baixos, foram criticadas pela imprensa, mas levaram o título. Lembra de alguma história marcante de bastidor da competição?
— Quando a crítica me cabe, eu recebo. Quando não me cabe, eu não recebo. Eu sei muito bem quem eu sou, o meu desempenho, sei muito bem o que eu poderia ter feito quando acaba um jogo. Às vezes, uma derrota nos faz muito bem, porque dá tempo de corrigir dentro de uma competição longa. Nesse Mundial, perdemos para a China, de quem nós ganharíamos na final. Tivemos estrutura, equilíbrio mental para passar por aquilo. A vida é feita de altos e baixos.
— O ano de 1994 foi estranho e diferente. O Ayrton Senna morreu em maio. Em 12 de junho, Dia dos Namorados, fomos campeãs. Em julho, era a Copa do Mundo de futebol. Fomos desacreditadas para o Mundial, o que foi bom. A cobrança foi menor, o povo estava voltado para o futebol. Não tinha uma televisão, tinha um repórter só lá. Fomos passando de fase e, antes da decisão contra a China, no vestiário, depois de vencer os Estados Unidos, que para nós era uma final, a Paula falou: “Já que estamos aqui, vamos ganhar?”. Foi essa a frase. Fomos para a quadra e ganhamos.
Qual é o Calcanhar de Aquiles da Hortência?
— Perder. Perder o jogo é meu Calcanhar de Aquiles. Não é fácil ser o que fui ou o que a Paula foi. A cobrança era cruel. A torcida, a cobrança… Hoje o que está em voga é a pressão, o trabalho mental do atleta. Teve uma época em que eu estava muito mal fisicamente. Peso 61kg até hoje, mas fui parar em 54kg, de tanto que treinava, viajava, jogava, lidava com a responsabilidade de fazer 50 pontos para não perder o jogo. Não é fácil. Quando você escolhe uma profissão, tem o ônus e o bônus. O atleta tem isso, vai estar machucado, com dor, prótese no joelho. Estava na minha personalidade segurar pressão, cobrança. A torcida xingando, eu adorava. O ginásio vazio era a pior coisa que existia. Pode cobrar, gritar, xingar ou aplaudir, não importa, o importante é jogar para alguém. Essa carcaça dura eu criei com o tempo. Não é fácil ser atleta, ser televisionado para o mundo todo, acertar um lance livre. Nessa época, eu estava com estafa mental e tinha que jogar. Como controla isso? Você tem que jogar, senão seu time perde, mas não está bem.
— Chegou uma época em que eu não conseguia tirar o meu tênis. Eu chorava. Acabava o treino, ia para o departamento médico, e o fisioterapeuta tirava para mim. Olha que loucura! Eu não conseguia tirar meu tênis. “Ah, vou tirar um mês para fazer minha higiene mental”. E o time perde? É doido isso. Jamais deixei minhas amigas na mão, mesmo estando doente. Eu me superava e fazia meus 30, 40 ou 50 pontos. Como explica isso? Eu tenho esse controle mental até hoje. Não tinha essa história de empoderamento da mulher, marketing esportivo, coach, mentor. Nós tivemos, na seleção brasileira, um psicólogo. Foi só uma passagem, mas importante. Não tínhamos o entendimento dessa ajuda. Naquele tempo, treinávamos até a exaustão, até vomitar em quadra. Você entrava em forma quando ultrapassava o seu limite. Jogávamos em quadra de taco, dura, com tênis All Star. Nos apoiávamos umas nas outras, treinando.
Hortência disputou duas edições dos Jogos Olímpicos
André Durão
De que forma a vaidade esteve presente na sua personalidade?
