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Das broncas de Mourinho e Jesus à frieza de Kane, Carlos Vinícius resume a carreira: “Um milagre”

Das broncas de Mourinho e Jesus à frieza de Kane, Carlos Vinícius resume a carreira: “Um milagre”

Ao Abre Aspas, Carlos Vinícius fala sobre gols, técnicos marcantes na carreira e cobrança
O vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro já foi zagueiro. E também meia, volante. Jogou na segunda divisão de Goiás e fez gol na Champions League. Levou bronca de Jorge Jesus, trabalhou com Ancelotti e se encantou por José Mourinho.
Carlos Vinícius tem muita história para contar e lembrou diversas delas em entrevista ao Abre Aspas. Porém, avisou que prefere olhar mais para o futuro do que para o passado:
– Não sou muito fã de “TBT”, não. É sempre em frente! – disse o atacante do Grêmio, em bate-papo de uma hora e meia.
Aos 31 anos, o maranhense enfim brilha em seu país após uma expedição internacional, com passagens por Portugal, Itália, Mônaco, Holanda, Inglaterra e Turquia. A forma como o Brasil sente e vive o futebol tem impressionado, para bem e para mal.
Carlos Vinícius elogia a paixão pelo exporte, mas aponta uma falta de paciência geral (torcida, dirigentes, comentaristas) e um excesso de cobrança sobre os técnicos.
– Quem é o líder do Brasileirão hoje? – perguntou o atacante, já pronto para completar:
– Abaixo do Palmeiras todo mundo está em crise. Se o Palmeiras empata no próximo jogo, está em crise. Vem me dizer que isso é normal?
Carlos Vinicius, atacante do Grêmio, em entrevista ao Abre Aspas
Victor Lannes
Ficha técnica
Nome: Carlos Vinícius Alves Morais
Nascimento: 25 de março de 1995 (31 anos), em Bom Jesus das Selvas, Maranhão
Posição: centroavante
Clubes: Santos e Palmeiras (base), Caldense, Grêmio Anápolis, Real SC, Napoli, Rio Ave, Monaco, Benfica, Tottenham, PSV, Fulham, Galatasaray e Grêmio
Títulos: Supertaça de Portugal (2019), Copa dos Países Baixos (2021/22) e Campeonato Gaúcho (2026).
ge: Sabemos que você não era atacante na adolescência, mas conta como você entrou no futebol profissional.
Carlos Vinícius: — O início foi logo quando eu saí de Bom Jesus das Selvas, com 13 anos acho eu, para Goiânia. Meu pai faleceu em 2018, e minha mãe já foi com esse pensamento para nos dar oportunidade. Para minha irmã em outras áreas e para mim dentro do futebol. Eu conheci o Flávio (Ribeiro), que inclusive é meu empresário até hoje. Ele era o treinador da escolinha e foi onde tudo começou. Ou seja, viver o sonho, trabalhar pelo sonho, praticar todos os dias o sonho. Dentro dessa escolinha a gente foi disputar um campeonato em Jataí. Foi onde o olheiro do Santos, Seu Dema, me viu. Foi coisa de quinta-feira ele me ver e na terça-feira eu já estava em Santos.
Foi muito impactante para um garoto criado no interior do Maranhão chegar a São Paulo?
— O impacto de sair de de Bom Jesus das Selva para ir a Goiânia já foi o que foi. Depois passar para São Paulo, no Santos, né? Tanto que eu lembro que quando ligamos para minha mãe dizendo que o olheiro do Santos viu e queria me levar, a primeira coisa que ela disse é que eu não ia porque ela assistia programas de televisão e via pessoas que vinham buscar atletas e depois (os atletas) passavam fome. Eu falei: tá, se eu não for, vou voltar para o Maranhão, porque a gente veio para tentar o sonho e agora apareceu a oportunidade. A verdade é que ela deixou morrendo de medo. Para nós, de Bom Jesus das Selvas, São Paulo é um centro muito distante. É quase que um país, né? Então, é muito assustador. Porque na televisão, infelizmente, o que passa é tudo aquilo que vai se passar (de violento) em São Paulo, Rio. Assusta muito.
Quantos anos você tinha quando veio a chance no Santos?
— 15 anos, 16 anos.
Para uma mãe é difícil.
— Goiânia foi importante para nós. Eu me arrisco a dizer: se fosse de Bom Jesus das Selvas direto para São Paulo, o impacto seria maior. Ou melhor: ela nem teria deixado eu ir. A gente já teve essa preparação em Goiânia. Eu chego no Santos, já assinei. Fiz uma, duas semanas de avaliação, assinei o contrato, e fiquei dois anos e meio. Depois vou para o Palmeiras.
Por que não ficou no Santos?
— O que lembro na época é que mudou de diretoria. Eu estava de titular, mudou de diretoria e já passei a treinar separado. Coisas que a gente sabe, que estamos dentro do futebol, infelizmente acontecem. Aí surgiu a oportunidade de sair do Santos direto para o Palmeiras, onde fico um ano e meio, já na minha conclusão de formação.
Tudo isso foi como zagueiro?
— Chego no Santos como meia-atacante. Depois, peguei o seu Abel, ponta-esquerda do tempo do Pelé, que diz que que era melhor do que o Pelé. Ele dizia que acima de 1,80m (o jogador) tinha que jogar do meio para trás. Eu paguei esse preço. Eu sempre fui muito obediente àquilo que são os comandos. Ele me colocou, por exemplo, para jogar de zagueiro. Então na minha cabeça era: eu tenho que dar tudo, jogar bem, porque senão vão me mandar embora. Eu me preparava, via vídeos. Quando eu jogava, ia bem. Enquanto ele metia outros que iam assim: “não vou treinar bem para ele perceber que não sou zagueiro”. Eu dizia: “tenho que dar tudo, porque se eu não for bem, eles vão me mandar embora”. Esse era o meu pensamento.
— Vou para o Palmeiras também como volante. Jogo como volante e zagueiro. O Diogo Giacomini era treinador. Foi esse o meu pensamento, lembro que na minha época de zagueiro via até vídeos do Kompany, jogando como zagueiro no (Manchester) City. Via vídeo dele, como se posicionava em campo, assim como via de jogadores de meio-campo.
Você devia ser um zagueiro técnico por ter começado mais à frente…
— Com o tamanho, pé esquerdo, chamava muita atenção. O meu início de formação foi do meio para frente. Tanto que, nos meus últimos seis meses, chega o (treinador) Marcos Valadares. Quando era (campo) reduzido, eu ia para frente. Todo treino que não exigia posição, treino posicional, eu ia para frente, fazia gol. Ele falou: “vi que você jogou de meia-atacante no Santos. Quando tem reduzido, faz muito gol. Não quer jogar lá na frente? Quero ver como vai”. Depois de duas semanas eu estava de titular, já no último ano de sub-20. É loucura.
