Ex-jogador da Ponte detalha drama dos salários atrasados: “Tinha gente que fazia Uber depois do treino”
Ponte Preta agoniza na série B com dívidas e processos na justiça
Em campo, a Ponte Preta gera sentimentos de preocupação. Não bastasse o rebaixamento no Paulistão meses depois da conquista do título da Série C do Brasileirão, a Macaca também ruiu na Copa do Brasil e agora está ameaçada por uma nova queda na Série B.
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Na administração e nas finanças, o quadro também causa apreensão. Por um lado, os dirigentes continuam a prometer a regularização dos salários – que chegam há mais de 11 meses em alguns casos, mas a realidade é que o endividamento vai se agravando cada vez mais, chegando ao ponto de o clube ser processado por dívida de R$ 53 mil com uma padaria, e minando a paciência de quem vive o dia a dia do clube.
Bandeira Ponte Preta; Moisés Lucarelli
Marcos Ribolli
Muitos acreditavam que o título da Ponte na Série C, em outubro do ano passado, seria o ponto final das notícias de jogadores com salários atrasados. Mas o cenário não mudou.
Os remanescentes acumulam dívidas de 2025, e quem chegou nesta temporada conheceu o cenário caótico com o qual outros atletas convivem desde junho do ano passado. Desde então, a Ponte consegue pagar um ou outro mês esporadicamente, mas longe de liquidar as pendências totais.
Um ex-jogador do clube, integrante do elenco que conquistou a terceira divisão nacional, aceitou falar sob condição de anonimato e revelou o desespero de atuar sem receber salário, auxílio-moradia ou as premiações acordadas.
– Passei muitas dificuldades. Meu mental foi lá para baixo. Eu tenho filha, família, pais e amigos próximos que me davam força todos os dias. Passei dias ruins nesse lugar, contratei um psicólogo, tive força das pessoas. Superei. Tinha dias que eu acordava e não sentia vontade de trabalhar, mas lembrava que tinha uma filha que dependia de mim.
“Não quero passar nunca mais por isso. É um constrangimento muito grande. Tinha vez que minha filha pedia algo e eu não podia colocar na mesa”.
Segundo o atleta, a falta de pagamento fez pessoas buscarem outra fonte de renda para além do clube:
– Tinha colega aí dentro que trabalhava no clube e depois fazia Uber quando saía do treino. Recebíamos várias datas para pagamento, e nada de quitar com a gente. Vão passando os dias, os meses… Isso nos deixa muito tristes – completou o ex-jogador, que revelou sequer ter recebido a medalha da conquista do ano passado:
– Recebemos várias datas para pagamento, e nada de quitar com a gente. Vão passando os dias, os meses… Quem a gente devia não queria saber quando a gente ia receber, tinha que dar um jeito, arrumar uma solução de pagar quem a gente devia. Tinha colega lá dentro que trabalhava no clube e depois fazia Uber quando saía do treino. Isso nos deixa tristes, né.
Bola de neve
A dívida aumentou tanto que o balanço financeiro do clube foi aprovado, em abril, com um déficit de R$ 33 milhões.
Na avaliação do economista Cesar Grafietti, consultor com mais de 25 anos de experiência, a diretoria pontepretana optou por uma estratégia financeira de “tudo ou nada” em 2025, quando a equipe conquistou o acesso à Série B, o que comprometeu severamente o fluxo de caixa.
– Os números que foram divulgados são bastante limitados, mas é possível ver que, com déficit de R$ 33 milhões e receitas de apenas R$ 23,5 milhões, os custos giraram na casa dos R$ 50 milhões, muito próximos do que foi em 2024. Claramente optou-se pelo gasto elevado na busca do retorno à Série B. Para um clube que já vinha com dívidas elevadas, mesmo depois da venda dos direitos futuros para a Sports Media, o risco desse tipo de estratégia é imenso.
Sem receber salários, funcionários da Ponte Preta relatam dificuldades
Com os salários atrasados atrapalhando a rotina, o horizonte financeiro da Macaca preocupa. Para Grafietti, as consequências da aprovação das contas no vermelho não se limitarão ao atual calendário, colocando em xeque a própria manutenção do clube a longo prazo.
