Uma brasileira, tensão e ingressos esgotados: o esperado confronto de Coreias na Champions da Ásia
Fluminense venceu o Santos com gol de Mileninha no Brasileirão Feminino
Não haverá execução de hinos nacionais ou exibição de símbolos políticos, e todos os 7.087 ingressos disponíveis se esgotaram em menos de um dia. Tudo por uma partida de contexto curioso (e tenso) na semifinal da Champions League Feminina da Ásia: a primeira visita de atletas da Coreia do Norte à Coreia do Sul em oito anos. No time do país-sede, há uma brasileira.
– Esse momento está realmente parando a Coreia do Sul. Por aqui só se fala nisso. Não tem nenhum tipo de recomendação, mas sempre falam para a gente não falar com elas, não trocar conversa, para não se vincular às pessoas – conta a atacante Mileninha, campeã sul-americana sub-20 com a Seleção e única atleta ocidental no elenco do Suwon FC.
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Mileninha comemora gol pelo Suwon FC na Coreia do Sul
Arquivo Pessoal
O clube está na semifinal da Champions League Asiática e recebe o Naegoyhyang na manhã desta quarta-feira, em Suwon, em jogo marcado por contexto curioso.
Os países vivem em estado de tensão desde a Guerra da Coreia, na década de 1950, quando dividiram o território em Coreia do Sul, apoiada pelos Estados Unidos, e Coreia do Norte, apoiada pela antiga União Soviética, durante a Guerra Fria.
É o primeiro time de futebol feminino da Coreia do Norte a jogar na Coreia do Sul. E o primeiro grupo de atletas a atravessar a fronteira por uma competição no país desde dezembro de 2018. No futebol, a última vez foi nos Jogos Asiáticos de 2014.
Até por isso as 27 jogadoras e 12 membros da comissão técnica do clube norte-coreano só têm permanência autorizada até o fim de semana, garantida por meio da lei de intercâmbio intercoreano.
– Existe uma rivalidade enorme, que é legal e até dá um certo medinho. Percebi isso no primeiro jogo, que a gente perdeu e na hora de cumprimentá-las já dava para perceber que seria um clima hostil – conta a brasileira, em referência à derrota por 3 a 0 na fase de grupos da competição, jogo realizado em Myanmar, país que serviu de território neutro.
– O treinador e a comissão têm falado muito com a gente, dá para sentir que o treinador está apreensivo. Tem reforçado a parte física, de estar pronto para os confrontos individuais.
– E ultimamente a cada minuto alguém vira e fala: é para jogar forte, se não a gente não precisa de você.
Vestiário do Suwon FC, com a brasileira Mileninha na ponta esquerda da foto
Arquivo Pessoal
A equipe havia registrado nas quartas de final a primeira vitória da história de uma equipe feminina sul-coreana sobre uma chinesa, ao eliminar o Wuhan Jianghan com uma goleada por 4 a 0, e está determinada a fazer história outra vez.
E essa postura está evidente também na mobilização do clube em termos de estrutura para o confronto.
– Tenho um amigo que joga no masculino do Suwon e eles tinham jogo no estádio, mas por estarmos nessa fase da Champions, o clube tirou o masculino, adiou os jogos e está sem treinar no estádio para melhorar o campo – conta Mileninha.
– Nós e o masculino treinamos no mesmo lugar. Fizemos viagem de pré-temporada para a Tailândia no ano passado. Jogamos todos os jogos no estádio do clube.
– Acho que em estrutura bateria de frente com os grandes do Brasil. Corinthians, Palmeiras, São Paulo.
Conversa em treino do Suwon FC antes da disputa da semifinal da Champions Asiática
Suwon FC
Mileninha tem 23 anos, formou-se entre Minas Icesp, Brazlândia e Internacional, defendeu o Fluminense por uma temporada e está desde o ano passado no Suwon FC, vivendo sua primeira experiência fora do país.
– Acho que o principal motivo foi querer sair da zona de conforto. Tinha possibilidade de continuar jogando no Brasil, na Série A, mas senti que não iria evoluir – confessa.
– Quando recebi a oportunidade, bateu com o momento que estava, de querer evoluir profissionalmente e de ter uma experiência de vida fora. Sabia que seria um desafio dobrado porque é uma cultura difícil, língua difícil, mas quis arriscar.
– Tive uma evolução maior do que esperava, fisicamente, porque sou camisa nove e sempre tive um pouco de problema na parte física, e aqui descobri potenciais que achei que não teria.
– Recuperei confiança, que tinha perdido, e ganhei em sprint. Acho que precisava, não provar nada para ninguém, mas para mim mesma. geRead More


