Na Bancada na Copa do Casos – Edição 009: À espera do show de Trump
Era a Copa de 2018, a Argentina era eliminada pela França de um jovem Mbappé e Lionel Messi era tido por absolutamente todos como um craque que encerraria por ali a sua passagem pela seleção da Argentina, uma relação cheia de dramas e tragédias, nem à altura da camisa albiceleste, ainda menos à altura do maior jogador do século XXI.
Aí ele ressurgiu como protagonista de uma geração de excelentes jogadores, que abraçou a missão segui-lo como devotos, sem questionamentos à sua capacidade de guiá-los à vitória. Morrer e matar pela camisa, pela Copa e por Léo.
No comando, uma sereno líder adepto da autogestão: Lionel Scaloni parece “mandar obedecendo”, sempre sujeito às impressões de quem está sangrando dentro de campo. Ele também, compreensivo de que, sem Messi, eles seriam só mais um bom time numa Copa disputadíssima.
E aí chegaram à segunda final de Copa consecutiva, algo raro. E agora estão há um passo de alcançar um feito que só a Itália (de Mussolini, em condições controversas) e o Brasil (de Pelé e Garrincha) foram capazes de fazer: ganhar duas vezes seguidas.
Chegamos à primeira final de Copa do Mundo entre dois campeões das outras seis edições de Copas do Mundo do século XXI. Pela primeira vez, alguém terá um segundo título nesta quadra da história.
A Espanha é dona de um futebol que divide opiniões. Um zelo excessivo pelo controle da bola, uma paciência insuportável em rodá-la até esperar que o tédio desconcentre o adversário, um futebol profundamente coletivo, sem estrelas, mas que só funciona porque é praticado por pés (e mentes) de altíssima qualidade.
Dois tipos bem diferentes de futebol de dedicação coletiva que dão muito certo: o que trabalha a favor do fator desequilibrante, um craque extraordinário; e o que trabalha em conjunto, equilibrada do gol ao ataque, com uma conexão difícil de reproduzir.
Ao que consta, o campeão terá que lidar com um inconveniente infiltrado na maior festa do futebol global.
Na Bancada
Nem zebra, nem goleada. Uma das grandes surpresas da Copa do Mundo foi a ausência completa do irremediavelmente midiático Donald Trump dos estádios que receberam, até aqui, 77 jogos do torneio. Até a grande final.
Estrategicamente discreto, depois de experimentar sonoras vaias do público em uma partida da final da NBA às vésperas da partida inaugural da Copa, o presidente dos Estados Unidos não esteve nem mesmo na abertura e resumiu a mandar representantes de primeiro escalão do seu governo para observar as partidas ao lado de Gianni Infantino, seu “mui amigo” presidente da FIFA.
Oficialmente, sua presença na final só foi finalmente confirmada nesta quinta-feira (16), algo praticamente obrigatório para um chefe de estado anfitrião de Copa. E, então, há uma grande chance de que Trump confirme a expectativa de repetição da presepada que protagonizou na Copa do Mundo de Clubes do ano passado, quando não desgarrou do capitão do Chelsea na hora do tradicional gesto de erguer a taça, aparecendo na foto do título.
A ausência nas caríssimas tribunas dos estádios não significou total alienamento do torneio. Trump endossou e chamou de sua a grande conspiração política que forçou figurões da FIFA a aceitarem a anulação da expusão de Folarin Balogun, atacante da US Soccer, para partida das oitavas contra a Bélgica. Incomodar a poderosa UEFA e a pedante comunidade futebolística europeia jamais soaria um problema grande para o presidente norte-americano. Muito menos gerar desgaste à coalizão política que comanda a FIFA (e que lhe bajulou por tantos anos).
No cenário geral, não dá pra descartar um certo lucro político de Trump. A mobilização nacional para a Copa do Mundo acabou por abafar as críticas (ou colaborar com a tomada de decisão) de novas jogadas da sua “chaos politik” convencional: a estratégia de tumultuar tudo o que for possível para ocupar as manchetes, manter sua imagem em voga e mobilizar suas bases eleitorais como se algo de útil estivesse sendo produzido.
