RÁDIO BPA

TV BPA

A Copa do Mundo me uniu ao meu filho quando mais precisamos

A Copa do Mundo me uniu ao meu filho quando mais precisamos

Espanha 1 x 0 Argentina | Melhores momentos | Final | Copa do Mundo 2026
Às 19h53 deste domingo, pouco depois de Espanha x Argentina, nasceu João, meu filho. Eu deveria ter previsto: para quem passou a Copa do Mundo no hospital, à espera do melhor momento para vir à luz, escolher o dia da final era o desenlace perfeito.
Vivemos a Copa lado a lado: ele dentro da barriga, eu aqui fora. As narrações, os gritos de gol, os cantos das torcidas – foi tudo trilha de fundo para o som que mais importava: a força da batida do coração do João na aparelhagem que media seu bem-estar.
Serei para sempre grato a esta Copa. Ela me uniu ao meu filho quando mais precisamos. Na longa espera hospitalar, cada jogo serviu como calmante para a angústia que vivemos, minha esposa e eu, diante da incerteza de uma internação antecipada, da saúde de nosso guri, do risco de um parto prematuro – que acabou se confirmando justamente neste domingo, justamente na final.
Rimos, vibramos, sofremos, nos espantamos – e assim aceleramos um pouco os ponteiros do relógio. No dia da eliminação para a Noruega, vivemos o jogo em família no quarto hospitalar. Compramos guloseimas e recebemos a visita de nossa filha. Dei uma bandeirinha do Brasil para ela. Com a sabedoria das crianças de cinco anos, ela se interessou mais pelo presente do que pelo jogo.
+ Análise: Espanha dá indícios nova dinastia no futebol
Espanha levanta troféu da Copa do Mundo
REUTERS/Hannah Mckay
Conforme a Copa se desenrolava, crescia a barriga, crescia o João. De dentro do hospital, vimos a saga das pequenas seleções e a genialidade dos grandes craques, vimos Vozinha e Messi, vimos jogos memoráveis e outros facilmente esquecíveis.
Contávamos o tempo em idade gestacional. Cada dia a mais na barriga era uma vitória; cada semana, uma festa. Enquanto isso, misturava-se outro tempo, o da tabela: ao passo que os jogos rareavam – três por dia, depois dois, depois só um, depois nenhum –, eu me perguntava quem venceria a corrida: se a Copa terminaria antes de o João nascer ou se o João daria um jeito de chegar antes da final.
Costumava me aproximar da barriga e dizer para o João ficar mais tempo lá dentro. Às vezes, contava para ele sobre a Copa. Talvez esse tenha sido o erro: deixei o guri curioso, ele não quis perder a última chance de ver uma final desse tamanho com Messi em campo.
Ferran Torres – Espanha x Argentina – Copa do Mundo – Final
REUTERS/Mike Segar TPX IMAGES OF THE DAY
Na manhã de domingo, nossas médicas decidiram que era hora. Marcaram o parto para as 19h. Conseguimos ver a vitória da Espanha em um leito do centro obstétrico, pelo celular, dividindo um fone de ouvido, enquanto esperávamos para conhecer o João – que passou o jogo se movimentando na barriga, como se reagisse aos vaivéns da final.
João e minha esposa, os amores que me acompanharam nesta saga, estão bem – são muito mais fortes do que eu jamais sonharia ser. Dentro de duas semanas, se tudo der certo, estaremos todos em casa. Conto as horas: não haverá uma Copa para nos emocionar, mas haverá todo o resto, haverá a vida.
E daqui a uns anos, quando o João se interessar por futebol, quando entender o que é uma Copa, quando memorizar bandeiras e colecionar figurinhas, estarei novamente ao lado dele. E lembrarei, com um misto de assombro e carinho, tudo que vivemos juntos em 2026 – até o apito final.
Messi lamenta derrota da Argentina para Espanha na final da Copa
Reuters geRead More