— Arrisco a dizer que isso acontece de 100 em 100 anos. Uma coisa é jogar no sub-13. Eu não, tudo isso se passou do sub-17 ao último ano de sub-20.
— Os meninos até ficam loucos quando eu falo isso. Jogava de 10, depois joguei de volante, de zagueiro, e aí nos últimos seis meses passei a ser centroavante. Lembro que via muito vídeo do Fred, do Fluminense, e do Mandzukic, do Bayern de Munique. Eu via tudo isso para me adaptar. Se me perguntar qual foi melhor, de longe foi centroavante. Não quero mais nem saber lá para trás. Brinco com os meninos, brinco com o Wagner Leonardo, que teve também na formação do Santos, de zagueiro. E eu falo: “atacante é melhor, ainda bem que você ficou como zagueiro, e eu segui minha vida para frente”.
Carlos Vinicius, atacante do Grêmio, em entrevista ao Abre Aspas
Victor Lannes
— O engraçado é que eu fiz dupla de zaga com o Lucas Veríssimo no Santos. Ele vai para o Benfica, e eu estava no Benfica de ser centroavante. Ele dizia: “mano, com todo respeito, eu não consigo acreditar que o meu homem-gol é você.” E eu já tinha sido artilheiro do Benfica. Ele falou: “eu sei que você faz gol, eu sei que vai fazer gol, mas quando eu olho para você…”. Éramos nós dois na zaga do Santos alguns anos atrás. São coisas que o futebol proporciona e, no fundo, hoje eu fico feliz porque deu certo de centroavante, só que aconselho não ir muito por esse caminho.
Tem aquele papo de “se faz todas, não faz nenhuma direito”, né?
— Agora é bom, porque no fundo eu tenho conhecimento das posições. Só que a pessoa que está iniciando na bola sabe que isso é mau. A pessoa não vai ver assim: “traz que ele faz todas as posições”. Vê isso: faz todas (as posições) e não faz nenhuma. Eu sofri com isso quando acabou o meu ano de sub-20. Eu vou para a Caldense-MG. Tive que fazer teste justamente nesse ponto: “eu vi um vídeo como meia, depois outro de zagueiro, outro de volante”. Fiquei na Caldense uns meses, não joguei. Joguei um jogo só de volante, depois é quando vou para Grêmio Anápolis. Também não joguei, mas me viram treinar. Um olheiro de Portugal, do Real Esporte Clube, segunda divisão. Também veio num jogo de meio de semana. Na próxima semana, eu já estava pousando em Portugal, para a segunda liga, de atacante.
Você nunca teve tempo de pensar em outra coisa na vida que não fosse jogar futebol.
— Não. Quando eu estava no Grêmio Anápolis, a gente morava em uma casa que eram cinco quartos para 30 jogadores. Quando a água bateu mesmo na canela, eu pensei em parar e chorava… Lembro que virava para a parede, nem lugar para chorar tinha. E eu pensando em desistir. Vou desistir, falei ao meu empresário, falei à minha esposa. Vou desistir, já estava com o meu filho Davi, hoje tenho a Sara também.
— Eu falei: “vou desistir”. Só que ao mesmo tempo pensava: vou fazer o quê da minha vida? Não tenho formação nenhuma, não tenho nem sequer estudo. E aí é quando eu digo assim: não, tem que ir.
— Mesmo assim, eu estava decidido a parar de jogar. Só ia jogar esse amistoso, que era para jogadores que não atuaram no final de semana. Foi nesse amistoso que o diretor do Real Esporte Clube me viu e deu a oportunidade. Desde quando entrei na Europa, em Portugal, as coisas foram acontecendo. Vice-artilheiro da Segunda Liga, daí para frente já era. Eu lembro que ia parar de jogar. Depois de seis meses, assinei cinco anos de contrato com o Napoli. A história é de louco, é um verdadeiro milagre.
Foi tudo muito rápido.
— É maluco como as coisas vão (acontecendo). O meu pensamento era assim: fiz base em Santos e Palmeiras, para baixo disso, no mínimo uma Série B de um time profissional. Mas o Palmeiras não renova o contrato, porque foi dali que começou a revolução (na gestão do clube), contratou muita gente para ir à Libertadores. Na minha cabeça, eu (pensava) assim: não, eu vou pegar coisa boa. A verdade é que só tinha a Caldense e teste. Não apareceu nada. Chego lá, faço o teste, a Caldense estava na Série D e no Campeonato Mineiro. Também não jogo.
— Também não apareceu nada, só o Grêmio Anápolis. Chego lá e também não jogo. Foi nessa hora que pensei em desistir, porque talvez eu enganei. Tenho dois anos e meio de Santos, mais um ano e tanto de Palmeiras, não sou esse jogador todo. Se eu não jogo no Grêmio Anápolis… Com todo o respeito ao Grêmio Anápolis. Não tinha nada a ver, né? É quando Deus dá a oportunidade, e as coisas verdadeiramente mudaram. E tem mudado e tem sido top.
Curioso ter um olheiro no amistoso do Grêmio Anápolis. Era contra quem?
— Grêmio Anápolis e Aparecidense, no estádio da Aparecidense. Nunca me esqueço, uma tarde e aí tudo aconteceu mesmo, verdadeiramente muito rápido. Quando eu estava no Fulham, o Mitrovic estava fazendo muito gol, e eu era reserva dele. Um colega de equipe disse assim: “pô, parece que você fica feliz quando está no banco”. Eu falei: “eu tenho que esperar, mas também não posso ficar triste, porque de onde eu vim, aquilo que passei, não posso estar triste reclamando de um banco na Premier League. Outros podem reclamar e tem todo direito, eu não”.