– Isto impacta o restante de 2026, mas já projeto um 2027 desastroso, com receitas muito menores e dívidas elevadas, colocando a continuidade em risco – finalizou o economista.
Consequências da crise
Essa crise gera adversidades práticas e severas. Só em 2026, a Macaca precisou lidar com o transfer ban – punição na Fifa e na CNRD da CBF que impede a realização de contratações – mais de uma vez. O clube não contou com os reforços no início do Paulistão, o que contribuiu para o rebaixamento, e está, por enquanto, novamente impedido de contratar na próxima janela por não cumprir os acordos.
Ao todo, a instituição acumula dezenas de processos trabalhistas movidos por ex-jogadores, funcionários e outros clubes.
Filipe Rino, advogado
Redes Sociais
– Nós temos aproximadamente 50 processos contra a Ponte Preta, de atletas e ex-funcionários -destacou o advogado Filipe Rino, responsável por representar parte dos credores na Justiça.
“Você trabalha, faz sua parte, e o clube não cumpre a dele”, resumiu um profissional ouvido pela reportagem que preferiu não se identificar.
Pelo lado do clube, a defesa prega cautela sobre o tamanho real do passivo judicial. O diretor jurídico da Ponte, José Henrique Specie, argumenta que os números ainda podem mudar.
– As novas ações trabalhistas vão depender ainda de instrução do processo, de julgamento, de recursos. Então, a gente não pode nem precisar que vão se tornar dívidas, até porque podem ser julgadas improcedentes. O clube vai se defender nessas ações e, enquanto isso, busca sempre entrar em acordo.
José Henrique Specie, diretor jurídico da Ponte Preta
Reprodução EPTV
Mas os reflexos das finanças impactam todas as áreas. Desde que a gestão de Marco Antonio Eberlin assumiu, em 2022, a diretoria esboçou um planejamento de recuperação financeira.
Contudo, além de não conseguir combater as consequências das dívidas e das escolhas das gestões passadas, o clube viu os problemas persistirem e se agravarem.
Prova disso é que funcionários passaram a conviver com salários atrasados recorrentes desde meados de 2025, principalmente os profissionais do futebol e das categorias de base. O ex-massagista da base, Dauller, precisou tirar o filho de um colégio particular diante do acúmulo de 11 meses sem vencimentos.
Ex-funcionário da Ponte relata drama com salários atrasados
Oscar Herculano/ EPTV
– Como pontepretano, eu fico magoado da maneira que estão tratando a instituição. O amor é cego, só que você fica com cicatrizes. Ficar 11 meses sem receber não é mole. A gente dá risada porque abaixar a cabeça e chorar não adianta – resumiu o profissional, que hoje tenta reconstruir a vida trabalhando no esporte de Valinhos.
– Ficar um ou dois meses sem receber faz parte, mas não neste nível. Quando algo desse nível acontece, fere as pessoas, atrapalha as pessoas. Isso não é só uma má-gestão. Isso é abandono -explicou outro ex-funcionário da base, que optou por não se identificar.
Ponte vive grave crise financeira
Reprodução EPTV
O choque de realidade ao adentrar os corredores do Moisés Lucarelli também foi relatado por Lucimara Ferreira, ex-diretora de inclusão social (ocupou o cargo não remunerado durante a gestão de Marco Antonio Eberlin como presidente – hoje ele é vice-presidente de Luiz Alves Torrano e também diretor de futebol).
– Nós só conhecemos a realidade efetivamente quando vamos para os bastidores. Somente lá acabei conhecendo coisas boas e, agora no final, coisas extremamente desagradáveis para a instituição.
– A Ponte Preta é maior que qualquer gestão e qualquer pessoa. O momento de hoje exige coragem. Exige assumir os erros, ter transparência e respeito pela instituição à qual vocês servem – completou Lucimara, também conselheira do clube.