Enquanto a bola rolava, Donald Trump abriu uma nova frente de guerra no Irã e voltou a impor tarifas a meio mundo, inclusive ao Brasil e a outros países presentes no torneio. No contexto interno, o temor aventado antes do início da Copa se confirmou: o ICE aproveitou a atenção voltada ao torneio para promover a detenção em massa de supostos imigrantes ilegais.
Entre os dias 26 e 30 de junho, nada menos que 10 mil pessoas foram detidas. Uma média de 2 mil por dia, quase o dobro do que se fazia no início do ano, na fase aguda dos protestos populares e da tensão causada pela presença do ICE em cidades de maioria democrata.
De acordo reportagem do New York Times, que teve acesso a documentos internos, houve pressão da Casa Branca para um aumento no número de prisões, com diretores tendo recebido ordem para manter o máximo efetivo possível e com 80% do pessoal voltado para operações de detenção. As operações não se deram exatamente nos dias e nos locais de jogos, mas de modo discreto.
Donald Trump poupou a sua exposição para o dia mais importante da Copa do Mundo, aquele que registra a imagem para posteridade. A final, que ainda tem ingressos disponíveis a cerca de US$ 9 mil (R$ 45 mil) na mão dos “cambistas oficiais” no site da FIFA (cerca de 45 mil reais), estará ocupada por um público muito pouco preocupado em demonstrar desapreço pelo mandatário.
Ambiente controlado, casa em ordem, Trump fará do grande encerramento da Copa um evento de celebração pessoal: avançou nas suas políticas caóticas, gerou números impactantes para as manchetes, não apareceu sob vaias, exercitou poder sobre a FIFA e vai agradecer toda bajulação – de Prêmio Nobel da Paz, a boné MAGA, a visita da própria Copa no Salão Oval da Casa Branca – com a taça nas mãos, ao lado de Messi ou de Rodri.
A Copa Além da Copa
Para a grande final, os companheiros do Copa Além da Copa separaram duas publicações sobre as seleções finalistas.
Começando pela Espanha, em “A influência basca no futebol espanhol”.
A Espanha é um dos países mais dividos em nacionalidades/regionalidades da Europa, onde a seleção ainda tem grandes dificuldades em arregimentar apoio em todo território nacional. Como fazer catalães, bascos, galegos, andaluzes ou valencianos “trocarem” suas identidades nacionais locais por uma bandeira que, ainda hoje, representa mais o centralismo de Madri, a hegemonia castelhana e, para muitos, a monarquia e o franquismo? Para a sorte da Real Federação Español de Fútbol, se joga e se pensa futebol em altíssimo nível nessas regiões autônomas, e são elas que fornecem a qualidade do futebol “espanhol” atual.
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Sobre a Argentina, uma leitura quase filosófica do futebol do país vizinho: “A transformação argentina de 1978 a 2026”
Da seleção campeã do mundo com o técnico filósofo e comunista, em plena Ditadura Civil, à seleção campeã do mundo com um dos maiores gênios da história do futebol, famoso por ser apático midiaticamente, mas sempre relacionado passivamente a projetos de poder. Afinal, Lionel Messi é pragmático, indiferente, sonso ou ignorante? Uma discussão que provavelmente perseguirá o craque após a aposentadoria.
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Ludopédio – para ler o jogo
Às vésperas da final da Copa do Mundo, o Ludopédio convidou dois especialistas para uma conversa sobre futebol e política que envolve as duas seleções da final. De um lado, o historiador do esporte Victor de Leonardo Figols, especialista na história do futebol espanhol; de outro, o cientista político Jefferson Nascimento, autor do livro “Na grande área do poder: o futebol além das quatro linhas na Argentina e no Brasil (1930-2002)”, da Editora Ludopédio, onde analisa, de forma comparativa, as questões políticas e futebolísticas na Argentina e no Brasil. A conversa que atravessou as questões de campo, e abordou temas latentes como nacionalismo, xenofobia, racismo e política, está disponível no canal do Ludopédio. geRead More