— O atleta não pode ser muito vaidoso. Naquela época, eu só treinava e dormia. Não dava para me arrumar, me maquiar. Quando acabava o jogo, eu estava com meu rabinho (de cavalo) aqui embaixo, de tanto tomar pancada. Você estava ali no jogo, suada, tensa, e vinha um repórter fazer entrevista. Você não estava ali bonitona. Então, a minha vaidade era ser reconhecida, elogiada pelo meu trabalho. Agora sim eu posso me arrumar, passar uma maquiagem, ajeitar o meu cabelo, procurar uma roupa bonitinha. Eu comecei a me preocupar um pouco mais quando conheci o pai dos meus filhos (o empresário José Victor Oliva). Ele era da noite, dava festas, estava na alta sociedade. Eu tinha que me apresentar bem perto dele. Aos 30 anos, quando eu me casei, comecei a pensar mais na minha imagem, mas, até então, eu só pensava na imagem de dentro da quadra, jogando bem, fazendo cesta, ganhando jogo. Até hoje, eu não tiro foto com bebida na minha mão. Às vezes, estou tomando um vinho, alguma coisa. Quer tirar uma foto? Eu deixo de lado, porque não quero passar essa imagem. Bebo socialmente? Sim. Depois que parei de jogar, me permiti.
Hortência comprou apartamento com o cachê da revista Playboy
André Durão
Em 1988, surgiu o convite para estrelar um ensaio na revista “Playboy”. O que te levou a aceitar esse trabalho?
— O desafio de ser a primeira esportista a posar para a “Playboy” no Brasil. A revista brasileira era diferente das outras. Tinha uma entrevista com o Armando Nogueira (jornalista) na minha “Playboy”. Então, era uma revista diferente. Naquela época, jogar basquete ainda era coisa de homem. Não fui a primeira atleta a ser convidada, mas fui a primeira que aceitei. Também quis mostrar que atleta tinha corpo bonito. E também pelo dinheiro, porque não sou trouxa (risos).
O que você fez com o cachê?
— Com o dinheiro, eu comprei um apartamento, um por andar, lá no Morumbi. E o que aconteceu comigo depois que posei para a “Playboy”? Fui campeã pan-americana, mundial e vice olímpica. Por quê? Porque não me afetou em absolutamente nada. Fiz o que tinha que fazer e fui para a quadra. Tem muita gente que se perde na fama, no dinheiro, no poder. Eu nunca me perdi. Continuei sendo a mesma menina de sempre, com os mesmos pensamentos. O mais importante para mim era dentro da quadra. A “Playboy” foi só um trabalho. Muita gente no esporte se perde, não segura a fama, o dinheiro.
Como se vê diante das pressões estéticas dos tempos atuais?
—A pressão é minha mesmo. Sou a favor de procedimentos. Só não quero mudar a minha feição. Tenho o mesmo nariz, a mesma boca. Só faço botox. Gosto de ser de uma maneira mais natural. Não deixo meu cabelo branco, porque me envelhece muito. Não faço muitos procedimentos, mas não sou contra. Só quero olhar no espelho e ver a Hortência ali. Coloquei peito, porque eu brinco que tinha um ovo cozido, mas, depois que fui mãe, virou um ovo frito (risos). Mas é tudo muito natural. (…) Não é fácil se olhar e ver que você não é mais aquela pessoa. Mas aceita que dói menos. Não tenho vergonha de falar a minha idade. Algumas pessoas às vezes me param e falam: “Olha, a Hortência, do vôlei”. Eu não corrijo. O mais importante não é a modalidade, é saberem quem sou. Não me ofendo.
Foi difícil parar de jogar para ser mãe? De que forma essas paixões se encaixam na sua vida?
— São dois momentos diferentes. Você precisa ter prioridades. Mesmo depois de casar, até os 36 anos, priorizei o basquete. Quando eu fui campeã do mundo, pensei que estava no momento de virar mãe. Terminei minha carreira e, no dia da entrevista do anúncio da aposentadoria, eu disse que estava grávida. Eu tive o João Victor, e começou aquela história de voltar para jogar as Olimpíadas. Voltei, e foi difícil para caramba, porque o João nasceu em fevereiro, e eu estava disputando a final das Olimpíadas em julho. Meu filho tinha cinco meses. Depois dos Jogos, parei de vez e engravidei do Antônio. Precisamos ter o nosso planejamento muito claro. Não dá para fazer tudo ao mesmo tempo. Encerrei o ciclo no basquete para iniciar outro. Quis me dedicar 100% à minha família.
Ao Abre Aspas, Hortência fala sobre a maternidade na preparação para Olimpíadas de 1996
Por que decidiu disputar as Olimpíadas de Atlanta meses depois de se tornar mãe?