— O meu passado não me deixa reclamar do presente. Eu não consigo ver de outra forma se não foi Deus que mudou essa chave, porque da minha parte eu já tinha desistido. A partir daquele momento na Aparecidense foi quando Deus falou: “agora você vai ver o que vou fazer”. E em seis meses eu assino por cinco anos com o Napoli. Passado um ano e meio, vou para o Benfica, artilheiro do Campeonato Português. Jogo Champions League, faço gol. Depois vou para o Tottenham com o José Mourinho, disputo Premier League. Ou seja: de dúvida ou de quem nem jogava na segunda divisão do Campeonato Goiano a jogar Premier League e Champions League…
— No meu tempo, muita gente tinha qualidade. Peguei o Santos ainda muito formador. Gabigol, Victor Andrade, Neilton. Eu era do terceiro time desses caras. Só de ir para o banco já era um grande sucesso. Então eu peguei ali muitos jogadores bons. Tenho um amigo, Philipe Sampaio, jogou no Botafogo, está no Athletic-MG hoje. Fui formado com ele no Santos, e volta e meia a gente traz à memória essa lista de jogadores. E eu falo assim: “mano, se parar para puxar aqui, os que tiveram ainda sucesso foram aqueles que estavam no terceiro ou quarto time”. A gente se encontra por aí, e dizem assim: “mano, tu chegou”. Eu falo: “pois é, cheguei”. Não é sobre só qualidade. Se fosse pelas qualidades, muito chegavam. Eu vejo que verdadeiramente Deus foi muito fiel em relação à minha carreira. Eu tinha desistido. Foi mesmo Deus que pegou e me deu o dom, fez e me sustentou nesses momentos difíceis.
— Hoje, graças a Deus tenho uma história que me arrisco a dizer que até é inspiradora. Se não for ainda para algumas pessoas que estão vendo, peguem isso como inspiração. Deus faz milagre. Porque não é sobre ter sua qualidade. No fundo, a gente às vezes falha. Nós temos essa dúvida entre nós, em tudo, em todas as profissões.
Você mencionou o contrato com o Napoli e lá trabalhou com o Carlo Ancelotti, hoje técnico da seleção brasileira. Mesmo sendo pouco tempo, o que deu para ver do estilo dele?
— Foi um tempo curto, duas pré-temporadas com o Ancelotti, mas nota-se que ele tem uma qualidade muito grande, que é saber lidar com os craques. É saber levar o futebol de uma forma não só dentro de campo, mas fora. Arrisco a dizer que não tem nenhum jogador que fale mal do Ancelotti porque ele trata mesmo como um avô ou um pai dos atletas, deixa sempre à vontade. Ele percebe que esse estilo conecta bem com o futebol brasileiro, acho que foi isso que fez também ele vir.
— Imagina o que é para mim. Há seis meses tinha assinado o contrato com o Napoli. Tive que voltar para a segunda liga para terminar o ano, porque já tinha feito três inscrições. Aí eu não podia ir para o Napoli já no meio da temporada deles. Tive que ficar até o final no Real Esporte Clube (em Portugal). Quando chego na pré-temporada, o que é? Dez meses atrás eu ia parar de jogar na segunda divisão do Goiano. Dez meses para frente eu estou com o Ancelotti, com o Napoli, que fez 91 pontos. Nunca me esqueço: 91 pontos, perdemos o campeonato para a Juventus, com 92. Hamsik, Insigne, Mertens, Koulibaly… Estava dentro do vestiário, não tinha coragem nem de me levantar para ir pegar uma água de tanto que aquilo era algo impossível.
— Na minha cabeça, era assim: “vou sair da segunda divisão (de Portugal), vou chegar lá e ok se os jogadores não me derem nem bom dia. Eu já estava esperando o Ancelotti nem sequer me cumprimentar, e estava tudo certo. Mas (o Ancelotti) foi o primeiro a cumprimentar, a querer falar um pouco de português, e os jogadores, todos, me abraçaram, foi uma experiência top. Foram duas pré-temporadas, dois meses, mas foi algo marcante, porque foi uma mudança de chave muito grande.
Carlos Vinicius conta como Ancelotti o surpreendeu: “Esperava que ele nem cumprimentasse”
Foi o próprio Ancelotti que falou que você não ficaria no Napoli ou foi uma conversa com a direção?
— A verdade é uma só: eu tenho muito discernimento para entender essa parada. Era um jogador da segunda divisão de Portugal, o meu clube ainda caiu para a terceira. Vou desse clube da terceira para um Napoli que fez 91 pontos. Eu não ia ter espaço. Quem vai ficar fora para justificar o Carlos Vinicius, que vem da segunda divisão de Portugal? Então, é super normal que eu iria fazer a pré-temporada, conhecer, sentir e depois ser emprestado, como eu fui, para o Rio Ave. Aí é a primeira divisão do Campeonato Português. Faço 20 jogos e 14 gols. Nos últimos seis meses do ano vou para o Monaco. A gente livrou o Monaco da segunda divisão, não caiu por um ponto. Estava eu e o Falcao Garcia. E aí vou para o Benfica. Até aquele momento foi a terceira maior contratação da história do clube e, logo no primeiro ano, fui o artilheiro.
No Benfica você teve a certeza de que deu certo como jogador de futebol?
— Ali é certeza. E é assim: para lá (segunda divisão de Goiás) eu não volto mais. Eu falo para os meninos dessa parada do TBT… “Pô, mas você não tem saudade de nada?”. É sempre para frente. Ah, mas tu não pensa em voltar? Cara, não sou muito dessa de voltar, não. Não quer dizer que eu não gostei, que eu não gosto dos clubes em que eu passei, mas é sempre em frente. A história nos empurra para frente, para continuar fazendo. Obviamente que eu sei o carinho que todos os clubes que eu passei têm por mim. Não sou muito fã do TBT, não. Acho que nunca publiquei um TBT. Sempre para frente, buscando continuar com a história.
A temporada 2019/2020 foi a que você fez mais gols, com 24 gols em 47 jogos. Por que as coisas deram tão certo?
— Foi um pouco de tudo. A gente estava vivendo uma fase única. A coisa mais difícil foi a questão de perder o título. Nós estávamos, se não me engano, com sete pontos à frente em janeiro, ou seja, meio que reta final, segundo semestre (da temporada). E aí veio a Covid. Essa foi a parte mais triste da história em relação ao Benfica, porque estava caminhando para ter o combo completo, que era ser artilheiro e com título do campeonato. Mas, infelizmente, a gente deixou escapar muitas coisas, principalmente (devido) a questão do Covid.
— A gente estava bem, mas o porquê dessa temporada (ter sido tão boa) acho que foi a forma que me receberam na equipe. Eu lembro que até com o Pizzi a gente fez uma boa ligação, eu e ele fizemos quase 50 gols, eu fiz 24, e ele fez 25. São contextos que encaixam e é difícil de explicar, até porque eu chego como terceira maior contratação da história do clube, mas à minha frente tinha o artilheiro do último campeonato e a maior contratação da história, que era o Raúl de Tomás, um cara que veio do Real Madrid.