O cansaço da espera por dias melhores
A crise entre direção e atletas se agravou ainda durante o Paulistão, com muitos optando por deixar o clube em busca de novos projetos – vários deles atuando agora na Série D ou Série C, mas com a segurança dos salários em dia.
Recentemente, a falta de paciência chegou ao limite. O volante uruguaio Rodrigo Saravia pediu para rescindir o contrato e voltar ao seu país de origem.
Saravia ficou três meses na Ponte e pediu para voltar ao Uruguai
Marcos Ribolli/ PontePress
O experiente zagueiro David Braz, ex-Santos, Palmeiras e Flamengo, também negocia a rescisão contratual e não foi relacionado para a partida do último domingo, contra o CRB, por conta da insatisfação com os bastidores.
Referências do elenco se manifestaram publicamente, a exemplo do desabafo do meia Elvis depois da derrota em casa para o Londrina, por 4 a 1, no que o capitão classificou como a “maior vergonha da carreira”, cobrando soluções extracampo.
Elvis durante pronunciamento
Marcos Ribolli/ PontePress
A tensão explodiu também no vestiário. O artilheiro da Ponte na temporada, Bryan Borges, chegou a ser afastado por um desentendimento com o vice-presidente Marco Antonio Eberlin. O jogador criticou de forma enfática a quantidade de promessas não cumpridas pela gestão.
– Futebol é mais complexo. São vários cenários. Até pela questão do valor do custo do futebol, a gente tem negociado individualmente, caso a caso, para buscar uma saída e uma solução. A gente pretende, e está empenhado, para que essa questão seja solucionada no máximo até o próximo mês – explicou Specie.
– A prioridade da diretoria é a solução definitiva da Ponte, especialmente em relação aos pagamentos de colaboradores e atletas de forma geral. A gente está empenhado diariamente em buscar essa solução – concluiu o diretor jurídico.
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A terrível crise financeira da Ponte se soma a outras instabilidades. A política ferve com desavenças constantes entre os comandantes atuais e do passado. Esse caldeirão estoura diretamente no departamento de futebol e acaba detonando a crise esportiva.
Entender como o clube chegou a esse estado, correndo o risco do quarto rebaixamento em quatro anos, não é difícil. Dirigentes gastaram mais do que podiam, foram estrangulados por bloqueios de dívidas anteriores, prometeram o que não tinham como pagar e agora lutam para salvar um ano que já será frustrante.
Eberlin, vice-presidente, ao lado de Luiz Torrano, presidente da Ponte
Marcos Ribolli/ PontePress
Como tirar a Ponte dessa situação é o desafio real. Sem credibilidade para atrair novos patrocinadores, sem a confiança do torcedor e sem bom desempenho em campo, não há como esperar um aumento repentino de receitas.
Dívidas sufocam. Jogadores não recebem e reclamam. Os Conselhos Deliberativo e Fiscal não conseguem agir de forma impositiva. No estado atual, permanecer na Série B se tornou um desafio tremendo – e, claro, fundamental para que o clube consiga sobreviver e tentar se reabilitar.
O ge publica abaixo a íntegra de cinco entrevistas realizadas para a reportagem especial (outras duas foram realizadas sob condição de anonimato).
Economista César Grafietti (gravada em 16 de abril):
Economista César Grafietti fala sobre as finanças da Ponte Preta
Dauller Luiz, ex-massagista da Ponte (gravada em 17 de abril):
Dauller Luiz, ex-massagista da Ponte, fala sobre os salários atrasados no clube
Filipe Rino, advogado trabalhista (gravada em 16 de abril):
Filipe Rino, advogado trabalhista, fala sobre as ações contra a Ponte Preta
Lucimara Ferreira, ex-diretora de inclusão social e conselheira do clube (gravada em 15 de abril):
Lucimara Ferreira, ex-diretora da Ponte Preta, fala sobre a situação do clube
José Henrique Specie, diretor jurídico da Ponte Preta (gravada em 7 de maio):
José Henrique Specie, diretor jurídico da Ponte, fala sobre as pendências do clube geRead More