— Eu comecei a pensar: “não tenho medalha olímpica, o time está bem pronto. Já sou mãe. E se elas ganharem uma medalha e eu não? Não vou me perdoar. Quero estar lá”. Ainda bem que eu tomei essa decisão. O Pelé foi meu padrinho de casamento. Eu o encontrei na época, falei sobre a minha dúvida, e ele disse: “Vai, menina. Vai lá, vai ser feliz”. Ele me ajudou muito a tomar a decisão. Eu fui, graças a Deus. Depois, ainda me convidaram para jogar na WNBA, mas eu disse que não. Já tinha decidido parar. A WNBA teve início em 1997. Em 96, eles começaram a “draftar” e vieram falar comigo. Nem pensar. Já engravidei logo para acabar com isso e não cair em tentação.
Hortência com a medalha de prata e o filho João Victor
Luludi / Estadão Conteúdo
Quando voltou a jogar depois da gravidez, qual foi seu sentimento enquanto mulher?
— Nunca tive culpa. Hoje, talvez, eu fosse cancelada, porque tirei o João Victor do peito com um mês de vida. Não podia treinar com o peito cheio de leite. O que aconteceu com o João? Está indo para a quarta Olimpíada (no hipismo), nunca ficou doente. É um molecão bonito para caramba. São decisões difíceis, mas necessárias. É igual quando o técnico monta uma jogada para você fazer a cesta no fim da partida. Você tem que decidir. Eu fui medalhista olímpica, meu filho está lindo, maravilhoso, um atleta incrível. É tomar a decisão e olhar para frente, não para trás. Não pode se preocupar com o que os outros vão falar, porque é a sua vida. O meu medo era não conseguir jogar direito. Não fiquei 100% em forma, cheguei a uns 80%. Mas eu estava lá e ajudei minha equipe a ganhar uma medalha. Eu tenho uma medalha olímpica. Quantas pessoas no mundo não queriam isso? Meu filho esteve sempre junto comigo nas Olimpíadas. O Victor, meu ex-marido, foi um cara que sempre me incentivou, nunca me cobrou. Disse para eu ir jogar, que ele seguraria a onda. Ele ficou no hotel com o João, e eu fiquei na Vila Olímpica. Tudo certo, com estrutura montada. Eu estava tranquila, treinando para ganhar uma medalha.
Como surgiu a amizade com o Pelé, que foi seu padrinho de casamento?
— O Victor (ex-marido) tinha o “Gallery”, um clube privado, onde só entravam sócios. Era um lugar frequentado por pessoas famosas, como Ayrton Senna, Pelé, o presidente da República, Hebe Camargo. Tinha comida boa, bebida, música. Conheci o Pelé ali. Também tenho casa na praia perto da casa do Pelé. Então, no fim de semana, meus filhos iam para brincar com os filhos dele. Ficamos próximos. Tive proximidade com o Ayrton e outros atletas importantes. Fazíamos jantares, festas. O Ayrton tinha a mesma idade que eu, era da mesma época. Mas os atletas de alto rendimento, quando se encontram, não querem falar sobre esporte. Ele era obstinado, parecia que tinha pouco tempo para mostrar o trabalho. Era muito intenso.
Hortência e Pelé: Rei do Futebol foi seu padrinho de casamento
reprodução/Instagram
Como eram esses jantares com tantas figuras importantes?
— Comecei a falar sobre isso há pouco tempo, porque não gosto que fiquem falando: “ai, nossa, era amiga deles”. Eu não era uma amiga íntima. Num desses jantares, eu vi o relógio do Ayrton. Eu estava indo viajar para a Europa e comecei a procurar o relógio para comprar. Não achei e voltei sem. Um dia, fomos jantar, e lá estava ele com o relógio. Eu falei: “Cara, procurei esse relógio e não achei”. Ele disse que era uma edição limitada, arrancou e deu para mim. Eu disse: “Não, está louco? Não quero”. Ele falou que tinha outro e me deu. Guardo esse relógio há 30 e poucos anos. Nunca usei. O meu filho Antônio é doido para usar, e eu só deixei uma vez. Tenho muito medo que alguém roube.
Ao Abre Aspas, Hortência fala sobre amizade com Pelé, e presente recebido de Ayrton Senna
Você foi vice-campeã olímpica e campeã mundial. Em qual prateleira está cada um desses títulos na sua opinião?