— Para mim, cinco minutinhos eram como se fossem 90. Inclusive, o artilheiro era o Seferovic. Tinha acabado de ser o artilheiro da última temporada. Raúl de Tomás vem do Real Madrid por 25 milhões de euros e aquela coisa toda. Eu já entrei com aquele pensamento: para mim, vai sobrar uns poucos minutos e aqui eu tenho que marcar o meu nome. Foi isso. Entrei faltando dez minutos acho, cinco minutos, na estreia. Fiz gol e aí fui fazendo, terminei com 24 e artilheiro do campeonato. São coisas que às vezes são difíceis de explicar, mas se vive na prática, encaixou muito bem.
Carlos Vinicius, atacante do Grêmio, em entrevista ao Abre Aspas
Victor Lannes
Qual foi o técnico que desenvolveu mais o seu jogo, que você aprendeu mais?
— O Jorge Jesus foi um treinador de ensino, um professor. Depois, com a gestão de grupo, com saber ganhar, com saber do jogo como ninguém, o José Mourinho no Tottenham. Vamos para o jogo, e ele diz: “vai acontecer isso, isso e isso para o positivo e isso e isso para o negativo”. E aí você já sabe o jogo. Para mim, de todos, ele é o maior que eu respeito. Vi que não só é pelos títulos, mas pela pessoa, pela forma que lidera, pelo jeito de ser. Top, para mim, é o Mourinho. É o maior de todos.
Tem alguma história com o Mourinho que te marcou?
— Eu lembro que quando estava acertado para ir para o Tottenham me falaram: “o Mourinho vai te ligar”. Eu achando que era conversa. Ele me ligou pelo FaceTime, eu olhei e falei: mentira. Quando atendi, o pensamento era: que tipo de conversa eu vou ter com ele? Aí ele me pergunta: “como é que é, está bem? Olha, não venha para cá de Havaianas, porque aqui é frio”. E já logo quebrou o gelo. Eu imaginava é o Mourinho bravo, porque nas entrevistas está sempre assim, principalmente nas coletivas de imprensa. Eu imaginava aquele que a gente vê de fora. E quando me liga e eu vejo aquele Mourinho, uau, aqui tem algo diferente. Começa a me mandar mensagem, como se fosse um membro qualquer do clube, um coordenador. Quando chego, ele conversa comigo, e eu vivendo aquele sonho de ver o Mourinho. Às vezes, pensava assim: “meu Deus, será que esse é o Mourinho de verdade?”.
— Chego, passam duas semanas, ele me coloca para treinar com jogadores que não iam para o jogo. E eu sem entender nada. Eu treinando, treinando, treinando, e ele vinha. Eu brinco até com o Willian, que esteve no Chelsea. Ele sabe os toquezinhos dele (do Mourinho), vem com a mãozinha no casaco. Passa por mim: “estás a treinar muito bem, continua assim”. Treinamento? Tem que me meter com os 20, 22 no jogo, né? E eu cheguei para os auxiliares para saber o que é que eu fiz. Imagina com o Mourinho ainda, eu estou morto então. O que eu fiz? Como o homem me meteu aqui? E os auxiliarem dizem: “só continua trabalhando, só continua”. Fiquei uma semana e meia naquilo, de canto. Quando ele volta e diz assim: “já vi que tu é dos meus, posso contar contigo”. Ou seja, ele estava me testando. São coisas que são difíceis de se explicar e aprender nos tais cursos de treinador.
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— É por isso que muitos dizem que foi o Mourinho que revolucionou o futebol. Eu encontrei o Andreas (Pereira) no Fulham, e ele (Mourinho) fez exatamente a mesma coisa. Fechou a porta na cara do Andreas e tudo. “Não fala mais comigo e pá”, fechou a porta na cara do Andreas. E o Andreas desesperou, foi falar com o auxiliar. O auxiliar disse: “mano, não sei, ele está bravo”. Aí ele estava lá, passaram dois dias (e disse): “já vi que tu é dos meus, posso contar contigo. Vamos à luta”. Se é a forma certa ou errada, não sei. Só sei que o Mourinho ganhou tudo. Não vou ser eu que vou dizer que ele está errado. Por isso é que eu respeito muito ele e todos os técnicos que eu tive. Mas ele chamou atenção com muitas coisas no dia a dia, da forma de lidar e liderar, que marca, verdadeiramente marca.
Com o Jorge Jesus você também tem histórias como essa?
— O Jorge Jesus ensina muito sobre o jogo em si, das ações, da forma que ele quer, a tática. A gente costuma dizer que o Jorge Jesus bate daquele tipo de que ele crê que quanto mais ele falar “aqui, aqui, aqui” é que tu vai entender. Então, ele é muito desse de repetir. Só que esse repetir dele é com palavrão e gritando. Se tiver que pegar, ele pega, mas é a forma que ele crê. Ele acha que quanto mais repetir é que vai entender.
— No primeiro treino, ele está fazendo o 10 para 0 (sem adversário), o cara tocou para mim, eu devolvi de primeira e ele parou o treino. E eu (pensando) assim: ele já vai rasgar comigo. E quando ele para o treino, gosta que todo mundo olhe. E eu assim: ele vai arrebentar comigo. E ele diz: “sabe no que tu és bom?”. E eu: ele vai dizer que eu sou bom lá fora. Porque quando ele está dando dura ninguém espera que ele vá elogiar. “Tu és muito bom em um toque, um primeiro toque, um toque e passa”. Eu já estava mais nem aí se eu sou bom nisso ou naquilo, só de não levar dura já era top. Só que aí, em seguida, ele vem num trabalho de passe, chega no ouvido e diz: “a bola nos teus pés parece um coco”.
— Você imagina o seu treinador chega no teu ouvido e mete essa, já desmonta, psicologicamente vai abaixo. Só que ele é assim, também vai ser o outro lado quando tu fizer bem. No dia seguinte, que era trabalho de passe, estava ainda aquecendo, mais desligado, a bola salta uma, bola salta duas, ele já (critica). Vi muitas coisas do Jorge Jesus no treino. Não é fácil estar com o velhinho, mas muitos jogadores vão dizer: realmente é um professor. Só que a tua cabeça fica daquele jeito com ele.
Você trabalhou com muitos treinadores portugueses. O que eles têm em comum?
— A escola portuguesa é uma das melhores na formação de treinadores. Todos os lugares têm treinador português, as maiores ligas do mundo. O Mourinho revolucionou muito. Quando ele revoluciona, vira alvo, como ídolo, as pessoas querem ser o Mourinho. Aqui no Brasil toda criança quer ser jogador de futebol. Por quê? Porque o nosso passado foi de grandes craques. Já em Portugal formam-se muitos treinadores. Quando eu vou para Portugal, por exemplo, o papo dentro dos vestiários de jogadores é de ser treinador.
