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A França de hoje é o que o Brasil deixou de ser

A França de hoje é o que o Brasil deixou de ser

Mbappé dita o ritmo, iguala Messi e leva França à semifinal
Sempre que vejo o time de Didier Deschamps jogar, tenho uma sensação perturbadora: por mais avassaladora que seja, parece que a França está tentando ganhar uma Copa enquanto se poupa para a próxima. Parece que nunca chega nem perto da reserva de combustível.
Contra a boa seleção de Marrocos, os franceses cozinharam a partida em fogo baixo até que chegou o momento de atiçar as labaredas. O resultado de 2 a 0 coloca os bleus na sua terceira semifinal seguida de Copa do Mundo pela primeira vez na história.
Nesse ritmo, o time francês caminha para construir um extenso período hegemônico no futebol de seleções. A qualidade da equipe é quase obscena. Quando Olise não vai bem, Dembélé mostra porque foi escolhido o melhor do mundo. E ainda há Barcola, Doué, Cherki, cada um esperando para ser o protagonista da vez. E, claro, o fenômeno esportivo-cultural chamado Kylian Mbappé.
A impressão é que o maior oponente da França seria seu time reserva. E esse tipo de conjectura remete imediatamente ao Brasil do período de 1994 a 2002, que chegou em três finais e venceu duas. Também nos lembra, com amargura redobrada, do pálido esboço que nos tornamos.
Olise cumprimenta Mbappé em França x Marrocos
Reuters/David Butler
O Brasil continua sendo um terreno fértil — é o país que mais exporta jogadores para as principais ligas do mundo. Mas a França tem feito melhor: mais do que bons jogadores, forma nomes de exceção (99 jogadores desta Copa nasceram no país) através de uma mentalidade multidisciplinar que deveria servir de modelo.
Em certo momento, a França percebeu que apenas talento não bastava. Era preciso buscar a excelência. Após a decepção dos anos 1960 e 1970, quando deixou de se classificar para três das cinco edições disputadas, passou a investir pesado em formação de atletas.
Esse processo tem como maior símbolo o Instituto Nacional de Futebol de Clairefontaine, de onde saíram, entre outros, nomes como Henry, Pogba, Varane e Mbappé. É um método direcionado a fortalecer tanto os clubes quanto a seleção — todas as categorias de base do time nacional treinam em Clairefontaine.
Nesses centros, além de formação escolar, adolescentes de enorme potencial são lapidados por meio de uma filosofia baseada em desenvolvimento técnico, inteligência aplicada ao jogo e polivalência tática. Com um diferencial extremamente básico: busca-se preservar a criatividade aprendida nos tempos do futebol de rua. Talento extraído diretamente da periferia de Paris. Some-se a isso o pluralismo cultural da sociedade francesa e o que temos é uma geração deslumbrante.
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E nesse momento a comparação não pede licença. Semanas atrás, um amigo argentino interrompeu por dez segundos a veneração pela atual seleção campeã mundial para servir de oráculo. Ele disse: “a França de hoje é o que a gente achava que o Brasil de vinte anos atrás seria para sempre”. Me parece uma tradução perfeita de como nos sentimos, e não há como terceirizar a culpa.
No Brasil, as categorias de base dos clubes, além de muitas vezes adotarem métodos defasados, priorizam a padronização dos jovens jogadores, de acordo com a demanda inglesa. O Leicester precisa de pontas corredores o tempo inteiro, sempre é bom ressaltar. O método é insuficiente e a criatividade é sacrificada por uma linha de produção de jogadores que raras vezes se tornam nomes mundialmente relevantes.
Provoca uma dor quase física admirar o que a França faz em campo. Exatamente porque sabemos bem o que o Brasil já chegou a ser. geRead More