— Cada competição é diferente. Classifico minhas medalhas de três maneiras. A mais emocionante foi a do Pan-Americano de Cuba. Todo mundo lembra do Fidel Castro entregando a medalha. A mais importante foi a do Mundial. Quebramos uma hegemonia dos Estados Unidos e da antiga União Soviética. E a mais difícil foi a medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta, porque eu tinha acabado de ter um filho. Foi muito dolorida, desgastante para mim.
Como era o reconhecimento dos torcedores nessa fase tão vitoriosa do basquete feminino?
— A gente não podia andar na rua. Eu tenho casa na praia e não podia usar a praia. Tinha que tomar sol no barco. Se eu ficasse na areia, gerava tumulto. Isso começou antes dos títulos, na verdade. Lembro que uma vez coloquei uma peruca, e uma mulher perguntou para mim: “Hortência, o que você fez no seu cabelo?”. Quando você saía na rua, tinha que estar preparada, porque ia ter abordagem. Então, a gente ficava muito reclusa. Quando havia concentração em hotel com a seleção, o pessoal subia em árvore para espiar. Era legal, mas, por outro lado, a gente também queria um pouquinho de privacidade. Se eu não tivesse afim de conversar, não saía, porque o fã não tem nada a ver com isso. Se a pessoa te pede uma foto, você tem que tirar. Os torcedores apoiam, aplaudem, são importantes na sua vida. E você não pode tratá-los mal. Eu reconheço a importância dos meus fãs até hoje.
Qual foi o maior jogo da sua carreira?
— O jogo mais importante da minha vida foi contra a Austrália, no Pré-Olímpico de Vigo, que classificou nosso basquete feminino pela primeira vez para uma edição de Olimpíadas – Barcelona 1992. Fiz uma cesta de três pontos no finalzinho, e tivemos duas prorrogações nesse jogo. Era um sonho ir às Olimpíadas. A Paula saiu, me viu livre, e eu arremessei. Foi o famoso “três de Deus”. A bola caiu e nos levou para a prorrogação. Esse foi o jogo mais importante para mim.
O posto de treinador é o caminho natural para muitos ex-atletas. Por que você não se vê trabalhando como técnica?
— Eu não quero aquele sentimento, aquela sensação de não poder mais estar dentro de quadra, de não poder ajudar diretamente. Quero curtir mais a minha vida particular. A única coisa profissional que assumo hoje em dia são as minhas palestras. Não quero estar tão vinculada ao esporte, com a pressão do dia a dia, a convivência com pessoas totalmente diferentes. Tenho outras responsabilidades agora. Eu já tentei contribuir como dirigente, mas não deu certo. Quis fazer muita coisa que não me deixaram.
Em uma partida dos Jogos Regionais, você anotou 121 ou 124 pontos? Como foi isso?
— Eu estava na seleção brasileira, e estava tendo os Jogos Regionais. Começou uma briga do meu clube com a seleção. Fui liberada pela CBB (Confederação Brasileira de Basquete) e parti para os Jogos Regionais. Chegamos atrasadas para a partida e perdemos por W.O. Ao invés de disputarmos o primeiro lugar, fomos jogar de quinto a oitavo. Entramos numa partida fácil contra o Itapetininga. Joguei 10 minutos e fui substituída. No banco, comecei a observar. Chegando ao vestiário, fiz uma proposta para o meu time. Perguntei: “Vamos ver quantos pontos conseguimos fazer hoje?”. Montamos uma tática para pressionar, tomar a bola e já fazer a cesta. Foi uma maneira que tive de motivar o meu time. É um desrespeito com o adversário? Não, pelo contrário. Fizemos 252 pontos, e eu marquei 124. Se eu tivesse jogado os 40 minutos, faria até mais. Como não foi televisionado, registrado em vídeo, não pôde entrar no Guinness Book (Livro dos Recordes).
Hortência afirma que não disputar as Olimpíadas de Seul foi a maior derrota da carreira
André Durão
Você é muito competitiva, fala muito de foco, de vitórias. No caminho pela excelência, acredita ter cometido alguma injustiça?