— Eles falam do jogo, não falam como nós da técnica executada no jogo, da ousadia, da alegria. Eles falam mais da tática. Tanto que eu joguei com muitos jogadores de 22, 23 anos tirando curso para treinador. Não sei muito explicar, mas a verdade é que a conversa do jovem em Portugal é ser treinador, ser diretor. Já é diferente daqui.
Você parece entender o trabalho dos treinadores, até quando leva uma cobrança. É com essa consciência que você tem defendido a permanência do Luís Castro no Grêmio?
— Às vezes, o jogador, tem muito aquela coisa de olhar primeiro para o nosso. Se o meu está bem, o treinador está bem. Se o meu está mal, é culpa do treinador. Cria-se dentro dessa cultura que a gente vive o costume de apontar o treinador. Até porque, se for para trocar, é muito mais fácil trocar o treinador do que trocar os 30 ou trocar os 20 (jogadores). Só que eu não vejo dessa forma. Por exemplo, no último ano do Fulham eu não joguei. E se me pergunta do Marco Silva, eu digo que ele está preparado para subir o nível na Premier League. Sabemos que o Fulham é um clube que briga do meio de tabela para baixo. E eu posso dizer que o Marco Silva está preparado para assumir um clube de top 5, top 6. E eu não joguei o último ano com o Marco Silva.
— Quanto mais o jogador entender os dois lados da situação, fica mais fácil para entender o jogo. Por isso é que quando acabou o jogo, acho que foi contra o Cruzeiro, (eu digo): “será que é mais fácil nós apontarmos tudo e meter tudo nas costas do Luís Castro?”. E se nós tivéssemos ganho o jogo do Cruzeiro, iríamos meter tudo nas costas do Arthur Jorge? Se ganhamos do Cruzeiro, a pergunta que fizeram para mim sobre o comando, sobre a liderança, sobre o treinador, ia ser feita para o jogador do Cruzeiro. Se o Arthur Jorge tinha que sair ou não. Qual é o campeonato de exemplo? É a Premier League, goste ou não, é a liga que todo mundo quer assistir, quer jogar, quer entrevistar. Como a maior liga do mundo faz? Faz como fez com o Klopp? Perdeu tudo no início e ganhou tudo do meio para o fim?
Você acha que isso é uma coisa da imprensa, que começa a supervalorizar o trabalho do técnico? Ou tem também uma parcela dos jogadores de assumir um pouco mais essa responsabilidade?
— De tudo. Entra imprensa, jogadores, torcida e depois a sociedade. Para mim, tem a ver muito com a sociedade, que somos nós de um modo geral, não vou apontar que é só imprensa. A sociedade que a gente vive hoje, principalmente no Brasil, é assim: tu tem? Tem. Então tu é bom. Tu não tem? Então, tchau. Tu não presta. E tem que dar logo. E andamos nessa parada. Afeta os comandos. Tem um comando, elegemos um comando, se esse comando em seis meses não resolver, está tudo mal.
— Não formamos, andamos só nessa. Por que disputamos uma grande competição, que é o Brasileiro, por que temos uma grande seleção, respeitada e conceituada por onde vai, e não metemos treinadores na Europa? Por que não formamos verdadeiramente treinadores, diretores para o mundo do futebol, se somos nós e falamos que somos o país do futebol?
Você tem resposta para essa pergunta?
— É difícil, mas temos que abrir o olho. É rever os conceitos. Não pode um país que revela tanto para o futebol revelar só o jogador. Por que não revelamos o treinador? Por que não revelamos o diretor? Perdemos um jogo (na Europa) e não passa nada, porque eles entendem que para o atleta profissional de futebol o jogo é a profissão dele. Naquele dia a profissão correu mal, como no teu dia, na tua profissão. Então, bora, segue. “Ah, Vinícius, mas eu vi os torcedores xingando”. Tem, porque o futebol é emoção, paixão. Tem, mas no geral, não.
— Seria top aqui no Brasil se jogasse uma vez por semana. Não é só pelo cansaço, é para desfrutar a vitória. Quando desfruta, porque muitas vezes é mais um alívio do que um desfrute. Aqui no Brasil ganhamos o jogo quarta. Desfrutamos de quarta para quinta, e sábado já tem de novo, domingo já tem de novo e aí já vamos para o xeque-mate, para o tudo ou nada. Então, calma lá. Futebol é a nossa paixão, futebol é aquilo em que estamos envolvidos, é a oportunidade que Deus nos deu para estarmos envolvidos. E é aquilo que nos traz guerra.
— Às vezes, eu fico olhando. Vamos jogar aí, principalmente na Sul-Americana, um fim do mundo, e está lá o torcedor. Uau. Que coragem, que paixão. No fundo isso pega porque o que trouxe esse cara aqui? Foi dinheiro? Não, porque se brincar ele gasta. É a paixão pelo jogo. E eu sei que o descarregar dele é porque a gente errou um passe, é porque… Mas, calma. Calma que estamos vivendo no meio que a gente ama. Dá tempo para certas coisas, para responder o teu ódio, deixa as coisas fluírem no fim e vamos concluir se é bom ou não. Quem é o líder hoje do campeonato hoje?
Palmeiras.
— Abaixo do Palmeiras, todo mundo está em crise. É o que eu ia dizer. E aí se o Palmeiras empatar o próximo jogo, está em crise. Não vem me dizer que isso é normal. Não pode ser normal. Temos um produto muito top, temos um campeonato muito top, temos clubes com grande dimensão financeira, torcida, estrutura, vamos andar assim?
Carlos Vinicius, atacante do Grêmio, em entrevista ao Abre Aspas
Victor Lannes
Você sente essa tensão no Grêmio?
— É normal que, como a gente vai vivendo uma fase, um bom momento, vai fazendo os gols, te tira um pouco dessa pressão. Só que eu não sou cego. É tão engraçado que o Vinícius não está sofrendo essa pressão porque está dando conta, faz os gols e é o matador. E daí quem salva é só o Vinícius e o resto não presta. Mas o guerreiro que vocês estão fazendo pressão foi ele que me deu assistência. Eu preciso dele bem para que ele venha me dar assistência, para que os gols contem para a vitória. E a vitória traz sucesso. E do sucesso desfrutamos todos. Tira o alvo do Vinícius, vamos pegar esse (outro jogador). Esse chega no meio de semana e faz o gol da vitória. Ufa, até que enfim. E domingo vamos de novo. O Vinícius falhou em três pênaltis (contra o Palestino). Meu Deus do céu! Tem gente que chega a dizer: “é um mau caráter, é um mau caráter que não passou a bola do terceiro, tinha que passar”.
