E o concreto virou magia no Barradão
Texto de Franciel Cruz
Dentro do estádio, o placar ainda não marcava nem 10 minutos, mas no meu relógio imaginário, que nunca tive, já havia se passado muitos séculos. Saí atrasado do trabalho, na verdade dei um zig, e peguei carona com minha amiga Camila. O trajeto do labor até a referida praça esportiva, apesar da pouca distância, era uma eternidade. Nunca o Barradão esteve tão longe, especialmente porque o locutor, no rádio, gritava muitas e incompreensíveis aleivosias. Era angústia pra mais de metro.
Porém, na hora exata em que Magic Erick chamou a redonda pra inoxidável canhota, eu já tinha mudado de estação, estava na sintonia de Manuel Bandeira, naquele instante em que os céus se misturam com a terra e o espírito de Deus volta a se mover sobre a face das águas.
Sim, meninos, eu vi, ouvi e intui o golaço do meu camisa 33 no único local possível para testemunhar aquele milagre: o estacionamento do Barradão, espaço mais insanamente mágico da história recente e eterna do futebol brasileiro. É uma utopia de lugar — o império da esculhambação e da festa, da resistência feroz diante da gourmertização que nos sufoca cotidianamente. Sexo, fúria, música, ludopédio e rebeldias.
Ali, Exu num pede passagem: abre caminhos na tora. Quem nunca viveu esta incontornável experiência, tá vivendo errado. O que os olhos não veem, o coração sente. Explode. E a explosão da bola na trave e nas redes elevou ao paroxismo aquela trincheira de alegria, seja lá que porra isto signifique. Chuva de cervejas, copos se espatifando nos tetos dos carros e ensopando nossas roupas e corpos nervosos.
Vitória x Flamengo, pela Copa do Brasil
Márcio José/AGIF
Depois deste batismo de sangue, olvidei completamente que do outro lado estava o time dos endinheirados das Américas. O esforçado e (i)limitado elenco do Vitória também se esqueceu deste detalhe. (Perdão, senhores cabeças de planilhas, mas futebol não é ciência exata, fazemos arte com improviso e pandeiro, e matemática é loucura. Azar se o time do status quo tem 16 jogadores em 38 seleções que vão disputar a Copa do Mundo. Quando o Vitória entra no Barradão, não sabemos fazer contas). E o Flamengo continuava com mais de 70% da posse de bola e muitas estrelas, mas quem liga pra isso quando as arquibancadas e o estacionamento do Clube não obedecem à lógica cartesiana?
Queremos apenas o impossível. E vencemos o desafio da impossibilidade numa puxeta do zagueiro que tem o sobrenome de Cândido. E Cândido, ingênuo, puro e besta é nosso sonho. Agora, porém, vou desligar, pois o telefone tá caro e descobri que perdi minha juventude. Nem quatro da matina e já tô com sono. Era pra ser virotão, deixando nacos de minhas costelas nas arquibancadas ou no cimento, no concreto do estacionamento que ainda abriga meus sonhos.
Franciel Cruz
Salvador, Bahia, Brasil, Vitória, Barradão, 3h45 da matina
Vitória 2 x 0 Flamengo | Melhores Momentos | 5ª fase | Copa do Brasil 2026 geRead More