— Você só pratica uma injustiça quando não quer o bem da pessoa. Quando chama a atenção de uma pessoa para o bem dela… Existe o líder positivo e o negativo. O líder positivo quer você se superando, bem, melhorando. A pessoa muitas vezes não recebe assim. Não estou nem aí, estou fazendo meu papel. Injustiça, não, porque eu sempre quis o bem. Mas chamar a atenção, gritar dentro de uma quadra… Eu era briguenta. Queria ganhar o jogo, ver as meninas fazendo cesta, pegando rebote. Se uma jogadora se sentiu injustiçada, não estou nem aí.
Você deixa bem claro que não gosta de perder. Qual foi a maior derrota da sua vida?
— Mesmo quando perco, não me sinto derrotada, porque me entreguei para aquilo ali. Mas a minha maior derrota foi não ter ido para as Olimpíadas de Seul (a seleção brasileira feminina não se classificou para os Jogos de 1988). Eu estava no auge e queria muito ter ido. Não assisti a um jogo, a uma modalidade das Olimpíadas. Foi muito difícil não ter ido, sofri e segui em frente. Quando você busca algo da derrota, você não perdeu. Uma vez, eu fui fazer uma curva de moto, a roda traseira passou por cima de uma pedra, e eu caí. Nunca mais eu caí daquele jeito, só de outros (risos). Agora, sempre que vou entrar em uma curva, olho para ver se tem uma pedra. Você tem que aprender com uma queda, ser muito positivo, mesmo na derrota. Fica triste, dois dias sem dormir, tudo bem. Mas aquilo valeu para você seguir em frente. Se você erra e não reconhece, vai continuar errando.
O que você gosta de fazer no seu tempo livre?
— Gosto de não ter obrigações. A única obrigação que tenho hoje são as minhas palestras. Quero decidir o que vou fazer na hora. “Vamos fazer uma viagem?”. Se eu tiver agenda, vou. Quero ser livre para fazer o que quiser, estar do lado dos amigos, convidar quem eu quiser para viajar comigo. Quero ser feliz sem pressão, algo que eu tive a minha vida inteira. Se eu quiser visitar meu filho que mora em Portugal, pego o avião e vou. Se você fizer a pergunta “você está namorando?”, eu digo que não estou, por opção… deles (risos). Óbvio que nunca estamos sozinhas. Digo sempre que a minha porta está fechada, mas não trancada. Se alguém tiver capacidade para abri-la, tudo bem. Não sou uma pessoa carente. Sou bem resolvida.
O que uma pessoa precisa ter para abrir a sua porta?
— Não é qualquer um que vai abrir. Precisa ser uma pessoa diferenciada, porque não é fácil ficar do meu lado. Eu reconheço isso. Uma pessoa que já viveu tudo que eu vivi, que conquistou tudo que conquistei, que tem o nível de vida que tenho… Não é qualquer um que vai conseguir abrir a porta, com os mesmos valores e pensamentos que eu. Não pode só vir elogiando.
É difícil conviver com você?
— Acho que sou difícil de conviver, mas para o lado do bem. Por exemplo: quando eu era casada, não morei com meu marido. Estou falando de 1989, quando eu casei. Eu morava em uma cidade, ele em outra. Por isso que deu certo (risos). Cada um tem seu estilo de casamento. No meu, estar distante ajudou muito. Ele era da noite, e eu era do dia. Nós ficamos 10 anos juntos. Foi um sucesso. Tive dois filhos lindos, e eu me dou bem com meu ex-marido. Somos uma família. A atual esposa dele tem uma empresa que cuida das minhas coisas. Passamos Natal, Dia das Mães e Réveillon juntos.
Mesmo depois da aposentadoria, você continuou em evidência. Como é viver com tanta gente interessada em saber o que acontece com você?
— Eu gosto disso. Por exemplo, parei de jogar e já virei comentarista. Continuei em evidência. Fiquei aqui na casa (TV Globo) comentando por muitos anos. A primeira vez que comentei foi com Galvão Bueno e Luciano do Valle. Depois, descobri as palestras, que me ajudaram muito. Quando eu era jogadora, me acostumei a ser aplaudida, mas também vaiada. Nas palestras, é um público que me afaga, me abraça, me ouve, me aplaude. Eu conto histórias e ajudo as pessoas. Além de tudo, ainda surgiram as redes sociais, que não te deixam ficar esquecida. Estou sempre ali mostrando. Minha vida é um livro aberto. No que diz respeito a relacionamentos, só passo ao público quando é muito importante. Ultimamente, a coisa mais importante para mim sou eu, então só posto sobre mim. Tenho muito respeito aos meus filhos, de 30 e 29 anos. O que eu falo na internet só é dito depois de eu pensar nos meus filhos. Você não vai me ver fazendo nada que não seja orgulho para eles.