— Na semana seguinte, tem pênalti de novo. E agora? O que o Vinícius vai fazer? E o Vinícius vai lá e fez. Ufa, graças a Deus que fez. Entendeu? Eu vou agora chegar para dizer assim: viu, eu fiz, falei para que sou bom? Não, eu podia ter falhado também contra o Riestra. Ia mudar o meu caráter? Ia mudar a minha forma de ser? Ia mudar a minha forma de estar na sociedade? Temos que ver por aí. É só contar até dez antes da atitude. Estou dizendo no modo geral, torcida, clube, imprensa, sociedade. Dentro de um campo, com tudo que se gera em um jogo do futebol, e ter segundos para pensar e executar.
Para continuar batendo os pênaltis, mesmo com as falhas, tem que ter um mental forte. Passar a bola para outro cobrar o pênalti não seria errado. É uma situação difícil.
— Não é fácil. Sabe por quê? Porque ali nessa situação do falhar e de já ter uma situação, passar cinco dias, uma semana, e assumir de novo, está o Carlos Vinícius, ser humano, pai de família. Eu digo sempre que na situação dos três pênaltis falhados, eu não sofri. Falho os três pênaltis, olho para o relógio e vejo que estava em 20 minutos, eu falo assim: tranquilo, eu vou fazer o gol. Vai sobrar um aqui e eu vou fazer. E fiz. Bateu na mão do Riquelme (e o gol foi anulado). Se eu não faço, vou fazer no jogo a seguir. Só que quem sofre mais são as pessoas que estão em volta. As pessoas julgam o Vinícius que falhou, que acertou dentro do campo, e não estão nem aí porque acham que somos uma máquina e temos que aguentar, porque financeiramente você ganha para isso. Entra aquela raiva com paixão, com tudo, e eu tenho que atacar alguém. E repito de modo geral, é a sociedade, entendeu?
— Quando o mal acontece, você não recebe só ali a pressão do teu clube. Recebe de pessoas do outro lado do mundo, que não tem nada a ver com a parada. Vi muito minha cara quando eu falhei os três pênaltis. Agora, quando eu fiz… Só que nesse contexto, principalmente dos três pênaltis, sofrem muito mais as pessoas que estão em volta. Porque eu sei que vou entrar lá de novo, vai ter uma situação. E eu super tranquilo, sei que o treinador, os jogadores confiam. Quando acontece o pênalti todo mundo já começa: “eu pego, eu pego”. Eu pego a bola e obviamente que gera uma atenção em mim. Eu brinquei com os meninos: na hora que o árbitro apitou vocês não foram nem falar com ele. Só olharam para mim, do tipo: “e agora, o que é que vai fazer?”. Não me resume, mano. Os três pênaltis não resumem o que eu sou.
“Minha vida não vai ser resumida em três ou quatro pênaltis”, diz Carlos Vinicius
Você vai para o próximo jogo sabendo que vai bater se tiver pênalti?
— Debaixo da autoridade do treinador. Ninguém sabia que, antes dos três pênaltis errados, desde 2018 que eu não tinha falhado um pênalti. Dói no sentido de que poderia ter saído com os três pontos. Eu assumo, falhei. Agora, da dúvida, se sou ou não porque o pênalti foi foi válido ou não, foi para fora ou para dentro, e por aí vai, né? Isso não. Eu sou quem eu sou, e o que me trouxe aqui, essa obediência é por princípio. Agora, a minha vida não vai ser resumida em três pênaltis, ou quatro pênaltis, o que quer que seja.
Você pode fazer muitos gols, mas o que mais viraliza são os perdidos.
— Tem a ver com a sociedade. “Mas está falando da torcida do Grêmio?”. Zero. A torcida do Grêmio tem um carinho por mim, pela minha família, top. Estou muito feliz, ela sabe o quanto eu respeito. Até minha esposa disse: “você dentro de campo é de uma forma que eu nunca vi”. Lembro de um amigo nosso, que chegou em casa eu estava lendo a Bíblia, e ele disse: “como você faz para se transformar desse jeito dentro de campo?”. Eu disse: “mano, fica com esse Vinícius calmo que está vendo aqui”. Dentro de campo traz essa essa paixão toda pelo jogo, disputar tudo pelo jogo, pela camisa. Estou falando da sociedade em geral, em tudo, torcida, sociedade, imprensa. É só pensar um pouco no que podemos melhorar que vamos dar um passo em frente.
Carlos Vinicius, atacante do Grêmio, em entrevista ao Abre Aspas
Victor Lannes
Muitas vezes imagina-se que o ambiente do futebol é um pouco promíscuo, de muita festa e outras situações. Como você coloca a sua fé dentro do dia a dia do vestiário?
— Isso é importante na nossa vida, a gente ter pessoas para nos dar um conselho ou algo do tipo. Mas muito além disso, o importante é ter ao nosso lado pessoas que dão o bom testemunho, o bom exemplo. E eu tenho, não só aqui, mas ao longo da minha vida, mediante aquilo que Deus fez na minha vida, de dar o bom exemplo dentro desses princípios. É claro que dando esses bons exemplos você tem autoridade para falar e até mesmo para ser ouvido. Uma coisa é falar e não ser ouvido. Eu vejo que tenho esse respeito com o grupo. Agora, obviamente que não é de chegar e bater na mesa e dizer assim: hoje ninguém sai para lugar nenhum. Não é sobre essa parada. É sobre dar conselhos e ouvir conselhos, porque temos também no plantel jogadores com uma grande carreira, com uma grande vida na sociedade, digamos assim, que eu também paro para ouvir.
— Juntando todos esses pontos, o plantel só tem a ganhar. Eu fico feliz. Eles sabem que dentro de um plantel tem todo tipo no bom sentido da coisa. Agora, obviamente, que não é o pastor Carlos Vinícius que vai chegar e dizer que ninguém sai para aqui, ninguém sai para ali. Por quê? Criamos essa parada da sociedade de que o jogador de futebol não pode. E olha quem está falando é uma pessoa cristã. O que eu mais quero é que ele saia para a igreja, seja uma pessoa que não pratique coisas más. Jogador faz parte da sociedade, gente. A gente tem uma vida também. Tem um sentimento, quer sentir também algumas coisas que a sociedade pratica. Só que tu não pode porque é jogador. Nós temos uma grande responsabilidade, mas também temos alguns desejos de fazer aquilo que a sociedade faz num dia comum. E nós somos crucificados por essa parada.
