Análise: perder treinadores no auge expõe limite do futebol amazonense
Um problema segue como recorrente no futebol brasileiro: a troca de treinadores. Normalmente acontece por crise, pressão ou falta de resultado. Mas, nesta temporada, no Amazonas, foi por outro motivo: os trabalhos deram certo.
Foi assim com Cristian de Souza, que deixou o Amazonas na liderança da Série C para assumir o Santa Cruz, na mesma divisão. E também com Thiago Gomes, que trocou o Nacional-AM, campeão amazonense e finalista da Copa Norte (semifinalista da Copa Verde), pelo Confiança, da terceira divisão.
Mas os clubes não conseguiram manter seus treinadores. Com isso, fica o questionamento: faltou dinheiro para segurá-los ou as propostas eram irrecusáveis? O certo é que o mercado ainda é feroz e o futebol amazonense, pelo menos neste momento, não tem competitividade.
Thiago Gomes (esquerda) deixou o Nacional e Cristian de Souza se despediu do Amazonas
Fernando Vasconcelos/João Normando
Liderança não impediu saída no Amazonas
No Amazonas, a relação entre desempenho e assédio do mercado foi imediata. A equipe liderava a Série C com quatro vitórias e um empate em cinco jogos. O time tinha padrão tático claro, competitividade e começava a se consolidar como candidato real ao acesso – ainda continua sendo faorita. O efeito natural disso foi colocar Cristian de Souza no radar de outros clubes. O Santa Cruz apareceu e levou o treinador.
Amazonas perde e deixa a liderança da Série C
À primeira vista, a troca pode parecer contraditória. O Amazonas vivia um momento melhor. Mas o futebol brasileiro raramente funciona apenas pela lógica da tabela. Mesmo em reconstrução, na 15ª posição na época, o Santa Cruz ainda oferece tradição nacional, torcida de massa e exposição midiática maior.
Ou seja, o Amazonas cresceu o suficiente para produzir um trabalho valorizado pelo mercado (principalmente pelo título da Série C e por duas temporadas na Sérire B), mas ainda enfrenta dificuldades para competir com o peso estrutural de clubes tradicionais. E o cenário ficou ainda mais delicado porque a saída do treinador coincidiu com problemas fora das quatro linhas.
Cristian de Souza deixou o Amazonas na liderança da Série C
João Normando/AMFC
Antes mesmo da saída do treinador, o volante Erick Varão deixou o clube via judicial alegando atrasos salariais. O mais recente foi nesta semana: Jorge Jiménez, que também acionou a Justiça cobrando salários, direito de imagem, auxílio-moradia e FGTS.
Após a saída de Cristian, a consequência foi direta. A liderança da Série C, que deveria representar consolidação esportiva, passou também a expor questionamentos sobre estabilidade financeira e sustentação do projeto no longo prazo.
Os resultados negativos também surgiram. Foram duas derrotas seguidas, uma em casa para o Figueirense, sob o comando do auxiliar permanente Ricardo Lecheva, e outra fora, por 3 a 2 para o Floresta, desta vez com o auxiliar Bebeto Sauthier à frente. Resultado: agora ocupa a terceira colocação, com 13 pontos.
Nacional-AM perde comandante às vésperas de final
No Nacional-AM, o mecanismo foi parecido, apesar de ser por razões diferentes. O clube atravessa sua temporada mais relevante dos últimos anos. Campeão amazonense após um jejum de uma década, finalista da Copa Norte e vice-líder do grupo A1 da Série D, o Leão voltou a ocupar espaço competitivo no cenário nacional.
Naturalmente, o mercado passou a olhar para o trabalho de Thiago Gomes. E então surgiu o Confiança. A decisão do treinador também parece contraditória olhando apenas o momento e desempenho. O Nacional vivia estabilidade e brigava por objetivos importantes. O Confiança lutava contra a parte de baixo da Série C.
Thiago Gomes deixou o Nacoinal na final da Copa Norte
Fernando Vasconcelos
Mas existe uma lógica consolidada no futebol brasileiro: a divisão ainda pesa muito. Estar na Série C significa calendário mais robusto, maior exposição nacional, mais visibilidade no mercado e possibilidade de crescimento profissional mais acelerado. O efeito foi imediato: o Nacional perdeu o treinador justamente quando o projeto começava a ganhar força.
Paysandu e Nacional-AM decidem a Copa Norte
O que vem pela frente?
Agora, a dúvida passa a ser outra: os clubes conseguirão sustentar o desempenho mesmo após perder peças importantes de seus projetos? O Amazonas vai conseguir manter a força na Série C em meio às turbulências internas?
No Nacional, a reconstrução já começou com a chegada de Júlio César Nunes, ex-Águia de Marabá. Mas o primeiro impacto da mudança já apareceu. Na estreia do novo treinador, o Leão perdeu por 1 a 0 para o Paysandu, em Belém, no jogo de ida da final da Copa Norte.
Resta saber se as mudanças no comando serão impactarão de forma momentânea ou no restante temporada dos dois clubes. Porque, no futebol amazonense de hoje, o desafio já não é apenas montar times competitivos. É conseguir manter de pé projetos que começaram a dar certo. geRead More