Ao Abre Aspas, Hortência fala sobre relacionamentos e exposição
Depois de passar a carreira a limpo: você se sente reconhecida à altura do que construiu?
— Acho que fiz o meu trabalho. Fui reconhecida e sou até hoje. Tem uma nova geração que não me viu jogar, mas ouviu falar e pode buscar na internet. Mas também não ligo muito para isso.
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André Durão
O basquete brasileiro atingiu um patamar elevado na sua época, bem diferente do tamanho do esporte atualmente no país. A que atribui essa queda que deixou a modalidade tão distante do protagonismo?
— Em primeiro lugar, foi a gestão. Tudo na vida tem que ter gestão, da sua vida, da sua empresa, de uma confederação. Perderam a chance de criar novos seguidores, atletas, depois da nossa geração que ganhou praticamente tudo. O brasileiro gosta de título, resultado, quer ver o hino do país ser tocado no pódio. O skate tem a Fadinha (Rayssa Leal), o tênis teve o Guga, a ginástica teve a Daiane dos Santos e, agora, tem uma nova geração. Tem que aproveitar isso. O basquete perdeu meninas altas, com biotipo de ser atleta de basquete, para o voleibol. O vôlei traz título. Você liga no sportv e vê só voleibol (risos), entendeu? As pessoas querem gritar gol, cesta, ponto, vibrar. O povo brasileiro precisa disso. O que eu faria hoje? Começaria tudo de novo no basquete. Esquece metas para daqui a 10 ou 15 anos. Vamos começar na base, construir. Você está vendendo o almoço para comprar o jantar. Nunca vamos chegar a lugar nenhum.
Ainda incomoda ver a situação atual do basquete, bem distante dos dias de glória?
— Quando se fala de basquete feminino, você pensa em quem? Hortência, Paula, Janeth. Eu poderia falar: “Legal, estou fora das quadras há 30 anos, e as pessoas falam de mim”. Mas não é legal. Eu gostaria de estar assistindo ao jogo e falar: “Olha o que essa menina fez, olha o que está fazendo pelo basquete feminino”. É muito triste ver que a seleção brasileira está fora do terceiro Mundial consecutivo, não vai para as Olimpíadas… Eu torço pelo basquete feminino. Queria ter aquela emoção de vibrar, de ver o jogo ser decidido no final, uma cesta atrás da outra. Quero que o basquete feminino aconteça novamente, mas não depende só das meninas, depende de muita coisa.
Você acredita que verá o basquete brilhando novamente?
— Eu não sei se vou estar viva amanhã, mas gostaria de ver. Se começar um projeto de médio a longo prazo… Agora não vou ver, só vou torcer para duas ou três meninas que estão na WNBA. Eu quero torcer por uma equipe, um time que está ali integrado, que vai para a competição sabendo que tem chance de ganhar. É muito ruim ligar a TV e não conseguir assistir a um jogo até o final. Quando você assiste, você joga junto, fala: “Eu faria isso, chutaria, partiria para dentro”. É ruim, acabo até sofrendo quando assisto a um jogo. E não estou falando mal das meninas, não, viu? Material humano a gente tem, falta investimento.
— Hoje você tem facilidade para ir aos Estados Unidos, naquela época nossa competição interna era muito forte, as atletas de fora vinham pra cá. Tínhamos estrutura forte de clube, patrocinadores, televisão aberta mostrando nosso trabalho. Era uma disputa grande. Nós, jogadoras, construímos o basquete. Quem hoje mostra para as crianças que o basquete feminino existe? Fale o nome de uma jogadora. Você vai na rua e pergunta a alguém, não aparece. Tem que ter títulos. Naquela época, tínhamos títulos internos. Aquela briga minha contra a Paula chamava a torcida. Era sufocante, nunca sabia quem ia ganhar. Isso chamou a atenção, dividiu as torcidas, era muito legal. geRead More