Esse lado religioso, de pregar e dar testemunho, em algum momento não foi bem aceito no ambiente do futebol?
— Não, porque volto a repetir sobre o bom exemplo. Primeiro, tu dá esse bom exemplo e, se necessário for, abre a tua boca. Agora, quando tu parte ao contrário de falar, falar, falar e empurrar goela abaixo os teus princípios, aí algo está errado. É por isso que ninguém nunca me rejeitou. Sou cristão e já andei por terras muçulmanas, por exemplo, no Galatasaray, na Turquia. Não passa nada. Porque o nosso testemunho é que edifica o lugar. É por isso que vou e volto, como eu falei no início. Vou para todos os clubes, por onde passei, posso entrar, têm porta aberta, porque a gente andou por princípio.
— Não é sobre ser rejeitado, até mais aqui no Brasil, graças a Deus, é muito mais aberto a isso. Eu costumo dizer que somos um país liberto a isso, mas também já tive nas terras muçulmanas, por exemplo, e tudo bem. Antigamente, as pessoas do futebol falavam que tinha uma certa rejeição (a religião), mas hoje a gente vive mais tranquilo.
Você é pastor?
— Não, eu sou ungido a evangelista. Como eu digo, o evangelista faz um pouco de tudo. Até porque pastor a gente não “quer ser”. Somos escolhidos.
Pastor? Carlos Vinicius, atacante do Grêmio, explica relação com a religião
Você passou muito tempo na Europa e se readapta muito bem ao Brasil. Tem um diagnóstico do porquê disso?
— A certeza disso é o clube. Parece que eu estou aqui ao clube já tem anos e anos. Ainda não fez nem um ano que eu estou aqui. Não conheço ninguém que está vivendo mal dentro do seu clube, mal na sociedade e vai jogar bem. No futebol de hoje, não acredito que tenha muitos. Então, (o Grêmio) me deixou à vontade aqui. Acho que isso foi o diferencial. Eu chego numa situação que o caminhão já está andando. Chego no meio do ano, no meio da temporada e tenho que me adaptar a uma situação que sabemos que o clube não estava bem. Não só eu, mas chegaram outros jogadores que precisavam se adaptar logo, para dar resposta. Se perguntar para qualquer um, Arthur, Marcos Rocha, Willian, foi a forma que o clube nos recebeu. Tudo que está aí em torno nos deixou muito à vontade.
Você jogou na elite, Premier League, Champions League. Quando vem para cá, sente um nível abaixo ou não?
— No futebol de hoje em dia não existe mais isso. Vocês vão entender que alguns anos atrás ia jogar a Copa do Brasil, por exemplo. O clube de Série A ia pegar o clube da segunda, terceira divisão. Nem vídeo mostrava. Mandava a equipe reserva, o terceiro suplente, era 3, 4 (a zero) e tudo certo. Hoje não tem hipótese. Todo mundo tem acesso à formação, informação, todo mundo sabe treinar. Todo mundo sabe ter obediência tática, técnica. Hoje, o futebol, se não se preparar bem, vai perder para o time da segunda, terceira divisão.
— A Premier League tem seus níveis, suas dificuldades, seus benefícios, top. O Brasileirão também. “Ah, então manda o fulano vir aqui que o fulano vai ganhar o Campeonato Brasileiro”. Se o fulano trabalhar aqui para ganhar o Campeonato Brasileiro vai ganhar o Campeonato Brasileiro. Mas se os clubes daqui trabalharem para ganhar a Premier League, se preparar, vão ganhar. Não vem com essa de que o clube do X vai vir aqui ganhar com o pé nas costas. Não existe mais.
Você acha que bateu na trave para ir para a seleção brasileira esse ano?
— Da seleção brasileira é sempre engraçado. Para mim, a Seleção não tem data de validade. Obviamente que a gente está diante da Copa do Mundo e todos nós, no geral, do futebol, queremos estar na Copa. Comigo não é diferente, é um sonho que eu busco, sempre esteve no meu coração. Você vai passando pelos campeonatos, e aquilo que vai fazendo vai te trazendo mais esperança, mas não tem data de validade. Não tem data de validade, quer que seja na Copa agora, quer que seja para depois.
Teve algum momento lá atrás que você também foi cogitado na Seleção?
— No Benfica teve alguma, como se diz, observação. Só que lembro que eu fazia dois gols, o Gabriel Jesus fazia três, e o Firmino fazia três, aí não tem hipótese. Agora, se não vai o Carlos Vinícius, foi o Igor Thiago. Está brigando com o Haaland na Premier League. Se não vai o Igor Thiago, vai o João Pedro. Gol todo jogo também. Graças a Deus por isso a seleção brasileira, de tempos e tempos, seja em boa fase ou má fase, tem jogadores no alto nível. Para mim e para todos não tem data de validade.
Você sente que passou a ser mais conhecido nessa volta ao Brasil mesmo tendo jogado em grandes ligas?
— Claramente. Por exemplo, a Premier League não passa em canal aberto, Já o Campeonato Brasileiro passa. E tem mais acesso. É normal isso. Tem jogadores que fazem grandes carreiras lá fora que aqui no Brasil não são muito conhecidos. E quando volta, ainda mais sabendo a grandeza que é o Grêmio, e vai fazendo acontecer em um campeonato como é o Brasileirão, dá visibilidade para os quatro cantos do país. O Brasileirão é muito respeitado. Porque as grandes ligas vêm buscar esse produto aqui. É normal que hoje o Carlos Vinícius seja muito mais conhecido no Brasil do que quando jogava no Tottenham, por exemplo, do que quando eu estava no Fulham, isso é normal.
— Até para a minha família de Bom Jesus das Selvas. Acha que lá tem muita gente com condições para comprar pacote de Premier League? Estamos mais perto aqui do nosso país, é normal conhecer as caras aqui.
Carlos Vinicius, atacante do Grêmio, em entrevista ao Abre Aspas
Victor Lannes
Qual é o teu planejamento: seguir no Brasil ou ter mais alguma experiência lá fora?
— Eu tenho um contrato com o Grêmio até final do ano, e minha família está feliz, eu estou feliz. No fundo, é isso que a gente quer dentro do futebol, da nossa profissão, é felicidade. Fazer o plano a médio e longo prazo não é muito o meu forte. Estamos contentes, estamos em conversa (para renovação com o Grêmio), vamos ver como é que isso vai acontecer.
O objetivo coletivo é sempre o principal, mas a artilharia também é uma coisa que te move?
— Não, o gol traz confiança para o próximo (jogo), isso é certo. E obviamente que tu vai fazendo os gols, vai brigando ali em cima, no fundo é uma briga, uma disputa, sadia e boa, mas é uma disputa, e disputa tu não quer ficar atrás. Agora, é a bola na rede que vai contar nessa disputa. Fico feliz por aquilo que são os números. Se eu dissesse “não, não penso nisso”… É óbvio que penso. O gol, para além de contar para essa disputa de artilharia, vai ajudar a equipe.
Qual foi o jogador que você mais gostou de jogar junto?
— Eu peguei muito jogador bom. Um que me chamou muito a atenção foi o Harry Kane, porque é nível máximo. Mas também peguei o Fábregas, tem o Willian. Bale, no Tottenham. O Son para mim foi top também, o próprio Lucas Moura. Como o Harry Kane jogava mais Premier League, e eu jogava mais Europa League. Tivemos muitos jogos, principalmente com o Lucas Moura. Quando eu cheguei ao Tottenham era zero em inglês. Não que agora eu seja fluente, mas já não passo fome. Com o Lucas foi uma conexão boa. O próprio Pizzi, que é um jogador que a nível mundial não tem tanto nome, mas marcou muito, fizemos uma grande dupla (no Benfica). Aquilo que a gente viveu é um certo privilégio.
Dá para pegar alguma coisinha de ver o Harry Kane treinando e nos jogos?
— Sim, uma coisa que me chamou muita atenção do próprio Harry Kane é que ele fazia um hat-trick e no outro dia de manhã não se passava nada, continuava o treino dele. É um dos jogadores mais completos que eu já vi. Só que não fala muito. Eu me arrisco a dizer que muita gente não tem noção do que é o Harry Kane. Ele é de um nível absurdo. Tudo o que falar daquilo que é do jogo, o Harry Kane tem. Mas não fala muito e vive ali na dele.
E os zagueiros?
— O Van Dijk é um zagueiro difícil. O Rüdiger, quando peguei no Chelsea. Foram poucos jogos. Depois, o Thiago Silva. Com o conhecimento que ele tem do jogo, se quiser, ele joga até os 55, 60 anos, porque ele prevê. Uma coisa é agir, ele nem vai agir dentro da ação, ele já prevê a situação, antecipa tudo. Tanto que saiu daqui e foi para o Porto, e está jogando. É um zagueiro muito difícil, diferente. É um zagueiro top mundial. E aí o Van Dijk por tudo aquilo que é.
Carlos Vinicius, atacante do Grêmio, em entrevista ao Abre Aspas
Victor Lannes
No Grêmio, todo mundo te chama de Vinícius, Vini… Tem algum lugar em que te chamam de Carlos?
— O único lugar que me chamaram mais de Carlos foi no Palmeiras. Mas no Santos era Maranhão, no início. E aí depois, quando eu saí, coloquei o Vinícius na camisa. Mas, na minha família, na minha cidade, Bom Jesus das Selvas, no Maranhão, é Vinícius.
E a sua família ainda vive no Maranhão?
— Segue no Maranhão. É como eu costumo falar: se sair de lá morre. A vida toda ali, dentro da nossa cultura. E nunca quiseram sair de lá. Aí eu sempre vou lá, agora estou mais perto aqui no Brasil.
Inclusive, você tem uma escolinha de futebol em Bom Jesus das Selvas, certo?
— A Escola de Futebol Vinícius 95. A gente tem mais de 100 crianças. A gente é que sustenta. Tem cidadania, tem formação. Como eu sempre falo, tem formação de caráter principalmente. E tem dado oportunidade também dentro do futebol, tem meninos que tem tido oportunidade para fazer teste pelos clubes.
É um projeto social?
— Não só aquele projeto social que fica para alimentar ou algo do tipo, mas também para viver o sonho, né? É “volte a sonhar” o subtítulo. Criamos essa ideia de os meninos voltarem a sonhar. É fazer teste nos clubes, a gente acompanhar nas escolas, formar como cidadão na cidade, mas também dar a oportunidade para se tornar um atleta profissional. Mais de cem famílias na nossa responsabilidade. Juntamente com essas crianças vêm as famílias que a gente termina por assumir, direta ou indiretamente. Mas tem sido esse top. Era um sonho que eu tinha. Já vamos para o quinto ano, acho eu.
Na sua infância, você teve alguém que fizesse algo parecido por você?
— Sim. Professor Luiz. Até hoje está lá, e até hoje mexe com isso. E eu ajudo também a escola dele. Desde sempre ele ajuda. Então, é gratificante, não só para mim, mas também para ele. Traz mais combustível. E ele continua, e a gente continua ainda ajudando. Uma forma também de gratidão por aquilo que ele fez por mim. Damos condição que ele venha fazer também para os outros da cidade realizarem.
O que você mais carrega da cultura do Maranhão?
— Na verdade, não dá para enganar muito. A forma que a gente fala e tudo, da gente ser, e todos os anos eu faço questão de ir lá. A gente está sempre envolvido. Mas é um pouquinho de tudo. Alimentação também. Quando as pessoas veem a gente comendo, que é uma comida típica, já vê que está ali um pouco do maranhense. A ligação fica com isso, que é estar na Inglaterra e a família levar farinha, flocão, essas coisas, entendeu? Eu brinco com os meninos que eu tenho passaporte português. Eu falo: “não sou português, eu sou europeu”. Ele dizem assim: “tu não engana nem aqui, nem na China, tu é do Maranhão, brasileiro do Maranhão”. Não dá para enganar.
Quando começou essa história de Vini da Pose?
— Ah, já começa no YouTube, o canal do Bit Fut. Acordei, quando estava no Monaco, e aí no Instagram estava cheio de mensagem: faz a pose, faz a pose. Eu não entendendo nada. Alguém nas mensagens me mandou um link, eu abri no Instagram, no YouTube. Era um carinha meu no Fifa, fez um gol e fez a pose. E aí eles pedindo para eu fazer essa pose. No jogo a seguir, eu fiz o gol, fiz a pose e todo mundo achou também que era por causa do Mbappé, que tinha acabado de sair do Monaco. O Monaco abraçou isso também. Eu acho que levou o dono do canal a Mônaco. Quando cheguei ao Benfica, eu falei que ia deixar quieto esse negócio da pose. Só que quando eu cheguei, pedem no vídeo de apresentação para girar e fazer a pose. Na estreia do Benfica eu fiz o gol, fiz a pose e pronto.
Se está dando sorte, tem que manter.
— Já era, não dá mais para fugir. Mas tem sido top. geRead More